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Concepções de história na formação das professoras das séries iniciais: uma experiência com alunas do curso de Pedagogia

Mônica Maria Teixeira de Souza Corbucci Licenciada em História (PUC-RJ), Especialista em Relações Internacionais (PUC-RJ) e Mestre em Educação (UFF) Gerente Acadêmica – Universidade Estácio de Sá / Campus São Gonçalo

Qual a concepção de história dominante entre os professores das séries iniciais do ensino fundamental e da educação infantil? Não estaria longe da verdade em apontar uma maciça preponderância, ainda, da concepção positivista. Ainda é bastante usual observarmos crianças nas ruas fantasiadas de coelhos da páscoa, índios, soldadinhos. Também é bastante comum vê-las presenteando mamães e papais nos seus respectivos "dias" com presentes confeccionados na escola, muitas vezes apenas pelos professores. Não raro, tais atividades são executadas dentro da programação de estudos sociais, ou de história e geografia. Cumprir o calendário das efemérides parece tranqüilizar professores, dirigentes escolares e famílias.

Enfrentar este desafio cotidianamente é o que me proponho ao lecionar metodologia do ensino de História para o curso de Pedagogia em universidade privada. Os alunos, melhor dizendo, alunas, visto a exígua presença masculina no curso, provenientes em sua maioria das classes populares, reproduzem em sua prática docente a máxima de que basta, ao professor das séries iniciais, ensinar a ler, escrever e contar. Sabemos, contudo, com que precariedade realizam tal tarefa! Consiste em labuta incansável sensibilizá-los para uma compreensão diferenciada da história. Nesta comunicação pretendo relatar parte da experiência desenvolvida com alunas de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá – Campus Jacarepaguá, como parte de um projeto de Pesquisa Integrada do CNPq, coordenado pela professora Clarice Nunes.

Formamos um grupo de pesquisa que se reuniu, semanalmente, de março a dezembro de 2002. Interessaram-se pela atividade, inicialmente, quarenta e sete alunas. No entanto, como majoritariamente constituíam-se em alunas-trabalhadoras e nossas reuniões ocorriam no turno da tarde, menos da metade deste número frequentou os encontros, pois havia uma certa flutuação no comparecimento1 . Num primeiro momento, nosso objetivo era o de levantar dados para elaborar uma memória das

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1Gostaríamos de agradecer a participação, num primeiro momento, da professora Ines Paz Senra, cuja presença foi fundamental para a estruturação de nossos encontros assim como na condução das discussões iniciais.

escolas do bairro que nos subsidiassem para a escrita de uma história sobre elas. Adianto que alguns dos nossos resultados consistiram precisamente no fato de que, ao perceberem a possibilidade de construção da história, a partir de seus elementos básicos – coleta de dados, levantamento bibliográfico, estudo dos principais teóricos e seus conceitos, organização dos dados e construção da narrativa do texto – as alunas entenderam seu duplo protagonismo na história, como atores e como elaboradores de uma abordagem explicativa sobre a ação humana no tempo e no espaço.

Partimos de uma série de questionamentos sobre o espaço geográfico que pretendíamos entender: Jacarepaguá. Qual a peculiaridade deste espaço geográfico - que na verdade é uma imensa região administrativa formada por inúmeros bairros – na dinâmica da cidade? Qual a origem de suas escolas? Quem é o professor que atua nas escolas da região? Como se forma? Como se imagina? Quais seus desejos? Quais as suas frustrações? Como vive neste espaço e como se relaciona com a cidade? Estas indagações iniciaram a pesquisa sobre a memória das escolas em Jacarepaguá. A etapa inicial da pesquisa constituiu-se, portanto, no levantamento da história do bairro.

Ao buscar informações, encontramos uma fonte interessantíssima na página eletrônica www.wsc.jor.br. Seu autor, Waldemar S. Costa, jornalista, define-se como um amante de seu bairro, daí seu admirável zelo por sua memória e história. Ele, por sua vez, em alguns outros documentos encontrados em outros endereços eletrônicos2 refere-se à obra de outro autor, Carlos Araújo, pioneiro na construção de uma narrativa histórica sobre o bairro. Nosso desafio, então, passou a ser o de entender o tipo de história construída por eles. Em que seria diferente daquela que procurávamos realizar? Os desafios postos por esse entendimento nos fizeram discutir a questão sobre o que era a História. Levaram-nos a entender um pouco a visão tradicional e as visões mais atuais – principalmente relacionada à nova história francesa - e, adicionalmente, permitiram-nos perceber o quanto é importante esta história mais ingênua, romantizada, de forte traço positivista, elaborada por leigos no assunto – mas não por isso menos significativa.

Por outro lado, este exercício nos permitiu concretizar muitas das discussões teóricas que travávamos em nossos encontros semanais, mas que nem sempre as alunas conseguiam vislumbrar. Principalmente aquelas discussões sobre as perspectivas da história, do positivismo até a nova história. Vimos, principalmente, como a verdade histórica é na realidade uma construção e, por isso, é também provisória e parcial.

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2www.acija.com.br. Refere-se à Associação Comercial de Jacarepaguá.

Entendemos, finalmente, como pedagogos, professores, enfim, educadores em geral têm a ganhar, em sua prática cotidiana, com a compreensão destas idéias. Quando um professor acredita que a história está pronta e acabada ele não consegue entender como seus alunos e ele próprio são sujeitos históricos.

Nós crescemos ouvindo dizer que "brasileiro não tem memória". Pensamos que isto só é parcialmente verdadeiro. Quando finalmente entendemos a importância da memória e de sua relação com a história, passamos a prestar mais atenção nas manifestações para sua conservação. Assim, tivemos uma grata surpresa quando encontramos, citado por Waldemar S. Costa, o pequeno conto de autoria de Carlos Araújo "O retrato e o tempo". Nele, o autor, no torpor de uma madrugada insone, relata o "encontro" com Martim Afonso de Sá, primeiro governador do Rio de Janeiro (1602-1608) e morador e dono das terras da Freguesia de Nossa Senhora da Pena do Loreto, hoje apenas Freguesia, em Jacarepaguá. Ele comenta, entre nostálgico e pesaroso, as transformações ocorridas no Engenho de Nossa Senhora da Cabeça, mais tarde denominado Engenho D’Água, recebidos de herança do pai, primeiro sesmeiro da região. Após relatar com precisão alguns fatos marcantes e as datas precisas em que ocorreram, lamenta-se da desfiguração da natureza local e das conseqüências gerais trazidas pelo progresso da região.

Consideramos esta descoberta nosso pequeno tesouro, o grande momento de nossa pesquisa. Ele parecia sintetizar tudo o que queríamos: informação e uma narrativa recuperando a memória de forma a juntar o presente e o passado. Aos poucos fomos aprofundando nossa interpretação sobre ele. Percebemos que as informações focalizavam os grandes personagens e seus feitos, enfatizando as datas. Percebemos, então, que a memória pode fazer lembrar e fazer esquecer. A quem interessa a história dos grandes personagens e seus feitos heróicos? Não queremos criticar os autores – admiramos seu carinho e paixão pela história – mas identificamos no seu relato sinais da história positivista. No entanto, se não fosse ela, como hoje poderíamos pensar uma história diferente? É preciso que se crie o novo a partir daquilo que já existe e não contra ele. Agradecemos, portanto, a possibilidade que os autores nos dão de pensarmos uma nova história.

Perseguimos um novo olhar da História na escola que se abre em dois sentidos. Um deles seria o desenvolvimento de formas alternativas para a disciplina História propriamente dita. O outro, ligado ao anterior, seria uma nova forma de se encarar, historicamente, o conhecimento produzido pela escola. Reconhecer a escola como um lugar de construção do conhecimento que remete à dimensão de uma análise cultural, com sua temporalidade própria, suas representações simbólicas, suas necessidades específicas. A passagem de uma memória de vida, individual, para a memória maior da experiência humana passa pela recuperação da memória da instituição em que tal empreendimento acontece.

Procuramos, então, entender as relações e as diferenças existentes entre a história positivista e a nova história (do francês nouvelle histoire). Afinal, nossa grande dúvida consistia justamente em como problematizar os documentos que encontrávamos. Afinal, o que era uma história-problema? De onde surgiu esta idéia? A revista Annales d’histoire économique et sociale foi lançada em 15 de janeiro de 1929. Seus fundadores, Lucien Febvre e Marc Bloch, entre outros interesses, queriam institucionalizar um veículo voltado ao combate da escola metódica, de cunho positivista, hegemônica no universo intelectual francês nesta época. Não foram nem os primeiros nem os únicos a tentarem isso, mas foram os que tiveram sucesso a longo prazo.

A escola metódica ou positivista consolida-se, intelectual e institucionalmente, em função dos interesses do estado. Na primeira metade do século XIX, o historiador francês deve reconciliar a nação, superar as clivagens surgidas com a Revolução de 1789 para legitimá-la e instituí-la como fundadora de tempos novos, tempos esses em que as contradições, os conflitos desaparecem por detrás da concretização das aspirações do povo reunificado. Os historiadores têm o mesmo objetivo que o poder de estado: reunir os franceses em torno da pátria, que se tornou a base do consenso nacional, portadora da estabilidade e da eficácia.

A história que postula deve fundar-se numa ciência positiva para escapar ao subjetivismo desagregador. Seu método privilegia a descrição factual do político: em primeiro lugar, o historiador deve reunir os documentos e classificá-los; em segundo lugar, deve proceder à crítica interna dos mesmos; então, por dedução e analogia, deve tentar encadear os fatos e preencher as lacunas; por fim, deve organizar os fatos numa construção lógica. Esse percurso restringe as ambições do historiador ao domínio do visível, do dado, priorizando o fenômeno singular, individual. O território do historiador limita-se à trama factual política e militar sem relação de causalidade, já que o acaso não admite a necessidade, o contingente não possui leis. Acima de tudo, esta história possui como função pedagógica principal a instrução cívica.

Nos anos 30, os intelectuais ligados aos Annales, até em função do desastre da guerra e da crise econômica, vão manifestar-se primeiramente com os temas "anti". A princípio, têm mais clareza daquilo que recusam do que daquilo que propõem. Rejeitam o positivismo e o historicismo, a política e o estado, as "ideologias" (liberalismo e socialismo). Os Annales pretendem oferecer a "terceira via": um futuro novo, moderno e liberado do estado. Questionam, ainda, o evolucionismo e as idéias do progresso. Passam a absorver avidamente tudo o que acontece de novo nas ciências sociais: lingüística, psicanálise antropologia, sociologia durkheimiana. Ao reagirem à ofensiva desta última, acabaram por absorvê-la e colocá-la como referência obrigatória. Também são fortemente influenciados pela geografia de Pierre Vidal de La Blache, de onde retiram conceitos centrais: meio ambiente, modo de vida, cotidiano; a ênfase na permanência, na descrição e na observação. Por fim, levam em consideração a revolução do próprio espírito científico, principalmente no campo da física, com a teoria quântica e a mecânica einsteiniana. Utilizam-na contra a história historicizante que fetichiza o documento e ressaltam o rigor do método, contrapondo com a crítica dos testemunhos, as fichas de leitura, o teste das hipóteses. Como resultado, oferecem a possibilidade de uma história experimental, onde o conhecimento é mediado por muitos estudos de caso, em oposição ao conhecimento imediato.

Até que ponto os Annales foram realmente inovadores? Para Dosse, muitas das bandeiras por eles levantadas já podem ser encontradas em Voltaire, em Chateaubriande em Michelet (Dosse, 1992). Teriam sido mais originais pela maneira pela qual afirmaram o programa do que pelo próprio programa, que de qualquer maneira era inovador frente à escola metódica. Porém, existem outras interpretações que encontram perspectivas efetivamente inovadoras nos Annales. Para Burke, se as inovações individuais relacionadas à revista podem ter precedentes e paralelos, sua combinação é única, em especial no que diz respeito à ampliação do território da história (Burke, 1991). Por outro lado, Reis considera que houve inovação considerável, principalmente em relação ao conceito de tempo histórico (Reis, 1994).

E qual era o programa dos fundadores dos Annales? Têm a ambição da síntese multidisciplinar, com uma perspectiva de globalidade que considera todas as dimensões da realidade, dos aspectos econômicos às mentalidades, numa perspectiva científica. Para isso, reivindicam a problematização temática do objeto da história a partir das interpelações do presente. Este novo olhar conduz à ampliação das fontes e dos métodos. A fim de caracterizar com mais precisão a oposição à escola metódica, demonstram hostilidade ao discurso e à análise políticos, orientando seus interesses para outros horizontes: a natureza, a paisagem, a população, a demografia, as trocas, os costumes. Criticam o fetichismo do fato, a pretensa passividade do historiador diante dos acontecimentos. Abrem-se ao estudo da sensibilidade, da vida afetiva na história.

Outro ponto polêmico: as relações com a filosofia. Para Dosse, o essencial de seus escritos dá destaque à metodologia, abandonando a teoria (Dosse, 1992). No entanto, prossegue, o empirismo que defendem já seria uma escolha e uma concepção particular da história. Neste ponto, seriam necessárias algumas considerações. Em primeiro lugar, diferenciar a análise da revista Annales, pluridisciplinar e aberta à diferentes autores, da análise da obra de seus fundadores, Febvre e Bloch. Ambos já eram intelectuais consagrados antes do aparecimento da revista. Febre já havia publicado Filipe II e o Franco Condado (1911) e a obra sobre Lutero (1928). Bloch já era autor de um livro inovador, Os Reis Taumaturgos (1924). A rotulação de "empirista" é demasiadamente ligeira. Além disso, Chartier alerta sobre a necessidade de se colocar o debate história-filosofia em perspectiva, a fim de se proceder à uma compreensão das diferentes tensões existentes entre as duas disciplinas (Chartier, 1990).

O estudo das mentalidades destaca-se nas obras de Febvre e Bloch. A fim de realizá-lo, apropriam-se de outras áreas do saber, principalmente a etnologia e a psicologia. No entanto, no primeiro período dos Annales, a parte da história cultural, no sentido amplo, permanece limitada. Temos aí uma ruptura muito sensível entre as preocupações cada vez mais fundamentais do mental em Febvre e o conteúdo da revista que permanece prioritariamente econômico e social. A obra dos dois, porém, está impregnada do anseio de decifrar o universo mental. Alimenta-se de duas fontes: a psicologia e a sociologia durkheimiana.

Em 1946, a revista passa a chamar-se Annales: Économies, Sociétés, Civilisations. Desaparece a palavra "história". O que isto representa? Para Dosse, neste momento se quer reforçar o projeto de aproximação com as outras ciências sociais. Inicia-se a segunda geração dos Annales, que irá durar até meados da década de 60, a princípio sob a direção de Lucien Febre e, a partir de 1947, de Fernand Braudel. Esta nova geração privilegia o aspecto econômico em detrimento das outra vias esboçadas (a história cultural, o estudo das mentalidades, a psico-história). A interrogação desloca-se do estudo dos fenômenos de crise, problemática oriunda da situação de 1929, para a interrogação sobre o crescimento econômico e o progresso das forças produtivas. Ela se concentra no período moderno, séculos XVI-XVII, e abandona, então, como campo de estudo, tanto a sociedade contemporânea quanto a Antigüidade. A história é, nesse momento, mistura de demografia, de curvas econômicas e de análise das relações sociais. A síntese, anseio valorizado pelos criadores dos Annales, realiza-se nos conjuntos regionais. Quanto ao aspecto político, foi totalmente proscrito. O economicismo triunfante privilegia, ainda mais, o papel dos mecanismos e chega a minorar o papel do homem, sua capacidade de fazer a história e de ser nela o sujeito ativo e consciente. O humanismo de Lucien Febvre e Marc Bloch apaga-se, portanto, diante do jogo inexorável das forças econômicas e o homem se encontra descentralizado dos estudos históricos.

Este momento também é aquele que vê florescer as ciências sociais, dentre elas a antropologia, a lingüística, a psicanálise. Assiste-se também à emergência dos Estados Unidos como polo impulsionador das ciências sociais. É, também a época em que aparece o estruturalismo e a antropologia social de Claude Lévi-Strauss. Neste contexto, a história preconizada por Braudel pretende ser antes de tudo síntese, como a antropologia, mas com a superioridade do pensamento espaço-temporal. Para ele, a duração condiciona todas as ciências sociais e confere um papel central à história. A história tem por ambição recuperar a globalidade dos fenômenos humanos, é a única a poder localizá-los e avaliar a sua eficiência em relação a todos os saberes parcelados. Perceber em um mesmo movimento a totalidade do social é a grande ambição da história braudeliana. Essa globalidade tem por característica o fato de estar sob a dependência estreita do concreto e das realidades observáveis. Mas seu conceito de globalildade recobre a simples somatória desses diversos níveis de real, sem ser, no entanto, um instrumento conceitual capaz de perceber as dominâncias e as determinantes em jogo. Não ultrapassa, portanto, o nível de um relato descritivo, ambicioso pelo campo que tenciona apreender, mas limitado quanto à capacidade explicativa. Observar, classificar, comparar, isolar são as grandes operações praticadas por Braudel.

Nos anos que se seguiram a 1968 tornou-se cada vez mais patente o surgimento de uma terceira geração dos Annales, ainda que não se registre neste momento uma mudança no nome da revista. Nesta nova fase, prevalece o policentrismo, pois não existe uma presença centralizadora, como o foram Febvre e Braudel. A marca da terceira geração será a da fragmentação, com forte influência da filosofia de Michel Foucault. Para muitos críticos, o aspecto mais relevante da fragmentação dos objetos e métodos da história seria a perda da preocupação com a totalidade, com a síntese, que caracterizou o trabalho dos fundadores. Vários membros do grupo levaram mais adiante o projeto de Febvre, estendendo as fronteiras da história de forma a incorporar temas como a infância, o sonho, o corpo, o odor. Outros retornaram à história política e à dos eventos. Alguns continuaram a praticar a história quantitativa, outros reagiram contra ela. Algumas características também contribuem para diferenciar esta fase das duas anteriores. A terceira geração foi a primeira a incluir mulheres no grupo, também foi a mais aberta à influência estrangeira. Porém, para Burke, os três temas maiores foram: a redescoberta da história das mentalidades, a tentativa de empregar métodos quantitativos na história cultural e a reação contrária a tais métodos, sob a forma da antropologia histórica, do retorno ao político ou do ressurgimento da narrativa.

A retomada da história das mentalidades significou, em parte, uma reação contra Braudel e, por outra, uma reação mais ampla contra qualquer forma de determinismo. Philippe Ariés, Robert Mandrou, Jean Delumeau e Alain Besançon são alguns exemplos daqueles que se debruçaram sobre os sentimentos em relação à infância, à família, à morte, ao medo, utilizando o referencial da psicologia histórica. Contudo, a tendência principal ia numa direção diferente. Dois dos mais destacados historiadores recrutados para a história das mentalidades, no início dos anos 60, foram os medievalistas Jacques Le Goff e Georges Duby, que caminharam em direção ao estudo das ideologias, da reprodução cultural e do imaginário social. Por sua vez, Michel Vovelle caracterizou-se pela tentativa de fundir a história das mentalidades coletivas, no estilo de Febvre, com a história das ideologias marxistas.

Para Burke, a história das mentalidades foi marginalizada na segunda geração por dois motivos principais. Primeiro, porque um bom número de historiadores franceses acreditava, ou pressupunha, que a história social e econômica era mais importante, ou mais fundamental, do que outros aspectos do passado. Em segundo lugar, porque a abordagem quantitativa então em voga não encontrava no estudo das mentalidades o mesmo tipo de sustentação oferecido pela estrutura socioeconômica. Já os representantes da terceira geração vão desenvolver a abordagem estatística para estudar a história da prática religiosa, do livro, da alfabetização, da morte. São os exemplos da "história serial de terceiro nível".

No final da década de 70 começam a aparecer as reações ao quantitativo na história, divididas em três correntes principais, segundo Burke: a mudança antropológica, o retorno à política, o ressurgimento da narrativa. A "viragem antropológica" pode ser descrita como uma mudança em direção à antropologia cultural ou simbólica. Neste sentido, destacam-se os nomes de Pierre Bourdieu, Michel de Certeau, Jacques Le Goff, Emmanuel Le Roy Ladurie, Roger Chartier. O retorno ao político não significa, obviamente, uma volta à concepções reducionistas e/ou deterministas desta dimensão social. Há uma interpenetração da história política e da história cultura, onde são retomadas questões concernentes ao estudo do comportamento político do povo comum, da sociabilidade, do desenvolvimento da consciência política. Duby e Le Goff caminham nesta direção, como Maurice Agulhon. A volta à política também está ligada ao ressurgimento do interesse na narrativa dos eventos. Ela aparece num retorno às biografias, retomando a questão da relação entre eventos e estruturas e da relação entre história e ficção. Neste sentido, destaca-se o historiador inglês Lawrence Stone, em meio aos já citados que também caminharam nesta direção.

Este movimento tripartitite que Burke aponta acima inaugura um momento que aponta uma nova guinada nos Annales. Em A Nova História Cultural, cuja primeira edição brasileira data de fevereiro de 1992, Lynn Hunt já alude à quarta geração dos Annales. Afirma que os historiadores desta geração, como Roger Chartier e Jacques Revel, rejeitam a caracterização de "mentalidades" como parte do terceiro nível de experiência histórica. Para eles, o terceiro nível é um determinante básico da realidade histórica. As relações econômicas e sociais não são anteriores às culturais, nem as determinam; elas próprias são campos de prática cultural e produção cultural, o que não pode ser dedutivamente explicado por referência a uma dimensão extracultural da experiência. Em 1994, a revista novamente muda de nome. Passa a chamar-se Annales - Histoire, Sciences Sociales3 . Para Dosse, esta mudança é significativa e aponta na direção da gestação de um novo paradigma que se alimenta da semântica da ação, da fenomenologia, da tradição hermenêutica. Considera que o filósofo que está na base destas mudanças interpretativas é Paul Ricouer, por sua atenção à escrita da história, da poética do saber, que ele trabalha desde os anos 50. Observa o retorno radical ao político e ao evento. Desde a década de 80, há uma história política que volta renovada pelo diálogo com as ciências sociais, com novos paradigmas, voltados para o estudo das sensibilidades, das culturas, que procuram uma discussão global da sociedade sem a pretensão de ser a chave da explicação do sentido da história, como foi a economia durante um bom tempo.

Quando nosso grupo iniciou a elaboração deste relatório, imaginou que o trabalho estava pronto: bastava "reescrever", dizer com as próprias palavras, o que havia sido descoberto nos escritos de Waldemar S. Costa. Não foi fácil entender que não era só isso. Para usar uma metáfora que apareceu nas nossas discussões: era preciso tirar a

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3Entrevista concedida por François Dosse à Folha de São Paulo de 6 de agosto de 1995.

"casca" do positivismo que todos nós trazemos, assim como a cigarra muda a sua. Trocar de pele. Sentir de outra forma o presente, pensar de outra forma o passado, construir um futuro aberto, com muitas possibilidades. Somos apenas aprendizes neste ofício. A história da educação em Jacarepaguá ainda está por ser feita, ainda está em construção.

BIBLIOGRAFIA

BURKE, Peter. A Escola dos Annales 1929-1989. A Revolução Francesa da História da Historiografia. São Paulo: Editora da Unesp, 1991.
CHARTIER, Roger. A História Cultural - Entre Práticas e Representações. Lisboa:Difel, 1990.
DOSSE, François. A História Em Migalhas - Dos Annales à Nova História. São Paulo: Ensaio, 1992.
HUNT, Lynn. A Nova História Cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
REIS, José Carlos. Nouvelle Histoire e Tempo Histórico - A Contribuição de Febvre, Bloch e Braudel. São Paulo: Ática, 1994.


RESUMO

Concepções de história na formação das professoras das séries iniciais: uma experiência com alunas do curso de Pedagogia

Mônica Maria Teixeira de Souza Corbucci Licenciada em História (PUC-RJ), Especialista em Relações Internacionais (PUC-RJ) e Mestre em Educação (UFF) Gerente Acadêmica – Universidade Estácio de Sá / Campus São Gonçalo

Esta comunicação visa apresentar parte dos resultados de uma pesquisa patrocinada pelo CNPq como Pesquisa Integrada, coordenada pela Profª.Drª. Clarice Nunes, realizada com alunas do curso de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá / Jacarepaguá. A partir de verificação prévia de que a chamada concepção "positivista" (entendida genericamente pela pretensão de que a história pode descrever o fato histórico tal e qual ele realmente existiu, dentre outras) predominava entre as alunas, procurou-se realizar um trabalho de investigação de fontes que permitissem a construção de uma outra história, no sentido benjaminiano de uma "história a contra pelo". Este exercício demonstrou sua força na possibilidade de ampliar as concepções de história das professoras das séries iniciais, marcadamente na análise da contribuição da nova história francesa. Ao longo dos encontros, as alunas repensavam sua prática enquanto educadoras e refletiam sobre a história enquanto sujeitos e sobre suas responsabilidades enquanto docentes. A partir de um conto escrito por um morador do bairro interessado na preservação de sua memória, procuramos estabelecer pontos de contato com as questões que atravessaram o projeto da historiografia francesa, apoiando-nos nas leituras de François Dosse, Peter Burke e José Carlos Reis. Procuramos, assim, entender a trajetória da historiografia francesa, desde sua posição em relação ao positivismo, passando pelas diferentes fases ao longo do século vinte, até a chamada nova história cultural.

ANEXO

O RETRATO E O TEMPO

Há poucos dias, estava eu com uma tremenda dor na coluna e, como de hábito, tomei um medicamento para minorar meu sofrimento. Era alta madrugada e sentei-me no sofá da sala para esperar o efeito do remédio. Meu olhar pousou sobre uma bela reprodução antiga que está na parede em frente à porta. A noite era de lua cheia; um torpor começou a me invadir e, em meio ao jogo de luz e sombras projetado pelo luar, percebi que o homem de meia idade com uma bela barba e cabelos caídos até os ombros adquiria movimento e, desejando-me boa noite, perguntou delicadamente:
- Cavalheiro, poderia dizer-me onde estou?
- Claro, meu amigo, estamos na Freguesia.
- Onde?
- Na Freguesia, em Jacarepaguá.
- O cavalheiro tem certeza? (...)
- O que o senhor está achando estranho?
- As coisas que estou a ver! No tempo em que aqui vivi, era tudo muito diferente. Não existiam tantas casas e tão altas, algumas; as liteiras eram puxadas por cavalos ou mulas. ...
Fiquei alguns segundos sem nada entender. Logo depois, tive um estranho pressentimento: estarei conversando com alguém que já fez a Grande Viajem? Resolvi descobrir e perguntei ao desconhecido:
- Como é o nome do amigo e há quantos anos morou por aqui?
- Meu nome é Martim Correia de Sá e morei aqui de 1594 até 1602 e depois de 1608 a 1623.
Comecei a entender o mistério do nosso interlocutor e procurei puxar por ele, apesar do frio que sentia na espinha.
- Por que o intervalo entre 1602 e 1608?
- Porque em 17 de julho de 1602 passei a ser o Governador do Rio de Janeiro. O primeiro governador carioca. Os anteriores eram todos portugueses. Eu era filho de Salvador Correia de Sá, o primeiro homem a governar o Rio de Janeiro, lá do alto do Morro do Castelo. Minha mãe era D. Victória da Costa; eu nasci em 1575. Quando jovem, comandei várias bandeiras, internando-me pelos sertões do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. Tempos duros, aqueles, mas as ordens de meu pai tinham que ser cumpridas, afinal, ele era o legítimo representante da Coroa Portuguesa nas terras Cariocas.
- Como foi que você veio parar em Jacarepaguá?
- Essas terras já pertenciam a meu pai; porém, eram muito extensas para um só sesmeiro e ele ainda tinha a maior ilha da Baía de Guanabara que era a de Maracaiaguaçú. Foi onde eu nasci.
Concluí que ele falava da atual Ilha do Governador que tem esse nome por ter pertencido a Salvador Correia de Sá. Pedi que continuasse a narrativa.
- Meu pai resolveu legalizar essa posse e sugeriu que eu e Gonçalo, meu irmão, fizéssemos uma petição solicitando em sesmaria tais terras. Foi o que fizemos e a gleba de cento e sessenta milhões de metros quadrados veio ter às nossas mãos. Dividimos fraternalmente essas terras e, na medida do possível, com muitos escravos, procuramos cultivá-las. Gonçalo teve mais tempo para isso. Eu precisei deixar minha parte da sesmaria por duas vezes. A primeira durou seis anos e a segunda, nove, quando fui Governador. Daí para a frente, me falha a memória.
- Para satisfazer minha curiosidade, poderia o amigo situar os limites dessa sesmaria?
- Claro! Estava situada entre dois grandes maciços. Nossa posse começava no Vale do Marangá e ia até o mar em linha reta, marcando duas léguas e meia, porém é bom fazer-se notar que logo após a entrada desse vale, ela ia se alargando de tal forma que ao chegar lá na praia da Barra de Jacarepaguá, já tinha uma extensão de quase quatro léguas. Era muita terra! Naquela época, havia necessidade de povoamento. Foi isso que eu e Gonçalo procuramos fazer e, pelo que estou a ver, o resultado foi muito bom, apesar da tristeza que me possuiu quando cá cheguei. Tive muita pena das lagoas que vi antes de chegar aqui à tal Freguesia. Eram muito lindas, com suas águas claras e limpas e o tempo, me parece, tratou de diminuí-las. O que vi de casas altas com muitas janelas, ao redor delas, deixou-me tonto. Como estão sujas aquelas águas!
Está tudo tão diferente que quase nada pude reconhecer. Se não fosse a vossa informação, eu continuaria a pensar estar em outras terras.
- Do seu tempo não existe mais nada?
- Existe! Apesar de, em princípio, ter pensado que não fosse a minha propriedade, agora sei estar, realmente, em Jacarepaguá; tenho a certeza de que é o meu querido Engenho de Nossa Senhora da Cabeça o que vi ao deixar as lagoas para trás; no tempo de meu pai, tinha o nome de Engenho da Tijuca. Hoje, está localizado, estranhamente, no cocuruto de uma pequena elevação.
- E seu filho, Salvador Benevides, passou a chamá-lo de Engenho d’água, arrisquei.
- Como sabe disso?
- Tive a oportunidade de ler em um livro muito antigo. O que mais reconhece ser do seu tempo?
- A capelinha que meu irmão construiu em 1625, no seu engenho de Pirapitingui, dedicada a São Gonçalo de Amarante. Desta, não tive dúvida ao vê-la. Nada mudou. Até as seteiras laterais lá estão, como no início de sua edificação. Causou-me espécie o grande número de moradas ao seu redor.
Daqui, de onde estamos, reconheço a Pedra do Galo. A igreja que lá está não é do meu tempo."
- É a igreja de Nossa Senhora da Penna, atualmente, padroeira das ciências e das artes e o morro, hoje, tem o nome da Santa.
- E a outra igreja cá de baixo, qual é?
- É a Matriz de Nossa Senhora do Loreto e Santo Antônio, que deu à localidade o nome de Freguesia.
- Também não é do tempo em que aqui vivi.
- Tem razão! Essa igreja foi criada em 1661; porém, só começou a funcionar em 1665. A região já estava muito habitada e houve necessidade de se erigir uma Freguesia. Era muito cansativo para os padres da Matriz de Irajá viajarem várias léguas, para dar socorro espiritual aos moradores daqui de Jacarepaguá.
- De fato a Freguesia de Irajá era muito distante cá da nossa região. A nossa conversa está muito agradável; porém. com o clarear do dia, sinto ter de despedir-me do amigo. É hora de partir. Vou triste por ter visto as modificações que se fizeram em minhas terras e nas do meu irmão.
- O progresso infelizmente, faz dessas coisas, nos pregando peças das quais nem poderíamos desconfiar que viessem a acontecer. Veja a Igreja de Nossa Senhora da Penna, que não é do seu tempo, porém...
Ao voltar os olhos para fitá-lo e continuar meu pensamento, percebi que estava só e, longe, bem longe, ouvi o cantar de um galo. Acordei sentindo-me tão leve e tão feliz com aquela conversa travada com Martim de Sá, que até esqueci da dor de minha coluna. Talvez, efeito do remédio...
Carlos Araujo Jacarepaguá de Antigamente
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