|
NÍSIA FLORESTA: Gênero e Educação no Rio de Janeiro Imperial
Luciana Castro
Nísia Floresta foi pioneira na fundação de um colégio para meninas, no nível dos melhores colégios masculinos da Corte. Seu trabalho como educadora e sua produção literária a colocam na posição de precursora dos ideais feministas no Brasil. Naquele momento, o Rio de Janeiro vivia sob a égide de uma sociedade patriarcal, onde os homens detinham o controle nos espaços públicos e privados, relegando às mulheres um papel secundário de procriadora, esposa e dona-de-casa. O acesso à educação se restringia ao necessário para o cumprimento de suas obrigações domésticas.
1 – Introdução
Em 1864, no jornal Diário do Rio de Janeiro, Machado de Assis comenta em sua coluna o lançamento de um livro de Nísia Floresta sobre sua viagem à Itália e Grécia. Mas afinal, quem foi essa mulher erudita, educadora e escritora, que se comportava de forma tão dissonante das outras mulheres de seu tempo?
Nísia nasceu no Rio Grande do Norte, em 1810, chegando à Corte em 1838, quando o Brasil era governado por uma regência, enquanto aguardava-se a maioridade de D. Pedro II. Neste mesmo ano, a educadora fundou um colégio que tinha como objetivo proporcionar às meninas da Corte um ensino equivalente ao das melhores instituições de ensino masculino existentes naquele momento. Este colégio chamava-se Augusto e era situado na rua do Paço Imperial, a Rua Direita.
O Colégio Augusto punha em prática teorias que Nísia publicou em Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens, seu primeiro livro, lançado em 1832, uma tradução livre de Vindication of the Right of Woman, de Mary Wollstonecraft. Nesta obra, a educadora reivindica uma educação igualitária entre homens e mulheres. Foi este também o teor de Opúsculo Humanitário, escrito vinte e um anos após o primeiro. Neste, Nísia demonstra a maturidade de suas idéias, de forma mais ampla, sobre uma sociedade igualitária para ambos os sexos.
A fundação do colégio e suas práticas pedagógicas inovadoras não foram bem recebidos pela sociedade imperial, que considerava desnecessário para a mulher qualquer aprendizado alheio ao universo doméstico. Bastaria que lhes ensinasse o suficiente para o bom desempenho de vida doméstica. A este respeito encontramos um relato do viajante Charles Expilly: ...a educação de uma brasileira está completa, desde que saiba ler e escrever corretamente, manejar o chicote, fazer doces e cantar acompanhando-se ao piano...
Devemos atentar para o fato de que a alfabetização citada pelo viajante atingia apenas as mulheres das classes mais abastadas, uma vez que a grande maioria das mulheres do oitocentismo não tinha acesso a qualquer tipo de letramento. Na verdade, os poucos colégios femininos existentes eram de má qualidade e davam acesso a uma minoria privilegiada.
2 – A Ciência, a Literatura e o Contexto Social
Se fizermos uma analogia entre as leituras de homens e mulheres das classes mais altas, veremos que os homens tinham acesso a obras de conteúdo político ou filosófico, eles deveriam ser preparados para a vida prática. Enquanto às mulheres eram oferecidos textos que exigissem menos de seu intelecto. Eram obras de caráter moralizador, sempre ditando regras que deveriam ser seguidas. Às mulheres era vedada, inclusive, a leitura de romances, como forma de evitar o estímulo à imaginação feminina. Essa preocupação não era restrita á família, já que na escola a mulher também não tinha acesso a obras que exigissem qualquer esforço de seu intelecto. A escola produzia materiais didáticos diferentes para meninos e meninas. O deles deveria trazer um conteúdo que lhes proporcionasse o aprendizado das mais diversas ciências, enquanto o delas exaltava a importância da vida doméstica.
O historiador francês do século XIX, Jules Michelet, afirmou que sem lar nem proteção a mulher morre. Esta afirmação comprova que a condição de inferioridade feminina não era uma situação exclusiva do Brasil. Roderick Barman ressalta que o modelo opressor era, como quase tudo no império, importado da Europa.
Rachel Soihet discute a situação da mulher no Império, trazendo o discurso corrente na medicina e exaltado pelo médico italiano Cesare Lombroso em oposição à idéia da escritora Virgínia Woolf.
Enquanto Lombroso afirma, com bases deterministas, que:
Falta às mulheres inclinação especial para uma arte, ciência, profissão; elas escrevem cardam, bordam, fazem músicas; elas são sucessivamente modistas, costureiras, floristas, boas para tudo e para nada; mas elas não portam, senão raramente a marca de sua própria originalidade. Se todas ou quase todas as mulheres cozinham, os grandes cozinheiros e os mestres desta arte são os homens. Isso provém de uma menor diferenciação nas funções de seu cérebro. Sua consciência é antijurídica, antifilosófica e é inferior moral, física e intelectualmente.
Woolf explica a condição de inferioridade intelectual feminina, considerando o aspecto cultural:
...Não pude deixar de pensar, enquanto olhava as obras de Shakespeare na prateleira, que o bispo não tinha razão pelo menos nisso: teria sido possível, completa e inteiramente, a qualquer mulher ter escrito as peças de Shakespeare na época de Shakespeare. Permitam-me imaginar, já que é tão difícil descobrir fatos, o que teria acontecido se Shakespeare tivesse tido uma irmã maravilhosamente dotada, chamada, digamos, Judith.
Sua extraordinariamente dotada irmã, suponhamos, permanecia em casa. Era tão audaciosa, tão imaginativa, tão ansiosa por ver o mundo quanto ele. Mas não foi mandada à escola. Não teve oportunidade de aprender gramática e lógica, quanto menos ler Horácio e Virgílio, pegava um livro de vez em quando, talvez um de seu irmão e lia algumas páginas. Mas nessas ocasiões os pais entravam e lhe diziam que fosse remendar as meias ou cuidar do guisado, e que não andasse no mundo da lua com livros e papéis.
Roderick Barman, em seu estudo sobre gênero e poder dentro da família imperial, afirma que apesar da Princesa Isabel ter recebido uma educação primorosa, incomum entre as mulheres da época, sentia-se inibida em empreender qualquer incursão independente ao mundo do saber, pois sua educação patriarcal a ensinou a não competir, nem contestar seu pai. Tal incursão a teria levado a questionar os papéis tradicionais, ou inspirado a traçar sua própria trajetória como herdeira do trono. Apesar de herdeira do Império, a Princesa Isabel vivia alheia aos negócios públicos, pois seu pai não a preparava para a função que a aguardava. Barman comenta que a atitude do Imperador se explica através da psicologia:
Ele precisava ter o controle absoluto do seu mundo tanto político como familiar. Ensinar a D. Isabel a arte de governar significava criar, em casa e no governo, um centro de poder autônomo, portanto, capaz de competir com ele e até mesmo de substituí-lo. A percepção dessa ameaça, provavelmente jamais declarada nem mesmo entendida, foi um dos fatores que o levou a excluir a herdeira dos negócios públicos.
Em História das Mulheres do Brasil, encontramos um relato sobre Maria Ferreira Mendes Tourinho, que nutria enorme gosto pelos estudos, porém após o casamento e a chegada dos filhos foi obrigada a abandoná-los. A mulher ficou profundamente frustrada, pois não se ajustava à imagem de mãe ideal. Além disso, dissociava o desejo sexual da finalidade reprodutora. Maria não se enquadrava no ideal de mãe de família estabelecido pela sociedade, sofreu tanto por não corresponder ao que a sociedade esperava dela, que terminou seus dias num hospital psiquiátrico.
Percebemos, então, que o patriarcalismo que condicionava as mulheres à inferioridade era uma prática social ratificada pelos estudiosos das mais diversas ciências. E atingia mulheres de todas as classes sociais, em maior ou menor grau, da mais simplória mãe de família à princesa, herdeira do trono.
A literatura produzida na época retrata, por meio de suas personagens, o cotidiano feminino. Nem mesmo a mulher idealizada, tão comum no Romantismo, estilo literário em voga no século XIX, esconde em sua suposta atitude heróica, a fragilidade que se esperava da mulher. Basta lermos nas entrelinhas de José de Alencar para percebermos a fragilidade de Aurélia Camargo, em Senhora, apesar do esforço do autor em transformá-la numa personagem à frente de seu tempo. Nas momentos finais da obra, a personagem, como num ato de redenção, ajoelha-se aos pés do marido, enquanto diz:
Aquela que te humilhou, aqui a tens abatida, no mesmo lugar onde ultrajou-te, nas iras de sua paixão. Aqui a tens implorando seu perdão e feliz porque te adora, como o senhor de sua alma.
Ainda em Senhora, José de Alencar trata da mulher e do casamento da forma como eram entendidos por aquela sociedade. O casamento era, praticamente, um comércio e as mulheres depois de casadas deveriam se dedicar exclusivamente às questões domésticas:
D. Camila tinha dado a suas filhas a mesma vigorosa educação que recebera; antiga educação brasileira, já bem rara em nossos dias, que, se não fazia donzelas românticas, preparava a mulher para as sublimes abnegações que protegem a família e fazem da humilde casa um santuário... Não era fácil que aparecessem pretendentes à mão de uma menina pobre e sem proteções. Por isso cresciam as inquietações e tristezas da boa mãe, pensar que também esta filha estaria condenada à mesquinha sorte do aleijão social, que se chama celibato.
Os romances produzidos no século XIX retratam aquela sociedade e suas relações de gênero, evidenciando as condições desfavoráveis à mulher. Seus autores vivenciavam o cotidiano da Corte, o que tornava inevitável que suas obras fossem um retrato do dia-a-dia das relações sociais, entre elas, as de gênero. Essas obras são fontes muito interessantes, que contam detalhadamente os hábitos daquela sociedade.
3- Considerações Finais
Por conta da realidade social na qual estava inserida, a figura de Nísia Floresta esteve sempre envolta em polêmicas e preconceitos. Sua ousadia em defender uma mudança na estrutura de uma sociedade patriarcal, que via na mulher um ser inferior, lhe custou um alto preço. O maior deles foi ser obrigada a viver longe de seu país, pois a partir de 1849 mudou-se para a Europa, onde suas idéias liberais eram acolhidas com maior receptividade, já que no Brasil não havia mais espaço para que pudesse expor seu pensamento.
Acreditamos que o preconceito e a difamação relegaram Nísia Floresta, praticamente ao anonimato, já que apesar de sua importância social, principalmente com relação à história de luta pelos direitos femininos, sua obra é muito pouco conhecida no Brasil. Alguns de seus livros são encontrados em bibliotecas na Europa, sem que haja um único exemplar em seu próprio país. Seu nome é quase que completamente desconhecido, pois não havia interesse de seus contemporâneos em preservar sua memória. Ao contrário, queriam esquecer da mulher que incomodava àquela sociedade, que militava por causas que não interessavam que fossem trazidas à discussão. Manter viva a memória de uma mulher que ousou questionar as estruturas de uma sociedade patriarcal não era interessante.
Sua partida para a Europa, onde viveu o resto de sua vida, contribuiria para mantê-la apagada da memória dos brasileiros. Entretanto, paradoxalmente, os mesmos motivos que a mantiveram longe de seu país, ajudaram a difundir seus ideais entre a intelectualidade européia, sua ousadia e seu pensamento liberal. Então, a tentativa de apagar sua memória no Brasil, acabou sendo frustrada pela acolhida que suas idéias tiveram na Europa.
Nísia hoje é lembrada pelos estudiosos pelo pioneirismo de seu colégio, de sua obra literária e de sua militância, sobretudo quando se trata da defesa dos direitos femininos. Esse pioneirismo foi um dos primeiros passos dados em direção às conquistas da mulher na sociedade, já que Nísia reivindicava principalmente direito ao acesso à educação, mas nas gerações seguintes surgiram outras vozes clamando por direitos políticos, civis e econômicos.
A história de Nísia, cristalizada por muitos anos, hoje renasce em inúmeros estudos que constatam sua relevância social. Como ela, quantas outras mulheres foram esquecidas pela História? Finalizamos, então, nossa reflexão com uma questão de Georges Duby:
É preciso, todavia, não esquecer as mulheres, entre todos esses homens que sós, vociferavam, clamavam o que haviam feito ou que sonhavam fazer. Fala-se muito deles. O que se sabe delas?
Graduada em História pela Universidade Gama Filho, monografia: Nísia Floresta e a Luta pelo Acesso da Mulher ao Ensino no Brasil Oitocentista (1838-56), orientação: Vera Lúcia Bogéa Borges. Pós-Graduação Lato Sensu em História do Rio de Janeiro, na Universidade Federal Fluminense (em andamento). Atualmente, exerce suas atividades no Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro.
DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: Vida e Obra. Natal: UFRN, 1995, p. 30-31.
LEITE, Miriam. A Condição Feminina no Rio de Janeiro: Século XIX. São Paulo: EDUSP, 1993, p.73.
HAHNER, June E. Emancipação do Sexo Feminino. Florianópolis: EDUNISC, 2003, 126-127.
BARMAN, Roderick J. Princesa Isabel do Brasil. São Paulo: UNESP, 2005, p. 31
SOIHET, Raquel. Condição feminina e formas de violência: mulheres pobres e ordem urbana, 1890 -1920. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989. p. 90 - 95.
BARMAN, Roderick J. Ibidem, p. 71-75
PRIORI, Mary Del (org.). História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 1997, p. 329.
ALENCAR, José de. Senhora. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 236.
PERROT, Michelle. As Mulheres ou os Silêncios da História. São Paulo: EDUSC, 2005, p. 35.
|