| FUTEBOL & LÍNGUA PORTUGUESA: as conquistas do rádio |
| Deonísio da Silva em 1/7/2008 |
Autor: Prof. Dr. Deonísio da Silva Escritor, Coordenador Geral do Curso
de Letras e Vice-Reitor de Cultura da Universidade Estácio de Sá
A Copa de 1958 foi do rádio. Os locutores esportivos já tinham aportuguesado uma porção de
palavras do inglês, mas ainda havia quem preferisse pagar algum tributo ao idioma de
Shakespeare. Afinal passara-se pouco mais de meio século desde que Charles Miller trouxera
o foot-ball para o Brasil, em 1894.
O "futebol", dito também "futibol", já era o esporte preferido do povo brasileiro e, assim,
no português coloquial, shoot passou a "chute" e "chúti; goal keeper foi reduzido a "quíper"
e, em seguida, substituído por "goleiro", forma que então se consolidou. O inconsciente nos
traiu na formação desta palavra: designamos um goleiro cheio de gols. Team virou "time". Sport
e club foram aportuguesados para "esporte" e "clube", mas as palavras inglesas ainda hoje estão
presentes na designação de vários clubes, como na do recente campeão mundial de futebol, o
Sport Club Internacional.
"Falta" aparecera primeiro como "fau", aportuguesamento de foul, mas referee depois "juiz" e
"árbitro", variantes mais aceitas, marcaria o tranco de qualquer modo, sem poder recorrer a
nenhum cartão, pois, amarelo ou vermelho o cartão somente se transformaria em recurso punitivo
muitas copas depois, quando charge mudou para "entrada dura" ou mesmo "tranco", "cacetada",
paulada", "traulitada", "sarrafada" etc.
Tripping tornou-se a popular "rasteira". O ajudante do juiz, atuando com uma pequena bandeira
na mão, era conhecido como linesman e mudou sua designação para "bandeirinha". (Hoje, nossa
linda bandeirinha Ana Paula, que já posou pelada para a revista Playboy, seria lineswoman).
Scratch virou "escrete".
Captain, este foi fácil, já tínhamos o posto no exército, virou "capitão".
Esculhambar, subverter
Os locutores esportivos, quando o Brasil conquistou enfim sua primeira Copa do Mundo, em
1958, depois de ter celebrado antecipada e indevidamente a Copa de 1950, que afinal perdemos
na "tragédia do Maracanã", já tinham alcançado um feito notável. Como as antigas babás negras
das sinhazinhas e sinhozinhos que haviam tirado o osso das palavras do rude português trazido
de além-mar amaciando-o para os brasileiros, fizeram coisa semelhante com as naturais rudezas
do inglês, com seus sons estranhos, à melodia da língua portuguesa e amalgamaram uma nova
língua para as transmissões esportivas. Às vezes tropeçaram na língua, é verdade, com palavras
ainda mais estranhas - de que é exemplo "bisonho", para caracterizar um lance sem pé nem cabeça.
Entre seus imaginosos recursos, houve lugar até para "dérbi", trazido do turfe para designar o
que depois seria consolidado como "clássico". "Dérbi" entrou para o português no século 20,
mais de 200 anos depois de Lord Derby dar seu nome a uma corrida de cavalos, na Inglaterra, em
1780.
Training virou facilmente "treino", mas kick-off precisou ser adaptado para "pontapé". Corner
foi usado até os anos de 1980, mas hoje, embora ainda seja invocado, perde de goleada para
"escanteio", o mesmo valendo para "impedimento", que substituiu off-side. O "centro-avante"
substituiu o center-forward. O center-half cedeu seu lugar ao "meio-campista" que veste a
camisa 5, posição hoje mais conhecida como "volante".
Às vezes o inglês esconde outras origens, como em melée, originalmente designando "mistura" no
francês, mas que veio a indicar "confusão", "briga", no inglês. Daí dizer-se que alguma força
"melou" um jogo ou um resultado. O verbo "melar", nascido deste melée tornou-se sinônimo de
esculhambar, subverter, mudar, por meios ilícitos, alguma coisa.
Ingressos caros
Na contramão da extraordinária conquista de nossos heróicos locutores esportivos, os de hoje
esforçam-se por retroceder e já chegaram a tentar impor play offs para as semifinais e
finais.
Por que eram heróicos? Por muitos motivos, mas também por este exemplo: certa vez o famoso
locutor esportivo Fiori Gliglioti transmitiu pela Bandeirantes um jogo realizado em Lourenço
Marques (atual Maputo, capital de Moçambique), na África, sem que visse uma única jogada,
pois estava no Brasil e ouvia a transmissão portuguesa pelo rádio! Frações de segundos depois
que o locutor esportivo narrava o lance, em português de Portugal, ele narrava o mesmo lance
em português do Brasil.
A verdade é que onde o povo entra, seja o carnaval, a música, a dança ou o futebol, o sucesso
é garantido. Infelizmente, o povo brasileiro não tem encontrado entradas para a literatura. E o
preço dos ingressos, nos estádios, comparado ao que o povo ganha, está jogando todos para diante
da televisão apenas, em evidente empobrecimento de nosso futebol "glória do desporto nacional".
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