BREVE ABORDAGEM HISTÓRICA DA LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL
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Silvia Maria Pinheiro Bonini Pereira
Mestre em Educação – UNIRIO e Licenciada em Letras – UNESA sbonini@terra.com.br
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Introdução
A presente pesquisa objetiva apresentar uma breve abordagem histórica da Língua Portuguesa no Brasil, com enfoque em Paul Teyssier, na parte que aborda o assunto sob o prisma dos literatos, filólogos e lingüistas brasileiros.
Assim sendo, neste trabalho será delineada, com traços gerais, a história do português no Brasil, recuperando seus momentos, autores e passagens mais importantes. Abordar-se-á, contudo, de forma simplificada, considerando a complementação com outros trabalhos desenvolvidos sobre o tema.
Por oportuno, esclarece que serão apresentados exemplos, de modo que, não se trata apenas de um relato do passado, e sim uma interpretação subjetiva dos acontecimentos.
1. A “questão da língua” na visão dos escritores brasileiros
1.1. No Romantismo
Segundo Paul Teyssier (2007 p. 111) A questão da língua [...] é um problema nacional da mais alta importância. [...] como seria de esperar, iria preocupar particularmente os escritores e os filólogos. Neste sentido, prossegue o Autor (idem, ibidem), foi com o Romantismo que a questão da língua realmente se coloca para os escritores.
O Romantismo, enquanto um processo de produção do pensamento nacional, contribuiu na formação da língua portuguesa veiculada no Brasil, uma vez que a narrativa romântica inaugurou uma relação, histórica e ideológica, da nação com a língua nacional.
Um dos expoentes do Romantismo, Gonçalves Dias tentou a união entre a língua colonial brasileira e a língua clássica, introduzindo o elemento tupi, como se observa no poema "I Juca-Pirama" (canto IV, estrofe 7). |
Meu pai a meu lado
Já cego e quebrado,
De penas ralado,
Firmava-se em mi:
Nós ambos, mesquinhos,
Por ínvios caminhos,
Cobertos d’espinhos
Chegamos aqui!
O romancista José de Alencar - autor de “Iracema”, “O Guarani”, entre outros - foi acusado de subverter a língua portuguesa, pois, procurou adotar uma língua tão espontânea e viva, quanto moderna e nobre, sem recorrer ao classicismo. Em sua defesa, reivindicou o direito à originalidade. Além disso, o que iniciou a literatura nacional na variante brasileira da língua portuguesa foi o individualismo e nacionalismo, características do movimento romântico, segundo Teyssier (2007, p. 111).
No romance-poema “Iracema”, José de Alencar (2007) utiliza a língua tupi-guarani e recorre a notas de fim para explicá-las, conforme exemplo que se segue:
“O favo da jati não era doce como seu sorriso”.
[...]
“Jati - Pequena abelha que fabrica o mel”.
Teyssier (idem, ibidem) também esclarece que entre o Romantismo e o Movimento Modernista de 1922 houve um período de calmaria, consubstanciando-se em dois pólos, de um lado autores que se limitavam a reproduzir a língua rude do povo; e, de outro, os autores puristas como Machado de Assis e Rui Barbosa.
1.2. No Modernismo
Consoante Teyssier (2007, p. 112), os modernistas defendiam a necessidade de romper com os modelos tradicionais e de privilegiar o “falar” nacional brasileiro. Sabe-se que a distância entre as variantes lingüísticas da língua portuguesa falada em Portugal e no Brasil aumentou em função da Revolução Industrial, das peculiaridades regionais e do ingresso de imigrantes no Brasil. Neste aspecto, é com o modernismo que a questão da língua vai retornar com um novo vigor (idem, ibidem), reivindicando a independência cultural.
Com os escritores modernistas da primeira geração - o movimento modernista no Brasil contou com três fases, sendo as duas primeiras relevantes para o presente trabalho. A primeira, de 1922 a 1930, segundo Bosi (2006, p. 383), caracterizou-se pelas tentativas de solidificação do movimento renovador e pela divulgação de obras e idéias modernistas.
Assim, os escritores de maior destaque dessa fase defendiam a reconstrução cultural brasileira e o desapego aos valores estrangeiros. Destarte, rebelaram-se contra a gramática tradicional e o purismo lusitano; e deram início a uma nova configuração histórica da literatura e da língua nacional, por escrever em uma linguagem que se aproximava da fala brasileira (TEYSSIER, 2007, p. 12).
Entre os escritores e obras, destacam-se o “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”, a Antropofagia de Oswald de Andrade e o projeto de uma “Gramatiquinha da Fala Brasileira”, de Mário de Andrade.
O “Manifesto da Poesia Pau-Brasil” defendia a criação de uma poesia construída com base na revisão crítica do passado histórico e cultural do Brasil, como a valorização das riquezas e dos contrastes presentes na cultura brasileira. Como se depreende dos trechos abaixo transcritos:
A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.
[...]
A língua sem arcaísmos, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.
Já no “Manifesto Antropófago”, a exemplo dos rituais antropofágicos dos índios brasileiros, Oswald de Andrade sugeriu a devoração simbólica da cultura eurocêntrica, buscando criar uma identidade cultural brasileira. Assim, defendia que
Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.
[...]
Tupi, or not tupi that is the question.
[...]
Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade.
Do mesmo modo, defendia a diversidade do uso da língua no Brasil, conforme se depreende da poesia “Pronominais”, que coloca em discussão o padrão normativo da língua portuguesa em contraposição ao português brasileiro falado.
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.
Por sua vez, no projeto de uma Gramatiquinha, Mário de Andrade defendia
a auscultação paciente de todos os fatos relevantes, ou não, da fala brasileira, considerando não só as motivações subjetivas do falante, como também a situação da fala. Assim, recomendava, a par do conhecimento da Gramática Normativa oficial, a recolha dos “modismos esporádicos colhidos das pessoas que escuto, cartas que recebo, livros, jornais, anúncios, etc. que leio (...)” chegando a ficar “bem uns seis meses freguês dum barbeirinho ruim das Perdizes só pra escutar a fala dele que era uma gostosura imprevista com seus sodisfeito, quatros dia, etc.etc.”.
Declarando, neste sentido Careço que os outros me ajudem pra que eu realize a minha intenção: ajudar a formação literária, isto é, culta da língua brasileira (idem, ibidem).
Contudo, ressalta Teyssier (2007, p. 114), nenhuma obra em matéria filosófica e lingüística foi efetivamente produzida pelos modernistas de primeira voga. Ademais, continua o Autor, por se tratarem de artistas, pesa sobre eles a característica do estilo literário, que é subjetivo. Logo, retirando o aspecto teórico do movimento e quedando-se ao pragmatismo.
Já no movimento modernista de segunda geração, de 1930 a 1945, segundo Bosi (2006, p. 386), o panorama literário apresentava sob a ficção regionalista, o ensaísmo social e o aprofundamento da lírica moderna no seu ritmo oscilante entre o fechamento e a abertura do eu à sociedade e à natureza. Praticando o que Teyssier denomina de “estilos brasileiros dos escritores modernistas”, assim classificados (idem, ibidem, p. 114):
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Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.
Por sua vez, no projeto de uma Gramatiquinha, Mário de Andrade defendia
a auscultação paciente de todos os fatos relevantes, ou não, da fala brasileira, considerando não só as motivações subjetivas do falante, como também a situação da fala. Assim, recomendava, a par do conhecimento da Gramática Normativa oficial, a recolha dos “modismos esporádicos colhidos das pessoas que escuto, cartas que recebo, livros, jornais, anúncios, etc. que leio (...)” chegando a ficar “bem uns seis meses freguês dum barbeirinho ruim das Perdizes só pra escutar a fala dele que era uma gostosura imprevista com seus sodisfeito, quatros dia, etc.etc.”.
Declarando, neste sentido Careço que os outros me ajudem pra que eu realize a minha intenção: ajudar a formação literária, isto é, culta da língua brasileira (idem, ibidem).
Contudo, ressalta Teyssier (2007, p. 114), nenhuma obra em matéria filosófica e lingüística foi efetivamente produzida pelos modernistas de primeira voga. Ademais, continua o Autor, por se tratarem de artistas, pesa sobre eles a característica do estilo literário, que é subjetivo. Logo, retirando o aspecto teórico do movimento e quedando-se ao pragmatismo.
Já no movimento modernista de segunda geração, de 1930 a 1945, segundo Bosi (2006, p. 386), o panorama literário apresentava sob a ficção regionalista, o ensaísmo social e o aprofundamento da lírica moderna no seu ritmo oscilante entre o fechamento e a abertura do eu à sociedade e à natureza. Praticando o que Teyssier denomina de “estilos brasileiros dos escritores modernistas”, assim classificados (idem, ibidem, p. 114):
- Estilo clássico (moderado): Graciliano Ramos no Nordeste e Érico Veríssimo no Rio Grande do Sul.
- Estilo que se aproxima da linguagem oral: José Lins do Rego.
- Estilo original: Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas, 1956).
- Prática de diversos estilos com equilíbrio: Carlos Drummond de Andrade.
Teyssier (idem, ibidem) aponta que as inovações lingüísticas dos escritores oriundos do Modernismo foram superficiais, situando-se no vocabulário, na colocação pronominal, no emprego do ter impessoal e em alguns casos de regência e concordância. Portanto, para o Autor, o Modernismo introduziu uma norma brasileira mínima. Na contemporaneidade, estuda-se a existência de um estilo brasileiro acentuado, ou seja, uma variante da língua portuguesa no Brasil distinta da variante de Portugal e capaz de criar uma norma específica brasileira. Matéria esta é objeto de divergência entre os lingüistas e filólogos brasileiros.
2. A “questão da língua” sob a ótica dos filólogos e lingüistas
Consoante Teyssier (2007, p. 114-5) os filólogos e os lingüistas entraram no debates sobre uma variante específica da língua portuguesa no Brasil somente a partir da elevação da Filologia e da Lingüística à categoria de ciência. Entre os precursores desses estudos, citados pelo Autor, estão Joaquim Mattoso Câmara Júnior, Silvio Elia e Gladstone Caves de Melo, Ivo de Castro, dentre outros, que promoveram uma revisão crítica dos estudos acerca da história do português do Brasil na “questão da língua”.
Como produto dessa pesquisa, destaca Teyssier (idem, ibidem), verificou-se que o português do Brasil foi explicado como resultado de influência ameríndia e africana. Com fundamento na língua tupi, os filólogos buscavam as raízes, a toponímia, a fonética, o vocabulário, a morfologia e a sintaxe do português brasileiro no indianismo. Já na explicação baseada na africanidade, os filólogos portugueses justificavam a colocação pronominal dos brasileiros como “crioulismo” (Gonçalves Viana apud Teyssier, 2007, p. 115).
Desta forma, não se negam as influências, todavia deve-se refletir sobre a receptividade das mesmas. Tanto as línguas indígenas quanto as dos africanos mantinham no Brasil uma relação de submissão, sem muita representação entre os falantes, pois eram línguas pertencentes aos povos a serem dominados.
No mesmo diapasão, Clóvis Monteiro (apud TEYSSIER, 2007, p. 116), destaca que a utilização da forma impessoal do verbo ter, no lugar de haver (tem por há), ou forma “eu vi ele” por “eu vi-o” não sofreu influência da língua ameríndia ou africana.
Em verdade, as variantes na língua portuguesa do Brasil ocorrem, não só pela influência do léxico ameríndia e africana, mas, segundo Teyssier (2007), pela forma de colonização, com a vinda de portugueses oriundos de várias regiões de Portugal e que, depois da vinda da Família Imperial para o Brasil, conviveram na Corte. Além das diferenças gramaticais, fonético-fonológicas e morfológicas e sintáticas, que não são objeto da presente análise.
Cumpre apresentar, em nível sintático, a mais evidente característica do português do Brasil: a colocação dos pronomes átonos (me, te, se, lhe, nos, vos, lhes, o, a, os, as), por exemplo, na frase “Tício se levantou”. Os estudiosos justificam a colocação pela sonoridade, ou seja, pelo ritmo da frase em virtude da tonicidade do pronome. Por outro lado, há pesquisadores que sustentam que a colonização promoveu uma linguagem subalterna, de modo que a locução “Tício levanta-se” conduziria à idéia imperativa, de ordem, não aceitável culturalmente no Brasil.
Teyssier (idem, ibidem), no que concerne à questão da língua, finaliza informando que os filólogos brasileiros adotaram uma posição moderada nos estudos da originalidade lingüística no Brasil e da unidade da língua portuguesa, mediando, neste sentido, com o reconhecimento de especificidades lingüísticas do português no Brasil.
Finaliza-se, portanto, esclarecendo que os estudos lingüísticos atuais reconhecem essas especificidades, fazendo uma ponte entre a tradição filológica e os estudos lingüístico-históricos contemporâneos (FARACO, 2008, p. 193).
Considerações Finais
Verificou-se, através desse breve estudo, que o português do Brasil possui características não encontradas em Portugal, muito menos nos demais países lusófonos, uma vez que cada nação tem sua realidade histórica e suas peculiaridades locais.
Convém ressaltar que a língua escrita possui maior proximidade entre o português do Brasil e os de outras regiões do mundo, já que se encontra normatizada. Por sua vez, na língua oral, as variantes são facilmente identificáveis.
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Certo que o presente estudo se constitui em um breve apanhado da “questão da língua no Brasil”. Contudo, através dos exemplos, foi possível observar que o português no Brasil, embora mantenha muitas características morfológicas, sintáticas, fonéticas e semânticas da língua portuguesa, não possui a característica da universalidade.
Neste sentido, através dessa visão panorâmica, percebeu-se a singularidade do português do Brasil.
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REFERÊNCIAS
ALENCAR, José. Iracema. São Paulo: Martin Claret, 2007. (Coleção a obra prima de cada autor).
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 43 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
CÂMARA JR, J. Matoso. Dicionário de lingüística e gramática. 25ª ed. Petrópolis: Vozes, 2004.
FARACO, Carlos Alberto. Lingüística histórica: uma introdução ao estudo da história das línguas. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.
TEYSSIER, Paul. História da Língua Portuguesa. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
RUSSEF, Ivan. O ensino da língua portuguesa: variações em torno da gramatiquinha brasileira. Disponível em: <http://www.anped.org.br/reunioes/26/trabalhos/ivanrusseff.rtf.>. Acesso em: 25 out. 2008. |
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