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MORTE AO REI: uma resenha crítica
Aleksandra Stambowisky de Carvalho e Danielle Gargiolli (alunas do curso de História da Universidade Estácio de Sá, Campus Jacarepaguá) Orientadora: Suely Romero (Professora de História da Universidade Estácio de Sá)

O presente trabalho visa compreender a estrutura social inglesa e as transformações ocorridas na Inglaterra do século XVII, exemplificando-a a partir da obra cinematográfica Morte ao Rei.

Ao iniciarmos a proposta, convém ressaltarmos o cuidado que devemos ter ao realizarmos este tipo de análise, já que ela representa um fragmento da realidade e está repleta da visão do autor sobre o tema. Partindo dessa concepção, realizamos uma análise ainda imatura na tentativa de compreender a estrutura social inglesa e as transformações ocorridas na Inglaterra do século XVII.

Em verdade, chamou-nos a atenção a escolha do autor para tema de seu filme. Gostaríamos de entender o motivo que o levou a escolher esse tema, a opção por contar aquele período específico da história inglesa e quais as suas intenções ao produzi-lo. Infelizmente, não tivemos acesso a essas respostas, embora tenhamos tentado alcançá-las.

O filme inicia-se com o personagem Thomas Fairfax montado a cavalo, observando o esqueleto de Oliver Cromwell e refletindo sobre a idéia de que toda coroa corrompe quem a usa.

Logo a seguir, observamos a preocupação com a segurança dos líderes do exército parlamentar a partir da cena em que Oliver Cromwell é atacado por um partidário do rei e Thomas o salva. Esse episódio nos faz compreender que nem todos estavam satisfeitos com as mudanças que ocorriam no regime inglês e das dificuldades enfrentadas em qualquer tipo de mudança.

O filme descreve a relação de amizade e confiança entre as personagens de Thomas Fairfax e Oliver Cromwell. Personagens que são o eixo central da trama. O general Fairfax representa a ligação entre a velha nobreza e a nova nobreza inglesa. Ele é o general do exército parlamentar e está intimamente ligado ao grupo que luta por transformações no poder através da queda do então rei, Carlos I. Oliver Cromwell faz parte da nova nobreza também chamada de gentry.

Ao longo do filme, observamos a utilização de símbolos como forma de reforçar as diferenças entre os nobres e os plebeus. Ao visitar seu marido no campo de batalha, Anne Fairfax demonstra o significado dos cabelos longos (masculinos), ligando-os diretamente aos costumes aristocráticos conservadores. Anne revela que os cabelos curtos eram uma forma de protesto dos rebeldes pela decadência da corte.

Também percebemos o destaque dado às diferenças entre as vestes dos nobres e as dos puritanos. Essa diferença fica evidente nas cenas que mostram puritanos como Cromwell e seus familiares, vestidos com roupas sóbrias e recatadas, geralmente compostas por blusas brancas e outras peças negras ou em couro (caso dos uniformes militares) e as roupas dos nobres. Feitas de tecido finos, usam cores diversas e detalhes em renda e pedrarias.

Oliver acredita fielmente que ele faz parte de um projeto de Deus para transformar a sociedade através da quebra do poder divino do rei. Em seu discurso, chega a dizer que Thomas também faria parte desse projeto, portanto seria um escolhido por Deus. Observamos sua tese na cena em que Cromwell dialoga com Anne a respeito de sua vigília na porta da barraca de Fairfax. Ele diz a ela que seu marido é um dos escolhidos por Deus, por isso sua preocupação com a segurança do amigo.

As cenas que mostram a movimentação do parlamento afastando o rei e o mantendo em exílio mostram a ambição e a busca de enriquecimento por parte da nova aristocracia ao lado da procura pela preservação da velha aristocracia. Também destaca o jogo de poder entre Carlos I e alguns parlamentares.

Com a vitória do exército de Oliver, o rei é afastado do poder, permanecendo enclausurado em sua residência. A população vai às ruas para comemorar e começam as negociações para a elaboração do tratado de acordo com o rei pelos membros do parlamento. Cromwell salienta nas cenas das comemorações as propostas das reformas, esclarecendo que a liberdade e o direito de um julgamento justo são os pontos principais e não se encontram no texto redigido por Holles. Este era o representante do parlamento na sociedade. A proposta era transformar súditos em cidadãos.

O tratado de paz visava diminuir os poderes políticos e administrativos de Carlos I, mas, segundo a redação de Holles, limitava-se a estabelecer o livre comércio. Percebemos aí a limitação entre a ideologia e a prática.

Os Fairfax recebem a visita do genitor de Anne após as comemorações. A crítica feita a Fairfax por seu sogro evidencia a posição da velha aristocracia inglesa, preocupada em manter o regime absolutista.

Nos momentos seguintes, vemos a articulação do rei na tentativa de manter seu poder através da explanação dos direitos de suserano a Holles e a Thomas. Carlos fala sobre a posição de nobre de Thomas e no que isso significava.

É fatal a comparação entre os estilos de vida da nobreza e dos puritanos ao examinar as residências de Carlos e de Oliver. O rei é cercado pelo luxo presente nas obras de arte e nos móveis; a família de Cromwell, em uma propriedade rural onde os membros dela se incumbem de produzir alimentos e manter os cuidados necessários a manutenção.

Carlos I sugere uma aliança com Holles propondo que ele seja seu ministro. Como parte da proposta, o rei voltaria ao poder através do voto do parlamento fazendo algumas concessões como a liberdade comercial. Para isso, o rei permitiu o acesso dos parlamentares ao tesouro real, permitindo o furto do mesmo.

A partir desses eventos, segue uma sequência mostrando a articulação real em busca da volta ao poder e as ações tomadas por parte dos puritanos em busca do fortalecimento da independência.

Ao retornar da casa de Oliver para York, Anne relata ao marido o medo de sofrer represálias dos aliados do rei. Fato que evidencia as primeiras dificuldades sofridas pelos parlamentares no que diz respeito a uma unidade ideológica do processo e a influência da figura do rei, mesmo após sua prisão.

Em uma assembléia, o líder do parlamento sugere o retorno do rei ao trono. Graças ao tesouro real, a votação é favorável ao rei e Cromwell reage relembrando os ideais pelos quais eles lutaram.

Ao confrontar o rei em seu palácio, Cromwell escuta do mesmo que a base do seu poder encontra-se na escolha divina tornando aos próprios escolhidos mensageiros de Deus.

Fairfax assume seu papel de general convocando os soldados para o que ele chama de um breve alerta a nação. Relata a traição do parlamento, o roubo do tesouro e propõe medidas mais drásticas para o estabelecimento da ordem.

Cromwell assume uma postura mais radical após a o fechamento do parlamento e propõe o julgamento e a punição do rei. A posição de Thomas fica cada vez mais desconfortável, pois se encontra dividido entre suas origens nobres e sua crença em uma política justa e íntegra. Isso fica claro no diálogo entre Carlos I e Thomas na prisão real. Mais uma vez, vemos os conceitos do poder temporal como expressão do poder espiritual na fala do próprio rei.

A imagem divinizada do rei é tão forte que seus súditos tocam seus pés no percurso que leva a execução. Como símbolo da contestação ao poder temporal, podemos citar a frase proferida por Oliver diante da decapitação de Carlos I. "Vermelho. O sangue é vermelho como o nosso."

Após a morte de Carlos I, Cromwell declara-se Lorde Protetor da Inglaterra, fortalece-a gerando crescimento e proporcionando a posição de precursora da Revolução Industrial.


REFERÊNCIAS

To Kill a King, Inglaterra, Alemanha, 2003. Diretor: Mike Barker. Roteirista: Jenny Mayhew. Elenco: Tim Roth, Dougray Scott, Olivia Williams, James Bolam, Corin Redgrave, Finbar Lynch, Julian Rhind-Tutt, Adrian Scarborough, Jeremy Swift, Rupert Everett, Steven Webb, Jake Nightingale, Leonard Woodcock , Thomas Arnold, Sam Spruell.

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