Mas as sombras dos bastidores conviviam com esta cidade de controle, de luxo e ostentação. A outra cidade era a das populações trabalhadoras urbanas, acrescida dos problemas aprofundados pelo processo de civilização.
Esta outra cidade não se apresentava bela, ou limpa, ou moderna, ou ordeira. Não era agradável ao olhar. E a segmentação do moderno e do antigo denotava nova localização espacial para a pobreza. As chamadas classes perigosas são deslocadas, mas continuam a existir neste espaço urbano multifacetado.
E como diz o Correio da Manhã, em 1917, ao mapear a pobreza na cidade do Rio de Janeiro:
A profissão já me havia levado a conhecer, vezes várias, as casas infectas e condenadas em cujo bojo se arrastavam, torturados pela necessidade mais cruel, homens e mulheres e crianças de todas as idades, bons e doentes, inspirando tal ambiente um misto de compaixão e de repugnância. (...) No Morro do Pinto, no da Favela, no do Castelo, no de Santo Antonio, nas encostas de Santa Tereza, na baixada de Copacabana e em grande parte da zona suburbana e rural era apenas essa a situação mais ou menos certa de notar aquele que um desses pontos da cidade visitasse (Correio da Manhã, 10/07/1917).
O Rio de Janeiro foi, no início do século XX, o centro polarizador de brasileiros que se aglomeravam em busca de sobrevivência e trabalho. A grande imigração portuguesa atraiu ibéricos que vinham “fazer fortuna” e voltar para a “terrinha”. Sem dúvida eram homens jovens que trabalhavam de sol a sol, disciplinados e que contrastavam com muitos trabalhadores nacionais, considerados beberrões, indisciplinados.
Com a maciça penetração de capital estrangeiro, modernizando a infraestrutura de fornecimento de gás, luz, água, eletricidade, vias férreas, há uma contradição com o Rio arcaico, com seu acanhado cais e estreitas ruas de alta densidade populacional. Estes contrastes eram entendidos pela elite como uma oposição entre “a cidade codificada e desejada pelos brancos e a cidade (esconderijo) instituída pelos negros (CHALHOUB, 1996; PECORELLI, 2008).
Em 5 de julho de 1909, o jornal Correio da Manhã escreveu sobre o Morro da Favela:
É o lugar onde reside a maior parte dos valentes de nossa terra, e que, até mesmo, sem motivo algum - não tem o menor respeito ao Código Penal nem à polícia, que também, honra lhe seja feita, não vai lá, senão nos grandes dias de endemoninhado vilarejo (Mattos, 2008).
Esta notícia demonstra como associar violência à favela e à pobreza é uma prática antiga no Rio. Desde a década de 1900 os moradores da favela são vistos como os grandes promotores da criminalidade e da desordem na cidade do Rio de Janeiro. Outra prática de discriminação da pobreza é associar moradias populares à desordem pública.
Segundo Rômulo Mattos em seu artigo, desde 1855 já se propunha colocar portões de ferro nos cortiços, que deveriam ficar trancados a partir de certa hora. Em finais do século XIX já se denunciava a crise habitacional desencadeada pela crise da economia cafeeira do Vale do Paraíba, pela abolição escrava e pelo desenvolvimento incipiente da indústria.
O contexto favorece a polarização de negros e portugueses imigrantes (principalmente) na cidade e, consequentemente, a formação de habitações precárias e coletivas. As demolições dos cortiços vão ser uma alternativa aceita como forma de diluição de focos de violência, promiscuidade e epidemias. Emblemática é a demolição do cortiço Cabeça de Porco, localizado próximo à Central do Brasil. Foram 2000 pessoas desalojadas (1843- 1910) com o argumento de que se tratava de uma questão de higiene pública. Os jornalistas denunciavam que teria havido uma intervenção salutar no combate a grupos de assassinos. Os terrenos resultantes das demolições passaram a ser muito interessantes para a especulação imobiliária.
Seus moradores se localizaram no Morro da Providência onde levantaram suas moradias. Entre 1893-1894, soldados que combateram a Revolta da Armada obtiveram licença do governo para morar no Morro de Santo Antonio, no Centro. Começava assim a história das favelas. A Revolta de Canudos 1897 ao retornar seus soldados acabaram se acomodando no Morro da Providência futuro Morro da Favela.
Este painel da cidade do Rio de Janeiro, na virada do século XIX para o XX, procura mostrar que esta cidade civilizada sempre segmentou a pobreza e a associou à criminalidade, à promiscuidade. Não é de hoje que os guetos cariocas trazem o estigma da violência.
REFERÊNCIAS
BARRETO, Lima. Coisas do reino de Jambon. Sátira e Romance. 2a ed. São Paulo: Brasiliense, 1961.
CHALHOUB, Sidney. Medo Branco de almas negras: escravos libertos e republicanos na cidade do Rio. Discursos Sediciosos, Crime Direito e Sociedade, ano 1, nº1, 1° sem. 1996, Relume Dumará.
CORREIO DA MANHÃ. 10/07/1917
FOLHA DA MANHÃ 26/11/1925, retirado do Banco de Dados Folha. Acervo de Jornais on line: 21/07/2008
MATTOS, Rômulo Costa. Aldeias do Mal. In: Revista de História da Biblioteca Nacional 01/10/2007. Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1152>. Acesso em: 17 jul. 2008.
MENEZES, Lená M.. Os Indesejáveis: desclassificados da modernidade. Protesto, crime e expulsão da Capital Federal (1890-1930). Rio de Janeiro: EdUERJ, 1996.
PECORELLI, Clara. Cidade maravilhosa: um retrato em branco e preto? Jacaré Acadêmico n° 1 junho de 2008. Disponível em: < http://www.jacareacademico.com/1.php>.
PEREIRA PASSOS. Boletim da Intendência. Julho/Setembro. 1903, p.32-33. apud MENEZES, Lená Menezes. Os Indesejáveis: desclassificados da modernidade. Protesto, crime e expulsão da Capital federal (1890-1930). Rio de Janeiro: EdUERJ, 1996.
RODRIGUES, Antonio Edmilson M. João do Rio: a cidade e o poeta, o olhar flâneur na belle époque tropical. Rio de Janeiro: FGV, 2000.