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CROMWELL NO FILME MORTE AO REI
Sônia Barros
Autora: Sônia Barros

Graduanda do Curso de Licenciatura em História da Universidade Estácio de Sá. Jornalista formada pela PUC-Rio, exerceu a profissão durante 35 anos em revistas e jornais, do Rio e de São Paulo. Trabalhou em praticamente todas as áreas, de Segundo Caderno a Política, mas seu interesse maior sempre foi Internacional. Daí seu interesse pelo atual curso de História.

Marc Ferro escreveu que o filme dito histórico tem virtudes pedagógicas, mas não contribui para a inteligibilidade dos fenômenos históricos, pois significa apenas uma visão da história, idealizada por outros. Em resumo, o filme dito histórico não deve ser visto como um documento científico.

As palavras do historiador/cineasta se ajustam como uma luva a Morte ao rei. Originalmente intitulado Cromwell e Fairfax (2003), o filme mostra muito mais a relação entre os protagonistas - Lord Thomas Fairfax (o ator escocês Dougray Scott), vitorioso comandante do New Model Army, e Oliver Cromwell (o inglês Tim Roth) - do que os acontecimentos da época. Uma relação de amizade e respeito - os dois se tratam pelo primeiro nome e um sempre procura ouvir o outro. Mas é clara a ascendência do nobre sobre o arrendatário de terras (yeoman), o "primo pobre" da aristocrata família Cromwell, que havia dado pelos menos dois conselheiros reais.

A importância de Cromwell para a história da Inglaterra, porém, transcende o filme. Como escreveu o economista José Luiz Fiori, foi ele quem:

 consolidou as bases fiscais e administrativas do estado moderno inglês, e ao mesmo tempo "nacionalizou" suas Forças Armadas, criando um exército profissional de 30 mil homens, e uma marinha que veio a ser o principal instrumento do poder político inglês através do mundo. Por outro lado, foi Cromwell que deu forma e força ao mercantilismo inglês, ao decretar o "1º Ato da Navegação", em 1651, que fechou os portos e monopolizou o comércio, na mão dos navegantes ingleses. Dando início a uma política mercantilista que se manteve vigente na Inglaterra durante os dois séculos seguintes1.


Esses feitos não são mostrados no filme, que remonta a uma época anterior ao Protetorado, mas pode-se dizer que, com tais medidas, Cromwell tornou oficial a política expansionista da Inglaterra, incentivada pelo mercantilismo. Durante sua gestão, a burguesia dominou o comércio, a indústria e os cargos públicos, sepultando de vez o feudalismo na Inglaterra. O que não deixa de ser irônico dado sua ascendência genealógica. Explicável, no entanto, à luz da moderna psicologia. O filme não mostra, mas anos antes de se aliar aos inimigos de Charles I, Cromwell passara por sérias dificuldades financeiras que o obrigaram a vender a quinta que herdara da família e arrendar terras de terceiros.

Na mesma época, passou por um processo de introversão religiosa, vivendo sob as normas do calvinismo conservador na sua ramificação puritana. Foi quando pensou em abandonar a Inglaterra e emigrar para a América junto com outros peregrinos (pilgrims). É esta a imagem que deixou no imaginário popular: a do líder religioso, intransigente, movido à força da fé. Imagem que reflete muito mais o titulo que adotou - Lorde Protetor (pastor?) - quando assumiu de vez as rédeas da Commonwealth of England, Scotland and Ireland. Entretanto, no filme em análise, a religião é a grande ausente. Não se vê um único religioso e apenas em uma cena - a do jantar oferecido por Cromwell a Tom Fairfax e Lady Anne - a família e os convidados rezam antes da refeição.

Oliver Cromwell foi um líder carismático? Não, a ficarmos apenas no filme; sim, se sua biografia for analisada em detalhes. Em Morte ao rei, o Cromwell mostrado beira a paranóia e em baixa auto-estima. É intransigente, mas vive à sombra do amigo Tom. Este sim é a "encarnação viva do grupo que representa", na conceituação de Norbert Elias.2

O Protetorado de Cromwell (1653-1658) é também lembrado pelo banho de sangue que cobriu a Irlanda, na guerra que o puritano pastor de almas travou contra os papistas católicos e O início do filme é chocante. Lord Fairfax retorna à corte após ter contribuído para a restauração da monarquia e depara-se com um cadáver pendurado por correntes na entrada de Tyburn, onde ficava o patíbulo. São os restos de Oliver Cromwell, exumado da Abadia de Westminster e decapitado por ordem de Charles II.

A cena, seguida pelo letreiro do título Morte ao rei, faz pensar. Foi Cromwell um rei nos moldes do absolutismo imperante? Afinal o título de Lorde Protetor era vitalício e hereditário. Foi um religioso fanático? Como explicar a liberdade religiosa que vigorou durante a república e a volta dos judeus? Ao mesmo tempo, o que significou a perseguição aos jesuítas e católicos irlandeses? Cromwell foi um homem movido apenas pela fé e pela ânsia de poder? Ou uma figura histórica conflituosa, de personalidade marcante, que ainda hoje desperta paixão e ódio e nem mesmo os acadêmicos mais conceituados conseguem definir. Em 1654, em discurso no Parlamento, o próprio Cromwell afirmou:

Nasci cavalheiro. Fui convocado para servir a parlamentos e me esforcei, como homem honesto, para fazer um bom trabalho em benefício de Deus, do povo e da comunidade, tendo recebido, quando necessário, a aceitação no coração dos homens e seu testemunho. Entretanto, quatro anos mais tarde, perto da morte, admitiu em uma carta: "Fiz não o que queriam, mas o que era bom para eles".4

1 FIORI, José Luis. O jeito inglês de contar a História. Desemprego Zero: Artigos. Disponível em: http://www.desempregozero.org.br/artigos/jeito_ingles.php. Acesso em: 25 abr. 2008.

2 ELIAS, Norbert. A sociedade de corte. Rio de Janeiro: Zahar, 2001

3 Tradução livre do texto "i was by birth a gentleman, living neither in any considerable height, nor yet in obscurity. I have been called to several employments in the nation-to serve in parliaments,-and ( because i would not be over tedious ) i did endevour to discharge the duty of an honest man in those services, to god, and his people's interest, and of the commonwealth; having, when time was, a competent acceptation in the hearts of men, and some evidence thereof." Disponível em: http://www.olivercromwell.org/quotes1.htm. Acesso em: 12 abr. 2008.

4 Tradução livre de "not what they want but what is good for them". Idem