BBC BRASIL

BBC LONDON

      REVISTA ACADÊMICA INDEPENDENTE

QUEM SOMOS

CONSELHO EDITORIAL

PARTICIPE - COMO REMETER SUA MATÉRIA

LEIA ARTIGOS


PANORAMA DO RIO DA VIRADA DO SÉCULO XIX PARA O XX EM JOÃO DO RIO, LIMA BARRETO E OUTROS MAIS

Professora MsC. Eliana Vinhaes

O Rio de Janeiro na virada do século XIX para o XX apresenta uma série de mudanças no seu perfil urbano e social. A cidade deve ser remodelada pelas novas exigências que se avolumam e que precisam de soluções.

   Era no tempo de Pereira Passos. Diz a lenda que Passos superou o atraso colonial, transformando “a cidade bárbara em metrópole digna da civilização ocidental”. O Rio, como se dizia à época, civilizou-se!

   Tempos de euforia para uns, de dificuldades e conflitos para outros.

   Este Rio de Janeiro, cuja idéia de progresso se inscrevia na poeira das demolições, convivendo com as contradições das ‘luzes e sombras’ da cidade, das elites e dos trabalhadores urbanos, muitos recém libertos da escravidão, vai delineando seu perfil remodelado. “Remodelar o Rio! Arrasando os morros (...). Mas não será        mais o Rio de Janeiro, será outra qualquer cidade que não ele” (BARRETO, 1961, p. 124).
           
   Lima Barreto frequentemente se expressava reativo ao progresso proclamado, tendo muitos aliados seus coevos. As elites cariocas deslumbradas com as capitais européias acalantavam sonhos de um padrão inexistente deste lado do Atlântico. Norteados pelas idéias de ciência e razão, tentavam construir uma cidade vitrine, mas esta “cristaleira” criadora de uma visibilidade moderna coexistia com uma série de problemas a serem enfrentados.

   Os otimistas vislumbravam uma cidade idealizada, tendo como parâmetro as capitais européias Londres e Paris. O lamento de Lima expressava o ímpeto devorador que rasgava as ruelas de então, na perspectiva de criação de largas avenidas, que permitissem o arejamento das ruas, cujas esquinas arredondadas permitiam que os bons ventos percorressem os novos caminhos da modernidade.

   Este amplo projeto urbanístico destinava-se a erguer uma capital moderna bela, higiênica, ordeira e racional, dotada de um centro de negócios florescente e ambicioso que ocultasse as marcas do seu passado colonial de becos e ruelas.

   Este processo, que oscilava entre o moderno e o tradicional, tentou negar o passado escravista e aristocrático glorificando uma nova forma burguesa de viver. Mas, comprometidos com os resquícios da permanência de uma mentalidade hierarquizada e excludente, os ideais de progresso estavam limitados na sua origem.

   Ao luxo da boca de cena fazia parelha a miséria dos bastidores.
           
   As administrações Pereira Passos e Carlos Sampaio foram regidas pelo impacto causado por grande obras públicas, de embelezamento da cidade, com  avenidas e jardins para serem mostrados aos que aqui chegavam vindos da Europa. Beleza, saneamento e racionalidade forjaram o novo sentido dos tempos modernos.

   Por outro lado, tentava-se ocultar e negar os rastros “da cidade colonial presentes nas ruas estreitas, com valas centrais; nos becos mal iluminados, mal cheirosos e afamados; nos cortiços e estalagens que proliferavam no coração da cidade Velha” (MENEZES, 1996, p. 28).

   Os mercados sujos e barulhentos, quiosques expondo sua mercadoria, armazéns de secos e molhados passaram a ser satanizados pelos que aplaudiam a chegada da civilização.

   As realidades do Rio de Janeiro, entretanto, eram muito diferenciadas se considerarmos os vários segmentos da sociedade. De um lado este Rio vestia-se de luxo e modernidade, por onde transitavam as elites urbanas, segmentando espaços e reprimindo os costumes tradicionais. De outro, escondendo a pobreza e os vícios da periferia,  controlavam-se, sob atenta vigilância, as vozes discordantes dos grupos excluídos.

   Buscando a ocultação do passado, as elites encobriam as cicatrizes deixadas por séculos coloniais de escravidão e da concentração de terras  e riquezas.

   Os indícios dos novos tempos permearam o cotidiano da capital: combate às epidemias associadas à pobreza, busca de uma nova ordem, febre de negócios pulsando sob a tirania do relógio:

Dar tempo ao tempo é uma frase feita cujo sentido a sociedade perdeu integralmente. Já nada se faz com o tempo. Agora faz-se tudo por falta de tempo. Todas as descobertas de há vinte anos a esta parte tendem a apressar os atos da vida. O automóvel, essa delícia, e o fonógrafo, esse tormento encantado a distância e guardando às vezes para não perder tempo, são bem os símbolos da época (João do Rio, apud RODRIGUES, 2000, p. 17).

   Os libelos populares se expressavam na imprensa de época, como se vê em artigo publicado pela Folha da Manhã: 

(...) Acontece, porém, que os nossos governantes, sempre escolhidos nas classes abastadas, e residindo todos nas zonas privilegiadas, nunca se dão ao trabalho de olhar pelas necessidades dos habitantes dos bairros operários e mesmo dos burgueses... (Folha da Manhã, 26/11/1925).

   O progresso reordenou e segmentou os espaços, redesenhando uma nova cidade, aquela  da emergência das relações capitalistas. As relações escravistas passaram a ser vistas como uma mancha a ser apagada. E Paris era o foco delirante que marcou época.
E esse processo atingiu violentamente a população pobre urbana, que utilizava o espaço para o trabalho, a moradia e o lazer.
Nos finais do sáculo XIX já se iniciava o processo de embelezamento da velha cidade. A Praça Tiradentes iniciou este processo com jardins e arborização, colocam-se sarjetas nas vias públicas centrais; derrubada do Morro do senado e de construção de um túnel ligando Botafogo à orla oceânica.
   A “limpeza” da cidade é claramente explicitada por Pereira Passos cuja gestão  ocorre entre 1902-1906:

Comecei por impedir a venda pelas ruas de vísceras de reses, expostas em tabuleiros, cercados pelo vôo contínuo de insetos, o que constituía espetáculo repugnante. Aboli a prática rústica de ordenharem vacas leiteiras na via pública; que iam cobrindo com seus dejetos, cenas estas que ninguém, certamente, achará dignas de uma cidade civilizada. (...) Tenho procurado pôr termo à praga dos vendedores ambulantes de loteria, que por toda parte perseguiam a população (...) dando à cidade, o aspecto de uma tavolagem. Muito me preocupei com a extinção da mendicidade pública, (...) punindo os falsos mendigos e eximindo os verdadeiros à contingência de exporem pelas ruas suas infelicidades (Pereira Passos, apud MENEZES, 1996, p. 40).

   Mas as sombras dos bastidores conviviam com esta cidade de controle, de luxo e ostentação. A outra cidade era a das populações trabalhadoras urbanas, acrescida dos problemas aprofundados pelo processo de civilização.

   Esta outra cidade não se apresentava bela, ou limpa, ou moderna, ou ordeira. Não era agradável ao olhar. E a segmentação do moderno e do antigo denotava nova localização espacial para a pobreza. As chamadas classes perigosas são deslocadas, mas continuam a existir neste espaço urbano multifacetado.

   E como diz o Correio da Manhã, em 1917, ao mapear a pobreza na cidade do Rio de Janeiro:

   A profissão já me havia levado a conhecer, vezes várias, as casas infectas e condenadas em cujo bojo se arrastavam, torturados pela necessidade mais cruel, homens e mulheres e crianças de todas as idades, bons e doentes, inspirando tal ambiente um misto de compaixão e de repugnância. (...) No Morro do Pinto, no da Favela, no do Castelo, no de Santo Antonio, nas encostas de Santa Tereza, na baixada de Copacabana e em grande parte da zona suburbana e rural era apenas essa a situação mais ou menos certa de notar aquele que um desses pontos da cidade visitasse (Correio da Manhã, 10/07/1917).

   O Rio de Janeiro foi, no início do século XX, o centro polarizador de brasileiros que se aglomeravam em busca de sobrevivência e trabalho. A grande imigração portuguesa atraiu ibéricos que vinham “fazer fortuna” e voltar para a “terrinha”. Sem dúvida eram homens jovens que trabalhavam de sol a sol, disciplinados e que contrastavam com muitos trabalhadores nacionais, considerados beberrões, indisciplinados.

   Com a maciça penetração de capital estrangeiro, modernizando a infraestrutura de fornecimento de gás, luz, água, eletricidade, vias férreas, há uma contradição com o Rio arcaico, com seu acanhado cais e estreitas ruas de alta densidade populacional.  Estes contrastes eram entendidos pela elite como uma oposição entre “a cidade codificada e desejada pelos brancos e a cidade (esconderijo) instituída pelos negros (CHALHOUB, 1996; PECORELLI, 2008).

   Em 5 de julho de 1909, o jornal Correio da Manhã escreveu sobre o Morro da Favela:

   É o lugar onde reside a maior parte dos valentes de nossa terra, e que, até mesmo, sem motivo algum - não tem o menor respeito ao Código Penal nem à polícia, que também, honra lhe seja feita, não vai lá, senão nos grandes dias de endemoninhado vilarejo (Mattos, 2008).

   Esta notícia demonstra como associar violência à favela e à pobreza é uma prática antiga no Rio. Desde a década de 1900 os moradores da favela são vistos como os grandes promotores da criminalidade e da desordem na cidade do Rio de Janeiro. Outra prática de discriminação da pobreza é associar moradias populares à desordem pública.

  Segundo Rômulo Mattos em seu artigo, desde 1855 já se propunha colocar portões de ferro nos cortiços, que deveriam ficar trancados a partir de certa hora. Em finais do século XIX já se denunciava a crise habitacional desencadeada pela crise da economia cafeeira do Vale do Paraíba, pela abolição escrava e pelo desenvolvimento incipiente da indústria.

  O contexto favorece a polarização de negros e portugueses imigrantes (principalmente) na cidade e, consequentemente, a formação de habitações precárias e coletivas. As demolições dos cortiços vão ser uma alternativa aceita como forma de diluição de focos de violência, promiscuidade e epidemias. Emblemática é a demolição do cortiço Cabeça de Porco, localizado próximo à Central do Brasil. Foram 2000 pessoas desalojadas (1843- 1910) com o argumento de que se tratava de uma questão de higiene pública. Os jornalistas denunciavam que teria havido uma intervenção salutar no combate a grupos de assassinos. Os terrenos resultantes das demolições passaram a ser muito interessantes para a especulação imobiliária.

  Seus moradores se localizaram no Morro da Providência onde levantaram suas moradias. Entre 1893-1894, soldados que combateram a Revolta da Armada obtiveram licença do governo para morar no Morro de Santo Antonio, no Centro. Começava assim a história das favelas. A Revolta de Canudos 1897 ao retornar seus soldados acabaram se acomodando no Morro da Providência futuro Morro da Favela.

  Este painel da cidade do Rio de Janeiro, na virada do século XIX para o XX, procura mostrar que esta cidade civilizada sempre segmentou a pobreza e a associou à criminalidade, à promiscuidade. Não é de hoje que os guetos cariocas trazem o estigma da violência.

 

REFERÊNCIAS

BARRETO, Lima. Coisas do reino de Jambon. Sátira e Romance. 2a ed. São Paulo: Brasiliense, 1961.

CHALHOUB, Sidney. Medo Branco de almas negras: escravos libertos e republicanos na cidade do Rio. Discursos Sediciosos, Crime Direito e Sociedade, ano 1, nº1, 1° sem. 1996, Relume Dumará.

CORREIO DA MANHÃ. 10/07/1917

FOLHA DA MANHÃ 26/11/1925, retirado do Banco de Dados Folha. Acervo de Jornais on line: 21/07/2008

MATTOS, Rômulo Costa. Aldeias do Mal. In: Revista de História da Biblioteca Nacional 01/10/2007. Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=1152>. Acesso em:  17 jul. 2008.

MENEZES, Lená M.. Os Indesejáveis: desclassificados da modernidade. Protesto, crime e expulsão da Capital Federal (1890-1930). Rio de Janeiro: EdUERJ, 1996.

PECORELLI, Clara. Cidade maravilhosa: um retrato em branco e preto? Jacaré Acadêmico n° 1 junho de 2008. Disponível em: < http://www.jacareacademico.com/1.php>.

PEREIRA PASSOS. Boletim da Intendência. Julho/Setembro. 1903, p.32-33. apud MENEZES, Lená Menezes. Os Indesejáveis: desclassificados da modernidade. Protesto, crime e expulsão da Capital federal (1890-1930). Rio de Janeiro: EdUERJ, 1996.

RODRIGUES, Antonio Edmilson M. João do Rio: a cidade e o poeta, o olhar flâneur na  belle époque tropical. Rio de Janeiro: FGV, 2000.

 

 

Voltar