| IRACEMA, MÃE DE ALENCAR |
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Professor Dr. Wander Lourenço Universidade Estácio de Sá, Curso de Letras |
Em se tratando de um autor como José de Alencar, cujo conjunto epístolo-ensaístico permeia as suas edições livrescas - prefácios, posfácios, notas de rodapé etc, a investigação crítica elaborada através dos registros extraficcionais sempre pareceu primordial para a análise dos escritos literários. Pode-se considerar que tais menções às margens das obras ficcionais de caráter indianista O guarani, Iracema e Ubirajara abrangeriam uma parcela significativa de inserções discursivas calcadas no âmbito da legitimidade e verossimilhança narrativas, oriundas de um projeto de nacionalidade a ser abarcado pela prosa de ficção romântica situada no século XIX. Não obstante, se observaria a priori de bom grado a prefiguração do silvícola ameríndio que, tenazmente, opôs-se à escravização sacro-ideológica portuguesa e europeia de um modo geral - vide a progressão poligâmica e o canibalismo vigente nos registros quinh entistas de Manoel da Nóbrega, André Thevet e Jean de Lery -, ao passo que não resistiria às armadilhas e alçapões da narração heróica, altissonante, como se diria nos Três alencares de Candido, quando eleitos para a representação do Peri-herói, no bojo de um passado histórico mais apto ao Éden brasilis ou ao Paraíso terreal, transcrito por Rocha Pita em sua História da América Portuguesa.
O aprisionamento desta concepção mítico-heróica historicamente desagrilhoada da condição humana pelo viés da idealização trovadoresco-medieval calcada na submissão de vassalagem sentimental, que demarcaria o percurso reconstruído pelo ideário romântico, alicerçado na proposição de (re)interpretação antropofágica não poderia demonstrar reações às vertentes imaginárias concebidas pelas manifestações oitocentistas, de vez que os primeiros habitantes americanos não impunemente foram arrancados sob disfarces poéticos das páginas pós-cabralinas dos Aires de Casal, Fernão Cardim ou Frei Vicente de Salvador. As desapropriações historicistas antes contribuiriam para a instauração do mito do "mau selvagem" anti-rousseauneano originado pela inversão trovo-cavaleirescaresca do índio medieval, alegoricamente constituído e retratado pelos espelhos franco-holandeses dos Gonçalves Magalhães e Dias, com submissas mãos delicadas par a o aceno p? ?trio-cívico ou ainda para melhor acarinhar a dócil face de Cecília d'O Guarani mais a contento da concepção estético-burguesa. Todavia, ainda assim fora o indígena alencareano quem dera o segundo grito de independência étnico-lingüítico pós-Pedro I, por constituir a subsequente ruptura idiomática em detrimento da ameaçadora sintaxe lusitana. E oxalá o tupi-guarani do Major Quaresma e do pajé Oswald de Andrade sem macumba para turista!...
De outra feita, o branco ‘desvirginador' de índias saradinhas e desavergonhadas do email de Vaz Caminha, ao instaurar a civilização antártica, demonstraria resistências à conciliatória pena etno-conciliatória, visto como, mesmo quando os intelectuais do século XIX traçaram a conjugação entre a América e a Europa, não seriam descaracterizados e mutilados ao extremo em seus anagramas e perfis anatômicos. Em Iracema, por exemplo, após a proposição da conjugação entre o macunaímico príncipe lindo branco europeu dos olhos azuis e a raça colonizada provinda da velha índia tapanhumas que pariu uma criança feia a que chamaram de Mário de Andrade, quando se atenta para o batismo de Martim em Coatiabo, o amante da melíflua virgem dos lábios carnudos filha de Araquém, apontariam os perspicazes críticos pós-Alencar, conservaria os seus hábitos civilizados de antanho provindos da aristocrática educação lusitana. Ora, quiçá caberia a indagação referente ao fato de que elemento étnico de além mar não sofrera quase o idêntico processo de proliferação de sua ameaçadora presença e identidade, calcada, sobretudo, no vigor de adaptabilidade aos modos e costumes dos selvagens na ópera futurista de João Caetano. Isto em razão de estarem se devorando por vezes a carne humana e biblicamente se multiplicando, em dionisíacas orgias à moda ménage-a-je-suis-trezentos com os indígenas à flor da pele tingida por cronistas judaico-cristãos e afins. Quanto a isto, vide a carnívora insurreição sexual dos europeus nas epístolas de Antônio Vieira e também no fictício parto de cócoras dos caboclos Capiroba e Jeca Tatu na barroca enciclopédia de Gregório de Matos e Guerra ou na geléia geral de Ubaldo Ribeiro e... Viva o povo brasileiro!...
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Falávamos da estrutura caótica do centro antes da chegada da família imperial e do
desenvolvimento do comércio capitalista no Rio. Torna-se novamente necessário revermos as circunstancias. As reformas realizadas para dar um
aspecto mais moderno e desenvolvido ao Rio foi na verdade, como bem entendido, um maqueamento da cidade, pois visava, na verdade, a retirada da parcela
pobre do centro que habitava em imóveis insalubres e desgastados (cortiços). Essa atitude acabou por agravar a situação de
moradia na cidade, uma vez que os deslocados, quase que na totalidade, não tinham condições de se recolocarem em áreas mais bem
definidas e urbanizadas, o que veio favorecer a favelização da cidade. Essas pessoas logo tomaram para si os espaços não quistos
pelos favorecidos socialmente; e acabaram por ocupar as encostas dos morros da cidade, problema que ainda persiste.
Na realidade a situação do Rio de Janeiro é totalmente diferente dos demais Estados do
país. Por ter convivido com um colonialismo tradicional não pôde se livrar prontamente dessa influência e, por sua vez, o
capitalismo na se interessa por questões de planejamento urbano a não ser quando esse pode viabilizar altos lucros. A
constituição do Rio de Janeiro na atualidade é devida a esses fenômenos do desenvolvimento do Centro e das áreas
adjacentes. Seria caso de um intenso desarranjo político social. As reformas realizadas para adequar as áreas do Centro não obtiveram
sucesso real, pois foram reformas feitas com o intuito de mascarar a imensa contradição social existente no Rio colonial e capitalista. E as
áreas próximas ao centro comercial do Rio não tiveram um cuidado especial com o desenvolvimento de seu potencial; ficaram restritas
à manutenção e sustentação de um centro problemático. Isso ainda se reflete nos dias atuais, uma
situação desastrosa no mínimo.
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Ao contrário desta constatação, a narrativa de Iracema esboçaria o desenho de um guerreiro nostálgico, mas muitíssimo apaixonado pela ex-virgem dos lábios de mel, que em hipótese alguma se renderia aos grilhões da uraguaia colonização caramuru Rita Durão e Lindóia. O Romantismo ainda impusera a dita civilização do pecado cristão ao silvícola ameríndio através do dicotômico faz de conta dramatúrgico-jesuítico, a fim de que se atingisse mui além da força do castigo físico do açoite judaico-católico, ao dialogar com o aprisionamento ideológico-alegórico do imaginário dos espectadores da didática teatrologia do pseudo-São Anchieta, no púlpito da Capela de São Lourenço dos Índios. Desta feita no entanto, não seria mais incabível ainda se José de Alencar propusesse uma espécie de inversão de catequese cristã; ou seja, o travestir-se ou a transmutação do europeu colonizador num autêntico Ubirajara apreciador de c arne holandesa a la carte acompanhada do bom cauim de Cabo Frio ou Itaparica feito pelas virgens tamoias de Hans Staden? E, por este viés, não abarcaria maiores conseqüências o fato de que, após a sua cerimônia rito-batismal ameríndia, o amante da filha de Araquém arremessasse o espírito e o pensar ao modo de Robinson Cruzoé de tacape, arco e flecha assaz receptível aos espelhos, bugigangas e facões de Villegagnon ou Álvares Cabral?
Ao propor tais questões caberia hipoteticamente indagar quão seriam as críticas contemporâneas ao movimento de regressão psicológica de Martim, ao que se refere ao seu percurso pseudo-indígena na pele branca de Coatiabo, a tal ponto que se inserisse a indagação: não causaria ainda mais estardalhaços aos leitores o comportamento inadequadamente cordial asselvajado do legitimo herói lusitano pernóstica e inacreditavelmente improvisado na condição tupinambá ou guarani? Decerto diriam os audazes detratores do processo de metamorfose do silvícola em Dom Gaalaz, conforme inversamente o fizera carnavalesticamente Oswald de Andrade em seu Manifesto Antropófago, mediante a acusação de que os selvagens com bons trejeitos modos portugueses artificiais, qual barítonos figuravam nas operetas nos salões da corte fluminense. Destarte, tal comportamento forçosamente indianista de Martim ao que parece soaria tão artificial e inverossímel, quanto as sut ilezas das mãos e espírito do gentleman Juca Pirama, vestido de senador do Império ou moqueado em salmoura ao gosto de Almeida Garret e cia.
A partir deste raciocínio, quiçá seja de bom alvitre salientar que o europeu e o silvícola ameríndio encontram-se em iguais condições devidamente distanciados - o primeiro pelo espaço geográfico; e o segundo, pela cronologia proposta pelo retorno ao passado histórico. Aos elementos etnográficos de composição conciliatória disponíveis pela concepção romântica não resistiriam brancos e índios seduzidos pelos cânticos de guerra compostos pela homérica sereia aquário cearense da família Alencar. E oxalá Gabriela Cravo e Canela de braços dados com o cacique tupi-guarani Heitor Villa-Lobos tocando alaúde, acompanhado da flauta crioula de Pixinguinha e do piano fox-trot de Antônio Carlos Jobim!...
A personagem Iracema, com vultos de anagrama da América, vem a ser a concepção heróica que abarcaria em sua trajetória sócio-lendária as tais noções histórico-geográficas, que demarcariam o romance de Fundação pós-árcade; e, por conseguinte, vem a ser esta virgem dos lábios de mel, ainda que no cerne de toda idealização da natureza-pátria, o elemento etnográfico possível de consignação sociológica com o elemento europeu colonizador, Martim. Nos registros epistolares sobre a Confederação dos Tamoios de Magalhães, constata-se que conquanto haja os Caubis, Irapuãs e Potis europeizados, há uma brasilidade artificiosamente magnífica, a ponto de Agripino Grieco ressaltar que afloraria uma inexplicável originalidade local com o cheiro e gosto do país que, se o índio não foi assim como Alencar imaginara, deveria de sê-lo.
Destarte, a guerreira virgem se movimenta no âmbito alegórico por três níveis da narração: |
- Virgindade / O segredo da Jurema / A violação da Terra;
- A Conciliação / A inadaptabilidade de Martim / O cultivo da Terra;
- A expiação / O nascimento de Moacir / O Fruto da terra.
Ao situar a heroína romântica num patamar simbólico a partir da conjugação de elementos alicerçados nos conceitos de Origem, Conciliação e Fundação, o narrador alencareano permearia o discurso com alusões referentes ao fato de que Iracema se desdobraria num ritmo de significâncias múltiplas, que a impeliriam ao lendário e ao mítico, extrapolando o caráter histórico:
- A raça ameríndia anterior ao contato com o branco colonizador - a Origem;
- A miscigenação do indígena com o elemento europeu - a Conciliação;
- A frutificação das etnografias - a Fundação.
Neste processo dialógico, uma das críticas que se faz à obra literária em questão vem a ser a não introspecção entroncada na subsistência bárbara dos selvagens concebidos pelo Romantismo, no tocante ao que diz respeito à virgem dos lábios de mel. A tais questionamentos ainda se aliariam o "apagamento racial" ou a não presença do elemento negro, haja vista ser o registro indianista acusado de suprimir a origem africana na constituição política da nação ao conceber a violação do processo colonial, conforme assevera Alfredo Bosi. Ora, se o neorealista Graciliano Ramos e até Guimarães Rosa sofreram restrições por incutir de introspecção em suas concepções sertanejas Paulo Honório, Riobaldo etc., o que não diriam de uma indígena abalroada de conflitos e dramas psicológicos, que o ultrapassassem a dor da saudade de uma cantiga de amigo? Enfim, quanto às considerações críticas a respeito da supressão da presença d o negro num romance de Fundação, não se levando em conta o caráter mercadológico/escravocrata nem a historicidade contextual, em que situação narrativa caberia a inserção de tal elemento etnográfico no projeto de nacionalidade que deságua em Iracema? Caso os pios leitores, conforme se refere Alencar, reivindicassem que a conciliação das etnias concebesse um "preto retinto" Moacir; ou, quem sabe, se se arranjasse um Sexta-Feira amulatado para acompanhar o guerreiro branco pelos trópicos americanos caracterizados pelas tropicalistas matas do Ipu. E oxalá o macumbeiro Vinícius de Moraes, batendo atabaque num altar-mor de Aleijadinho, após pitar cigarro de palha com Dorival Caymmi e Macunaíma, deitados na rede de paxiúba: "- Ai, que preguiça!..."
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