A discussão se inicia com a apresentação das características gerais do Rio de Janeiro, da parte geográfica e demográfica, dando um panorama da situação da cidade no período de transição entre o modelo colonial e capitalista. Segundo Mauricio de Abreu, só a partir do século XIX é que a cidade do Rio de Janeiro começa a transformar radicalmente a sua força urbana e a apresentar verdadeiramente uma estrutura espacial estratificada em termos de classes social. No texto Mauricio informa o seguinte a respeito dessa transformação: "A vinda da família real impõe ao Rio uma classe social até praticamente não existente.”
Nessa fase a Europa vive mudanças profundas face às revoluções burguesas. As idéias liberais vêm chegando ao Brasil, mas segundo Maria Odyla, a mecânica é diferente. Aqui o modelo não é capitalista aos moldes liberais, é escravista, devido ao modo de produção ser diferente. Na Inglaterra o camponês sai do campo para trabalhar na indústria. A França se destaca pelas invenções (Eric Hobsbawn). No Brasil a mão de obra é outra, como bem explica Carlos Soares, "quase todos os ramos da atividade industrial, os trabalhadores escravos desenvolviam as mesmas tarefas que os trabalhadores livres...". Apesar do surto no Rio de Janeiro, de crescimento industrial, em 1840, o processo era bem diferente do que ocorria no "pico" da revolução industrial na Inglaterra, 1830/1840.
Carlos Lessa informa que a urbanização do Rio de Janeiro enquadra-se no mundo da revolução industrial, porém sem industrialização, não constituindo o assalariado característico do capitalismo industrial: não havia proletariado da forma que ocorreu na Inglaterra. João Fragoso informa que já existia uma elite senhorial de forças consideráveis, já Miriam Dolhnikoff esclarece que ocorreram embates e negociações da elite local com a corte. É claro que a chegada da Corte proporcionou reflexos nos negócios; além da abertura dos portos, a presença da família real gerou uma maior dinâmica urbana, como aumento de sub-atividades, característica que permanece no Rio de Janeiro até os dias de hoje.
O Rio de Janeiro de forma geral teve que se relacionar com duas realidades distintas: a convivência como o escravismo e nova tendência liberal capitalista do século XIX. Mas, o Rio de Janeiro “teoricamente” não atendia as normas, tendências inovadoras, que o período moderno exigia das grandes cidades mundiais. O Rio, para se adequar às novas necessidades, teve que reformular os seus padrões, tanto na arquitetura quanto na representação social de suas elites. E é em torno dessa questão que é desenvolvido trabalho de analise do autor. Segundo ele a parte principal da cidade foi desenvolvida submetida às causas naturais da geografia. Era um tanto difícil se pensar em uma expansão urbana quando as causas naturais não contribuíam para tal feito de crescimento em outros territórios que não os iniciais no centro da cidade do Rio de Janeiro. A área era um tanto pantanosa, o que dificultava o desenvolvimento imobiliário, a princípio. E, levando em conta toda essa situação, o núcleo comercial se resumia às áreas do centro, não havendo sentido para o crescimento urbano para além desses limites. Somente com a chegada da família imperial é que essa situação tende a mudar por inúmeras razões.
Após o fim da escravidão a situação muda radicalmente. Consequentemente, a massa populacional aumenta consideravelmente, o que leva, até certo ponto, à degradação e à saturação desses espaços que, em alguns casos, não contavam com nenhuma política pública voltada para a saúde. Os espaços do centro eram disputados entre negros de ganho e trabalhadores livres, o que veio a se tornar uma realidade mais intensa com o fim da escravidão. Segundo Carlos Lessa, o Rio Imperial, era sujo e enfermiço, tinha poucas facilidades urbanas, infecções por doenças, falta de rede de esgotos, falta d’água, pouca prosperidade para o crescimento individual. Mauricio de Abreu diz que os habitantes do centro estavam tão próximos em suas relações, que isso se refletia no modo como os imóveis eram construídos: muitos prédios eram erguidos um ao lado do outro, para facilitar a comunicação entre os diversos setores do comércio local. Tal situação veio a desencadear um problema no Rio de Janeiro: a questão da moradia popular, que se desenvolvia na forma dos grandes cortiços na cidade. Um espaço que, na era colonial, era quisto pela elite e que foi ainda mais desenvolvido nesse sentido, com a chegada da família real e com o desenvolvimento demográfico.
Após a incursão de escravos libertos e trabalhadores pobres, o espaço urbano passa a ser relegado a relações capitalistas, o que resultou numa necessidade de suporte para essa estrutura: a proximidade de áreas urbanas que abrigavam contingentes de trabalhadores que se deslocavam para o centro. Essa realidade faz com que a elite busque outros lugares menos disputados e dissociados das relações capitalistas diretas. Os setores públicos são “forçados” a desenvolverem projetos públicos para desafogar e dar novo aspecto ao centro. O que levou às obras de escoamento de áreas pantanosas que foram destinadas aos novos empreendimentos imobiliários. À medida que o Centro do Rio de Janeiro é ocupado, vão se aterrando e desaparecendo rios e lagos. Um exemplo é o morro do Castelo, que foi destruído e cuja terra foi para o Aterro do Flamengo. Aos olhos de hoje, entendemos que não se respeitou a geografia local, bem como o meio ambiente.
Em nossa opinião, o desenvolvimento realmente assume suas características com a contribuição do capital estrangeiro que veio, junto com o capital nacional e estatal, contribuir para um novo processo de expansão e este devido ao desenvolvimento do transportes públicos mais modernos como o bonde e o trem. O desenvolvimento do Rio, na questão urbanística, teve como marco fundamental o ano de 1870, com o inicio das construções de linhas férreas de bondes que demarcaram o território do Rio de Janeiro. Segundo Elisabeth Von, os bondes e os trens urbanos foram essenciais para a expansão e organização do espaço urbano no Rio de Janeiro. Sem dúvida nenhuma, as ferrovias por extensas áreas das diversas freguesias da cidade para além do centro comercial do Rio promoveram a expansão da população, face ao advento do bonde. Os que podiam pagar logo se retiraram para as novas terras, seguindo o modelo da família Imperial, e assim as extensas fazendas foram fragmentadas em chácaras e depois em loteamentos.
A necessidade de mudar o centro do Rio desenvolveu um fenômeno ainda maior que o esperado, pois com o advento do transporte publico áreas que antes estavam inacessíveis se tornaram alcançáveis. O texto informa que por volta de 1850, o Rio de Janeiro fica contraditório, modernidades urbanistas ao lado de locais onde residem populações miseráveis. Voltando aos bondes, temos que considerar as colocações de Ferreira dos Santos sobre os bondes seguirem um caminho pré-existente: "o bonde foi para zona sul, porque as razões de ocupação seletiva da área já eram uma realidade..." Segundo Elisabeth, em 1892 o bonde chega a Copacabana, consolidando a Zona Sul da cidade. A construção desse ramal foi feita de acordo com os interesses do capital imobiliário, que desejava expandir naquela área.
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REFERÊNCIAS
ABREU, Mauricio de A. Evolução Urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1987.
COSTA, Emilia Viotti da. Introdução ao estudo da emancipação política do Brasil. In:
MOTA, Carlos Guilherme. Brasil em Perspectiva. SP/RJ: Difel, 1980
DIAS, Maria Odila Leite da Silva. A interiorização da Metrópole e outros estudos. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2005.
LESSA, Carlos. O Rio de todos os Brasis. Rio de Janeiro: Record, 2000.
SOARES, Luis Carlos. A escravidão Industrial no Rio de Janeiro do século XIX. Disponível em: <econpapers.repec.org/paper/abphe2003/085.htm>
WEID, Elisabeth Von Der. O bonde como elemento de expansão urbana no Rio de Janeiro. Fundação Casa de Rui Barbosa. Disponível em: <www.casaruibarbosa.gov.br> |