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FOTOGRAFIA E O ENTENDIMENTO DO PASSADO
Ana Guzzardi, Angela Cristina de S. Fernandes, Norma Helena R. de Oliveira e   Raquel da Silva Pinto                               

Introdução
O presente estudo é uma análise do que representou a fotografia no século XIX e sua contribuição para entendermos todo o processo pelo qual passou a sociedade brasileira naquela época. Foram selecionadas algumas gravuras e fotos de três profissionais de grande importância e reconhecimento mundial. São eles: Jean Baptiste Debret, Marc Ferrez e Christiano Júnior. Cada um com características próprias retratam o momento histórico em que estavam vivendo.
Questionamos nesse estudo o que a fotografia pode nos revelar? O que há de subjacente nas imagens reveladas? O que o fotógrafo quis mostrar, considerando que ele pode incluir ou excluir significados?
Para responder a todos esses questionamentos precisamos refletir e transformar o historiador em leitor de imagens do passado, pois as fotografias já foram memória presente; com isso pode-se dar um sentido próprio a problemática a ser estudada.
O nosso objetivo é que através de fontes iconográficas possamos retratar os escravos urbanos em seu trabalho ou em suas atividades urbanas desenvolvidas durante o seu cotidiano e como os mesmos estavam inseridos na sociedade.

Desenvolvimento
Historicamente a fotografia compõe a textualidade de uma determinada época. A fotografia, para ser utilizada como fonte histórica, ultrapassando seu mero aspecto ilustrativo, deve compor uma série extensa e homogênea no sentido de dar conta das semelhanças e diferenças próprias ao conjunto de imagens que se escolheu analisar. A análise histórica da mensagem fotográfica tem na noção de espaço a sua chave de leitura, posto que a própria fotografia é um recorte espacial que contém outros espaços que a determinam e estruturam como os espaços das vivências, comportamento e representações sociais (MAUAD, 1990).
Segundo Rosa Ferreira, do ponto de vista temporal, a imagem fotográfica permite a presentificação do passado, como uma mensagem que se processa através do tempo, colocando um novo problema para o historiador, o de um leitor de imagens do passado. As fotografias guardam a marca indefectível do passado que as produziu e consumiu. Um dia já foi memória presente, próxima àqueles que as possuíram, as guardavam e colecionavam como lembranças ou testemunhos. Da mesma forma que seus antigos donos, o historiador entra em contato com este presente/passado e o investe de sentido, um sentido diverso daquele dado pelos contemporâneos da imagem, mas próprio à problemática a ser estudada. Registrando inúmeras visões de mundo, os cenários, os personagens, as atitudes fixadas por meio da pintura, da fotografia, da caricatura, entre outras modalidades de imagens, são documentos para a história. Sendo assim não podem ser tomadas como ilustração do texto escrito, mas antes como documentos portadores de autonomias próprias, textos informativos, cuja análise requer procedimentos específicos para sua utilização.
Segundo Hebe de Castro, na imagem, os signos de distinção social ligados a um mundo de luxo e exuberância são registrados através de imagens construídas, formando uma representação da sua própria personalidade que gostaria de ver eternizado, às vezes não tão verdadeiro. Essas fotografias traduzem valores, idéias, tradições e comportamentos que permitem recuperar formas de ser e agir dos diferentes grupos sociais em diversas épocas históricas. Esses grupos sociais, desejosos de preservar para sempre a imagem da prosperidade, passam a freqüentar com assiduidade cada vez maior a oficina fotográfica que preenchia suas necessidades de representação.
Além dessas fotos construídas havia pintores e fotógrafos que retratavam o trabalho escravo urbano de uma forma mais realista. Vamos falar sobre três desses artistas.
Jean Baptiste Debret retratou em suas telas não apenas a paisagem, mas, sobretudo, a sociedade brasileira, destacando a forte presença dos escravos. Em suas pranchas desenhou-os em várias funções e em castigos que lhes eram aplicados. Eram escravos domésticos, escravos que trabalhavam nas ruas como barbeiros, vendedores ambulantes, etc.; sempre retratados como acompanhantes ou servindo indivíduos de outras classes, porém sempre bem arrumados, bem penteados, principalmente as mulheres, que eram retratadas com muitos enfeites passando uma imagem não tão realista do modo como realmente se vestiam. Em suas telas procurou demonstrar, com minuciosos detalhes e cuidados, a formação do Brasil, especialmente no sentido cultural do povo. Sem o seu trabalho, não haveria imagens mostrando o sofrimento dos escravos.
Marc Ferrez retratou cenas dos períodos do Império e início da República, entre 1865 e 1918, sendo que seu trabalho é um dos mais importantes legados visuais daquelas épocas. Suas obras retratam o cotidiano brasileiro na segunda metade do século XIX, principalmente da cidade do Rio de Janeiro. Sua obra ficou marcada pelas vistas e paisagens urbanas e naturais, também retratou tipos urbanos e profissões que hoje não existem mais e as transformações arquitetônicas. Em suas fotos registrou as transformações de uma nação que procurava deixar para trás um estilo de vida arcaico, marcado pela escravatura, e tentava civilizar-se.
Christiano Júnior retratou os escravos urbanos com mais realismo. A primeira evidência que se destaca é que o escravo urbano não é só o centro, mas a totalidade da imagem retratada. Fotos com escravos não eram novidade, mas agora eles não acompanham indivíduos de outras classes, e sim dominavam sozinho o cenário. Christiano quis retratar os cativos de rua na exata medida de seu ambiente de trabalho. As roupas são as mesmas usadas na lida urbana, sem retoques que alguns senhores tentavam imprimir na imagem de suas “propriedades”. O escravo ao ganho – que percorria as ruas vendendo produtos ou sua capacidade de trabalho – era o centro, como o cesteiro, com as mãos na palha de seu ofício e o olhar desconfiado e rebelde, transmitindo para a posteridade o estado de espírito de alguém estigmatizado todo o tempo como propriedade servil.
Buscava Christiano superar alguns arraigados preconceitos. A imagem da quitandeira com marcas faciais da nação Mina em sua banca ao lado do menino crioulo evoca mesmo longinquamente a família, num tempo em que “letrados” afirmavam categoricamente que escravos não podiam ter sentimentos familiares. Também quis retratar a onipresença destes personagens, sua dominação na paisagem urbana, mesmo que fosse desagradável para alguns olhares brancos. Como Homem do seu tempo, em certo momento projeta em galerias os stocks da raça que espantavam europeus mal acostumados, e faziam do Rio de Janeiro uma cidade africana: crioulos jovens de torso nu, quitandeiras minas com longos turbantes, idosos de barba branca e olhar venerável, africanos vigorosos com as suas marcas faciais, um africano com cabelos em desalinho parecendo recém desembarcado do negreiro, etc.
A crueza de suas fotos, sem retoques, a mensagem crua que alguns olhares de negros transmitiram para os contemporâneos (e para a posteridade), a presença do fardo do trabalho escravizado, os pés descalços, a persistência da África nos turbantes e panos da costa, tudo isso dá às imagens do fotógrafo um dom de testemunho que raros fotógrafos tiveram coragem de fazer, um olhar social escondido no estereótipo do exótico e do primitivo.

 Conclusão
Como vimos no texto, temos as fotografias construídas que serviam para atingir as metas de civilização e progresso, seguindo um padrão de comportamento importados; e as fotografias e gravuras que retratavam a sociedade brasileira com seus escravos urbanos, de uma forma mais realista e na maioria das vezes cruel.
Esses fotógrafos citados criaram um autêntico documento visual, ainda mal estudado pelos pesquisadores da escravidão urbana, em relação à rural.
As fotografias vistas provocam dúvidas, geram questionamentos e sugerem soluções na busca de resultados do mundo que nos cerca; contribuem na realização de pesquisas teóricas e é uma maneira de ver, descobrir e questionar o passado. Daí a importância da competência daquele que analisa imagens do passado. A imagem não fala por si só, é necessário que as perguntas sejam feitas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BIBLIOTECA NACIONAL (Brasil).  Rede da Memória Virtual Brasileira.. Disponível em: <www.catalogos.bn.br/redememoria/fotografias/galerias/imagem>. Acesso em: 10 jun. 2008.
CASTRO, Hebe Maria Mattos; SCHNOOR, Eduardo. Resgate: uma janela para o oitocentos. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.
FERREIRA, Rosa Alves. A fotografia como fonte de informação histórica. Academia da UEM.
FERREIRA, Edilaine Custódio. A fotografia e a memória urbana. Academia da UEM.
INSTITUTO MOREIRA SALLES. Fotografia. Disponível em: <www.acervos.ims.uol.com.br/fotografia>. Acesso em: 10 jun. 2008.   
         


Graduandas do curso de Licenciatura em História da Universidade Estácio de Sá, disciplina História do Brasil II, campus Jacarepaguá. Trabalho de campo apresentado à Professora Eliana Vinhaes em 2008.1.