O MUNDO NOVO: Ecce Mundus |
|
Professor Dr. Lucio Valentim |
A partir da leitura de O admirável mundo novo, A laranja mecânica e 1984, faz-se uma análise dos tempos modernos, da tecnociência, da violência e do apego a paixões efêmeras.
O Mundo Novo aí está e continua a inventar seus impasses - em acordo com certas utopias que ele mesmo supôs. A realidade virtual dos clips, dos games, dos chips, dos 3D; a frivolidade ágil dos shoppings, dos fast-foods, dos self-services; a massificação dos serviços, a pseudo-coletivização das gentes, dos costumes, enfim; o stress, a mercadoria, a competição urbana, o consumo, tudo isso coloca o cidadão contemporâneo - desde idade social muito precoce - frente a perspectivas sombrias ou, quando menos, desfavoráveis; tudo isso somado resume o fetiche de um mundo que vende facilidades, mas que sonega seus ônus.
De há muito a literatura universal vem discutindo o tema e, se pudéssemos imaginar uma linha que cruzasse o século, elegeríamos para nosso propósito alguns textos fundamentais que fariam melhor compreender o que aqui se pretende enfocar: a) O Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, b) 1984 (1948), de George Orwell, c) A Laranja Mecânica (1971), de Anthony Burgess - textos que têm como tema as escatologias do mundo futuro.
No livro de Huxley, deparamo-nos com uma sociedade dominada pela manipulação genética, onde o processo de reprodução artificial fabrica castas em laboratórios para o domínio de outras classes, inferiormente idiotizadas - tanto pela tecnologia genética quanto pela midiática -, a fim de cumprirem o papel social da submissão; ambas (porque era um mundo asséptico, aparentemente sem tensão entre os extremos), ambas de alguma maneira tentando parecer humanas, mas igualmente submetidas às benesses mercadológicas do mundo artificial. Nesta sociedade, o instrumento de repressão à súbita insatisfação social, ao tédio semi-humano, ao sentimento de artificialidade do amor e das relações é o Soma, a droga sintética patrocinada e administrada pelo Estado, com o intuito de interferir na personalidade dos grupos, aplacando-lhes as dores e ajudando o cidadão a acomodar-se às admiráveis novidades do Mundo. Droga típica de uma sociedade hiper-real, despersonalizada e organizada de acordo com os pressupostos da ordem, da limpeza, o Soma funcionava ali como o aditivo perfeito para que as peças humano-sociais permanecessem, roboticamente, cumprindo seu papel.
|
Já em Orwell, o Estado é o Grande Irmão onipotente, onipresente e onisciente e que vigia, através de sistemas eficientes de manipulação eletrônica, as identidades individuais, penetrando sonhos e desejos; a liberdade é rarefeita, e pressupõe a submissão total do cidadão ao Partido - sob o olhar eletrônico de teletelas espalhadas pelas casas, praças e ruas e das Polícias do Pensamento. Aqui, a insatisfação social é latente: há ideologias distintas, fala-se em insurreição, mas o domínio do Estado militar não deixa margem para divergências - pois funcionava ali quase como substituto da consciência dos seus cidadãos - e punitivo.
Já A Laranja Mecânica focaliza uma sociedade liderada por gangs de adolescentes "anti-sociais", gratuitamente violentos e drogados, sádicos e totalmente despojados de qualquer ideologia. Esta espécie de pós-punks, denominada nadsat, representa a descrença em relação aos Sistemas sociais, configurando, outrossim, seu mais irônico e violento refluxo.
Tratam-se de sociedades fundadas em tempos em que o mundo mecanizado e futurista tem no novo indivíduo - entorpecido/seduzido pela lógica da mercadoria - um híbrido que, entre orgulhoso e esgotado daquilo que ele mesmo construiu, passa a organizar-se em grupos, à sua maneira cada vez mais distintos e distantes; tempos em que o entendimento entre as partes não é fruto da fraternidade - esta coisa abstrata -, tampouco da tolerância - instinto quase messiânico -, mas fruto de formas excêntricas e difusas de controles, em que o cidadão, inadvertidamente, entra em simbiose com a hiperbólica idéia de mercadoria de Estado.
Apesar de possuírem algo em comum, porque em uníssono apontam para instantes sinistros das formas humanas de vida futura, os textos acima nos remetem a perspectivas distintas quanto a abordagem desse futuro.
É verdade que a realidade genética, neste fin-de-siècle, nos invade; a concepção artificial do homem é fato real, mas ainda não cruzamos com andróides pelas ruas (apesar de fabricarmos os nossos idiotizados cotidianos); o processo de globalização aventa possibilidades de transnacionalização das culturas, mas não há, neste contexto, espaço para uma ideologia de Estado, ou a submissão total a um só partido (embora a fantástica idéia de uma aldeia global já se esteja delineando nessas espécies de grandes Estados transnacionais: Mercosul, Mercado Comum Europeu, Tigres da Ásia). Contudo, há dúvidas sobre se a necessidade de mercado forçará de fato todas as tolerâncias - sobretudo as raciais e religiosas.
|
O texto de Burgess apresenta-nos um tempo em que não há mais partidos, não há Estado, não há andróides, nem ideologias (pelo menos na base comportamental da geração que domina o universo nadsat), mas, em contrapartida, convive-se com os dejetos da hiper-informação, num mundo em que algumas contradições da sociedade são consumidas sistematicamente, veiculadas em clips comerciais, fantasiando ícones artificiais que servem de alimentar a tensa e desigual competição cotidiana. Neles, existem sempre modelos a serem seguidos e estes modelos quase sempre se chocam com o real. Ali, a banalização da violência - e conseqüentemente do humano -, são artigos comuns. Como no mundo de Huxley, a droga é livre e sistematicamente utilizada, de modo que desde adolescente se pudesse desenvolver uma espécie de desajuste agressivo e desequilibrado, que fizesse odiar as instituições e todos os seres viventes - e os agredir -, mas meramente por razões psicológicas, nunca por ideologia ou politização.
Se hierarquizássemos os textos citados de acordo com as perspectivas por eles apontadas e as circunstâncias históricas em que foram concebidos, somando-se isto à própria realidade transcorrida no século XX, poderíamos agrupá-los e compreendê-los da seguinte maneira: a) preconizado no pós-guerra, o mundo futuro de Orwell previra uma forma de organização que superasse as dicotomias advindas dos conflitos e destroços da guerra: uma ordem social centralizadora e poderosa, que pasteurizasse os indivíduos por intermédio da propagação ideológica. Esta sociedade, antevista em 1984, meio yuppie e decadente, dominada pela máquina e pela burocracia de Estado, parece já ter experimentado em nosso tempo seus dias de apogeu e declínio. b) O Admirável Mundo Novo, de Huxley, idealizado no entre guerras - e como um contraponto à idéia subliminar da guerra de que a tecnologia e a ciência, que serviam à violência e à destruição, um dia iriam redimir o mundo, vislumbrou uma sociedade sofisticada, asséptica e eugênica, acomodada à realidade da tecnologia; entretanto a ciência, que se esperava fosse uma forte aliada à reconstrução do futuro, no mundo de Huxley encontraria seu mais radical paroxismo. |
|
A manipulação genética, em nosso tempo, não atingiu os níveis huxleyanos, porque tem como meta o mercado - e nele sua forma específica de domínio; desta maneira, hoje, a manufatura de genes não aspira propriamente a uma dominação de castas - exceto se este produto/serviço (manufatura para dominação) vier a ser exigido pelo mercado; as drogas sintéticas proliferaram, mas, em contrapartida, as doenças (sociais, físicas, psicológicas) se multiplicam, nesta espécie de ciberespaço neoliberal, epi-de-mi-ca-men-te. c) Já no texto de Burgess imagina-se uma sociedade destituída de valores, na qual uma camada média decadente, dominada pelo consumo e pela produção de serviços virtuais (inclusive o amor), produz jovens desajustados e perversos. Texto concebido no limiar dos anos 70, A Laranja Mecânica não esconde ser uma observação hiperbolizada daquelas primeiras tribos de adolescentes que começavam a se formar no rastro do ideário hippie e de toda a cultura pop característica da transição político-comportamental ocorrida na passagem dos 60 para os 70 (informática, video-clips, drogas sintéticas, mundo virtual, etc.), e do pós-guerra: os punks
|
| Voltar |
|