BBC BRASIL

BBC LONDON

      REVISTA ACADÊMICA INDEPENDENTE

QUEM SOMOS

CONSELHO EDITORIAL

PARTICIPE - COMO REMETER SUA MATÉRIA

LEIA ARTIGOS


QUANDO AS OVELHAS DEVORAVAM OS HOMENS:
Utopia, cercamentos e história ambiental

 

Suely Romero, Dip. RSA
Pois aquilo que beneficia a grande maioria recebe apenas a menor de todas as atenções. Cada um pensa no que é seu; no interesse comum, quase nunca, e somente quando lhe traz vantagens pessoais.

Aristóteles

  Assim descrevi [Utopia] (…) a única  realmente digna do nome comunidade. Em todos os outros lugares é patente que, embora se discurse sobre a riqueza da nação, cada um busca apenas a própria fortuna.
Thomas More

  SUMÁRIO. Este artigo tem por objetivo abordar alguns aspectos do processo histórico de cercamento das terras comunais inglesas a partir de temas desenvolvidos na obra Utopia de Thomas More, datada de 1516. Com base no trecho que apresenta os carneiros como devoradores dos homens, busca-se interpretar as impressões do autor numa perspectiva ambiental, inseparável dos impactos sociais da privatização do campo e da extinção dos direitos comunais, prelúdio ao nascimento do capitalismo.

  Natureza, sociedade e paisagem. Elogiadas são as qualidades pictóricas da obra Utopia de Thomas More, que “faz surgir diante de nós, como num filme, cenas de um lugar fantástico, onde o povo é bom e a felicidade existe” (MACHADO, 2003, p. 5). Pontua a narrativa uma série de comentários éticos, em contraponto aos costumes então correntes. Logo de início erige como pano de fundo a virtude do modo de vida simples e despojado. É contra estes valores de matiz ascético que o autor aborda os terríveis problemas que corrompem o tecido social da época. 
  O personagem Rafael Hitlodeu encarna a simplicidade. Tomado inicialmente por um capitão do mar, o casaco negligente às costas, manifesta total despreocupação com o esmero na aparência. O narrador sintetiza sua impressão sobre o interlocutor, no qual ele e o leitor encontrarão um mundo de conhecimentos e sabedoria: “Percebo, Rafael, que você não é ávido de riqueza nem de poder. Pessoas assim me inspiram mais respeito e admiração que os grandes do mundo”.
A Utopia concentra críticas à transformação do campo inglês e à miséria que atormenta os camponeses, apontando os cercamentos (enclosures) – e aqueles que os executam - como a causa suprema de todos os males da sociedade. Trata-se de um posicionamento claro e indiscutível do autor face à profunda contradição que se expressa à época entre o que é comunal (commons), de um lado, e sua apropriação privada, de outro. E que se tornou a tal ponto emblemática que muitos estudiosos e ativistas de hoje veem nesse processo bem mais que um episódio histórico em aceleração na Inglaterra do século XVI. Trata-se, para eles, de metáfora capaz de orientar a compreensão de conflitos de essência semelhante que se replicaram e continuam se replicando em outros tempos e contextos, na Europa e nas colônias, como na imposição das plantations, no desfavor à agricultura familiar, na grilagem das terras indígenas, na apropriação da biodiversidade (SHIVA, 1997). Fala-se mesmo de um segundo movimento de cercamento a propósito dos genomas:
O primeiro movimento de enclosure envolveu a conversão das terras aráveis comunais em propriedade privada. O segundo movimento de enclosure envolve (...) a introdução de direitos de propriedade sobre assuntos – tais como compilações de dados sem qualquer originalidade, ideias sobre como fazer negócios, ou sequências de genomas – dos quais antes se dizia que estavam fora do sistema de propriedade, sem risco de se tornarem commodities, [por serem] ‘essencialmente comunais’, ou parte da herança comum da humanidade (BOYLE, 2003).

É evidente que os impactos dessas transformações não se verificaram apenas no âmbito das relações sociais. A contrapartida ambiental deve ter sido igualmente profunda. Essa relação íntima encontra exemplo na disseminação mais aguda da Peste Negra no século XIV entre as camadas sociais mais pobres (DOBB, 1987). No entanto, os dois lados da questão socioambiental não são facilmente apreendidos na historiografia corrente e a releitura das fontes pode ser um bom ponto de partida para se compor uma história ambiental do campo inglês.
No momento, para se ter algum vislumbre das mudanças ecológicas ao longo da história inglesa é preciso recorrer aos estudos econômicos, à Geografia e ao estudo das paisagens. Está longe ainda a possibilidade de uma análise que consiga levar minimamente em conta a noção maior de ecossistema, entendido como a mais ampla generalização feita na ciência, compreendendo tanto elementos orgânicos como inorgânicos da natureza reunidos num único local, todos em relação ativa e recíproca (WORSTER, 1991). Para tanto, é indispensável um diálogo crescente da História com as demais ciências de modo a incluir a formação geológica, a fauna, a flora, o clima, as doenças, os tratamentos, as tecnologias, entre tantos outros campos de saber, para se descobrir a interação do homem - enquanto coletividade, é preciso frisar - com esses elementos. Há muito a aprender sobre os modos pelos quais o conflito de interesses e o poder de acesso aos recursos naturais, bem como as práticas do dia a dia, moldaram as relações ambientais e sociais no tempo e no espaço (MOSLEY, 2006).
Por conta do impacto dos sistemas produtivos na natureza, alguns geógrafos aproximam as noções de paisagem e de meio ambiente, apesar da diferença teórica que as separam: o meio ambiente consistindo no conjunto dos elementos externos que envolvem a sociedade e com ela interagem; a paisagem sendo, ao contrário, uma produção interna, cultural, a interface sociedade-natureza (DIAS; SANTOS, 2007).
Tal raciocínio remete a outra questão ainda mais fundamental, assim equacionada pelo Professor Arthur Soffiati (2008): são fundamentalmente duas as concepções de natureza - a naturalista e a artificialista. A concepção naturalista entende a natureza como realmente existente, independente do homem; a concepção artificialista incorpora a natureza a uma cosmovisão artificial, criada pelo homem. Os que reconhecem a natureza como uma entidade real podem, por sua vez, ser classificados em dois tipos: os naturalistas organicistas (natureza concebida de forma complexa) e os naturalistas mecanicistas (natureza vista de forma reducionista, determinista e simplista, na tradição intelectual do cartesianismo e do positivismo). Soffiati atribui essas distinções ao filósofo francês contemporâneo Clément Rosset e se posiciona pelo naturalismo organicista, no que o segue este estudo.
Prosseguindo no esforço de pesquisar na obra Utopia elementos que permitam uma análise do impacto socioambiental do movimento secular de cercamento dos campos ingleses, é preciso alertar para o fato de que, ao contrário de uma versão romântica propalada entre muitos ambientalistas, a tradição e os direitos comunais medievais não são sinônimos de natureza intacta, livre da ação humana. Essa discussão, tão atual, é tratada de forma geral e com grande clareza pelo Professor Antonio Carlos Diegues na obra O mito da natureza intocada. Com ela se aprende também a atentar para as areias movediças da história ambiental, passível de apropriação por defensores do status quo ou por adeptos tardios de concepções deterministas da História.
Em qualquer época, a relação específica dos habitantes do campo com a natureza envolve transformação, através do seu trabalho e do seu habitat. Trata-se de um espaço a um só tempo natural e construído, objeto de múltiplas atividades e usos humanos. É o menos natural possível precisamente porque é rural (DIAS; SANTOS, 2007). Isto é, implica ação constante da coletividade humana sobre o meio. O fato de a ação ser mais sustentável ou mais predatória já é outro assunto.
  É preciso lembrar que a transformação da paisagem em maior escala fazia parte da grande convenção medieval de movimentação de terra, em função da construção de castelos, fossos e criatórios de peixes (CANTOR, 1982), ao que se pode juntar a drenagem progressiva de pântanos e baixios alagados pelo mar. No que toca ao campo, era ele marcado, em torno das aldeias, por muretas e sulcos que separavam as faixas agrícolas e as diferentes colheitas segundo uma rotação decidida anualmente pela comunidade aldeã. É evidente que esse quadro comporta uma extrema simplificação e somente a história local ou regional pode trazer subsídios a uma visão que se aproxime à sua complexidade.
   O efeito de cada componente do sistema “natural” (as variações climáticas, as diferentes formas de relevo, da rede hidrográfica, de tipos de solo, de formações vegetais) e dos diferentes sistemas produtivos é diferenciado, resultando na complexidade e heterogeneidade ambiental [e], ao mesmo tempo, nas especificidades desse sistema rural. Essa característica e a capacidade de diversificação das diferentes ruralidades colocam o rural no cerne da discussão ambiental (DIAS; SANTOS, 2007, grifo nosso).
Impõe-se a análise do espaço, não como cenário, pano de fundo ou landscape, mas como parte integrante da História em sua interação dinâmica com a sociedade. Milton Santos (apud SUERTEGARAY, 2001) se refere ao espaço geográfico como acumulação desigual de tempos, o espaço concebido como heranças. Espaço-tempo sendo categorias indissociáveis, a paisagem exprime essas heranças num dado momento. Suas formas representam as sucessivas relações localizadas entre a sociedade e a natureza. Num mesmo espaço coabitam tempos diferentes, inserções diferentes do lugar no sistema, diferentes ritmos, coexistências, materializações, tecnologias.
Essas heranças se expressam também nas representações que as coletividades rurais constroem a respeito do mundo: uma linguagem própria, essencial ao aprendizado e transmissão das técnicas tradicionais bem como à constituição da identidade do grupo. Resgata-se aí o valor dos saberes tradicionais, de construção secular e até milenar, em oposição ao pretenso monopólio do conhecimento pela ciência clássica.
  O simbolismo e as representações que os povos primitivos ou pré-industriais fazem da natureza constituem, segundo Lévi-Strauss (1989), uma verdadeira ciência do concreto, um verdadeiro tesouro de conhecimentos da botânica, da ideologia, da farmacologia (DIEGUES, 2001, p. 65).
  Nesse sentido, há quem defenda o abandono da teimosa dicotomia cultura versus natureza, substituindo-a por um entrelaçamento das questões ambientais, socioeconômicas, políticas e perceptivas, mas evitando a todo custo tratar cada cultura ou comunidade como homogênea em suas ações. Significa que, em qualquer escala de análise, do micro ao macro, não se pode deixar de lado a desigualdade na distribuição de poder (e de responsabilidade moral) dentro da sociedade. Há perguntas importantes do ponto de vista socioambiental que devem ser feitas. A interação tradicional era realmente mais sustentável? Como se organizava o controle e o acesso à natureza e seus recursos? Quem ganhou e quem perdeu com a transformação dessas relações entre as pessoas e o lugar? Como as divisões e os conflitos sociais afetaram a convivência com o ambiente e as atitudes das pessoas para com a natureza? Por que uma preocupação ambiental específica emerge num determinado momento? (MOSLEY, 2006).
  O que se passa na vida rural inglesa à época de Thomas More pode ser visto como uma aceleração no movimento dialético de tempos desiguais, uma luta transformativa de sistemas tradicionais em outros menos propícios às coletividades camponesas agrícolas, mas que também não se processa de forma homogênea, cada localidade guardando sua história pecul

UNIVERSITY OF NOTTINGHAM. Manuscripts and Special Collections.

. Apesar do ataque multissecular ao sistema de campo aberto (durou do século XII ao XIX), existem remanescentes dessa tradição. Um exemplo é a vila de Laxton, no condado de Nottingham, relíquia turística sem dúvida, mas mesmo assim testemunho de um passado de luta e resistência contra a maré avassaladora dos cercamentos. A foto abaixo mostra a paisagem de Laxton ainda marcada pelas tradicionais faixas agrícolas.

Na Utopia de Thomas More, discerne-se essa relação íntima entre natureza e sociedade: uma espelha a outra. Uma visão de terra ressequida e inóspita é oferecida de saída na descrição que Rafael faz de vastos desertos abaixo do equador, castigados pelo calor perpétuo do sol, o solo estorricado, uma tristeza perpassando todas as coisas. Habitados por serpentes e bestas ferozes, poucos homens lá existem cuja crueldade em nada deve à desses animais. Mais além, no entanto, surge aos poucos um novo cenário, tudo fica mais suave, o clima menos tórrido, o solo mais verdejante, as próprias feras menos selvagens. Percebe-se certa interligação de todos esses fatores: animais, homens, solo, vegetação e clima. Alterações climáticas. Nesse aspecto, as temperaturas na Europa ocidental parecem ter sido particularmente baixas à época do autor (circa 1500), como mostra o gráfico abaixo). 

ENVIRONMENTAL HISTORY RESOURCES. The Little Ice Age, ca. 1300 – 1870.

Entre o século XIV e o início do XVIII, a Europa conheceu a chamada Pequena Idade do Gelo, caracterizada por invernos longos e rigorosos. Todd Richardson (2009) levanta a possibilidade de uma importante correlação entre a peste, o clima e a lã, descobrindo na importação crescente de tapetes orientais dos tempos medievais a origem da contaminação pelo ar de germens aerossolizados a partir de tecidos de animais mortos.  Afirma que a disseminação das doenças não dependeria de grandes aglomerações humanas se as condições fossem favoráveis à transmissão: o sputum (muco expectorado) pulverizado e congelado, juntamente com gotículas expelidas pela tosse, pode conservar os bacilos infecciosos e virulentos por longos períodos de tempo. E essas eram exatamente as condições da Europa de então: baixa temperatura combinada com alta umidade relativa.
Levar em conta os aspectos ambientais da época, no caso o clima, pode ajudar à construção de um quadro explicativo mais consistente de outro aspecto marcante na chamada Baixa Idade Média: o desenvolvimento espetacular do comércio da lã e sua profunda influência na evolução da nação inglesa. Pois não parece suficiente aceitar a preeminência de um tipo de comércio, no caso a lã, como se fora algo dotado de um desenvolvimento orgânico, não contextualizado, com início/nascimento, meio/maturação e fim/morte. A existência de um produto no mercado não garante por si só a sua expansão: é preciso entender as condições da demanda responsáveis por essa centralidade. A historiadora econômica Eileen Power (1941) já alertava contra uma visão de crescimento linear dos processos econômicos ou sociais, simploriamente entendido como resultante de um movimento cronológico progressivo.
A grande questão é que foram os têxteis, notadamente a lã, a base do desenvolvimento de muitas cidades medievais na Itália, nos Países Baixos e, decisivamente, no reino da Inglaterra. Esta se destacou de início como importante fornecedora de uma matéria prima de qualidade reputada, passando com o tempo a incorporar a produção dos tecidos. Para isso contribuiu o fato da lã constituir, desde o século XIII, a principal fonte de arrecadação régia e representar a metade da riqueza da nação. Thomas More vê na busca delirante pela lã a agência desencadeadora de todos os males. Uma ação que não surge de cada ser humano, mas de um grupo privilegiado, responsável por um meio social não natural, hostil, destruidor do próximo, este representado pelo camponês, extorquido além da conta para o que o autor considera mera satisfação de caprichos, frivolidades e vaidades de uma pequena parcela da sociedade.
O autor da Utopia. Mas quem foi Thomas More? Suas biografias têm como principal fonte o relato redigido pelo genro e admirador, William Roper. Nascido em Londres, em 1478, filho de um juiz sagrado cavaleiro de nome Sir John More, muito jovem serviu na casa do cardeal John Morton, então arcebispo de Cantuária e chanceler do reino. Era comum às famílias ricas e influentes colocarem a prole a serviço de patronos ilustres como estratégia de manutenção ou mesmo promoção de status no núcleo de poder de uma sociedade montada em privilégios cada vez mais dependentes da monarquia e do clientelismo junto à aristocracia. More desde cedo despertou a admiração do cardeal por sua precoce inteligência e habilidade com as palavras, o que lhe valeu ingressar aos 19 anos de idade em Oxford, onde aprendeu grego, antes de ir para Londres estudar Direito (1499).
More enaltecia o rigor do espírito sobre a carne. Usava contra a pele uma camisa tecida com pelo animal eriçado, de contato desconfortável e irritante, tinha por travesseiro uma tora de madeira e toda sexta-feira se autoflagelava com açoites. Com tanto brilhantismo e rigor, aos 21 anos já era membro do Parlamento, liderando a Câmara dos Comuns contra a vontade régia de criação de subsídios para compor o dote da princesa Margareth. Até a morte de Henrique VII (1509), More suportou o desprazer do rei e pensou em emigrar para os Países Baixos onde tinha amigos, entre os quais Erasmo de Roterdam.
Os primeiros anos do reinado de Henrique VIII (1509-1547) viram More atuando na magistratura, onde ganhou firme reputação por se recusar a advogar causas injustas e a cobrar honorários de pobres, viúvas e órfãos, para quem exercia uma espécie de justiça gratuita. Embora sua fé estivesse profundamente radicada na religião católica romana, tamanho ascetismo de caráter aproxima More do pensamento puritano, contrário ao consumo supérfluo e à alimentação das vaidades mundanas. Sua obra não poupa críticas aos padres nem às ordens religiosas adeptas da indolência e da ostentação.
More serviu à política de Henrique VIII, sendo alçado ao cargo de chanceler do reino (1529-1532), mas não conseguiu desenredar-se da questão do divórcio real de Catarina de Aragão e tombou vítima do cadafalso em 1535. Note-se que a atenção de Henrique VIII voltou-se inicialmente para More a pedido da liga dos Mercadores Ingleses (ROPER, 1998). Por consentimento régio, More representou os interesses locais contra os Mercadores da Stilliard, nome derivado de Steelyard, localidade na margem norte do rio Tâmisa acima da Ponte de Londres. Era lá onde se estabeleciam os mercadores da Liga Hanseática, secularmente privilegiados junto à coroa inglesa por seu poderio marítimo e comercial, financiadores dos reis e odiados pela oligarquia londrina.
Maurice Dobb (1987) detalha o modo como funcionavam as transações com mercadores estrangeiros na época. Regulamentações específicas protegiam os mercadores locais, obrigando os estrangeiros a utilizarem-nos como intermediários no comércio com os habitantes. Constituía a maior parte dessas importações ou matéria-prima para algum artesanato ou artigos de luxo destinados aos burgueses prósperos e à pequena nobreza dos arredores. Podiam os estrangeiros também comprar matérias-primas locais, como lã ou couro. Mas toda e qualquer transação tinha que ser feita por intermédio das corporações locais, segundo a natureza dos produtos. Obrigava-se também ao mercador estrangeiro hospedar-se com algum cidadão residente na cidade, que se tornava assim legalmente responsável por qualquer transação ilícita ou cabala que se realizasse em sua casa. Somente por ocasião das feiras é que se permitia ao estrangeiro armar tenda e vender a todos. A prerrogativa da Stilliard, no entanto, fugia a esses preceitos e era por isso altamente impopular. A rivalidade entre a Hansa e as ligas de mercadores locais em toda a Europa levava a guerras que podiam durar anos e envolvia apresamento de navios com as cargas.
O importante é observar que Thomas More viveu numa época marcada não apenas por visíveis transformações no campo, mas também pela consolidação e fortalecimento de uma plutocracia ou patriciado urbano, fruto da transformação dos vendedores ambulantes dos séculos anteriores em novos-ricos, marca distintiva das mudanças econômicas a partir do século XIV. Utilizando-se um conceito gramsciano, pode-se então classificar Thomas More como um intelectual orgânico dessa classe comercial londrina? Ou, antes, um representante da Igreja? Apesar de canonizado no século XX e venerado como padroeiro dos diplomatas e das missões difíceis, a tentativa de enquadrá-lo em uma dessas classificações não faz jus à complexidade de seu pensamento. Pode-se aplicar talvez ao autor inglês a interpretação dada pelo próprio Gramsci à contribuição intelectual de Maquiavel:
Não se deve excluir o fato de que, onde a tradição deixou um largo estrato de intelectuais e um vivo ou prevalecente interesse por certas atividades, desenvolvam-se ‘gênios’ que não correspondem à época em que vivem concretamente, mas àquelas nas quais vivem ‘ideal’ ou culturalmente. Maquiavel [e por que não Thomas More?] poderia ser um deles. Ademais, esquece-se que toda época ou ambiente é contraditório e que alguém expressa e corresponde à própria época ou ambiente, não somente colaborando com as formas da vida oficial, como também combatendo-as implacavelmente (GRAMSCI, 1968, p. 64).
Talvez seja essa a forma mais adequada para se compreender a genialidade do autor da Utopia: colaborando por profissão com a vida oficial, mas atacando-a também em todos os aspectos contrários a sua concepção de uma sociedade justa e benfazeja a todos.
Tradições rurais e direitos comunais. De certa forma o que está em jogo na Utopia é a defesa dos direitos comunais, ligados ao sistema de campo aberto. Também chamado de ‘combinado’, este sistema foi uma influência dominante na agricultura inglesa até fins do século XVIII. O território em torno da aldeia, vilarejo ou cidadezinha compunha-se basicamente de quatro parcelas: terra arável, prado, pasto e campo baldio. A terra arável era dividida em dois ou três campos, subdivididos por sua vez em faixas separadas uma da outra por estreitas tiras de terra deixadas incultas. Aos aldeões se alocavam as áreas de cultivo por sorteio de tal forma que o mesmo agricultor tivesse por incumbência diversas faixas desconectadas em cada campo. Tal cuidado era importante, pois impedia que a melhor terra ficasse a cargo de um mesmo homem. Entre essas faixas estavam misturadas as que pertenciam ao senhor, chamadas desmene (pronuncia-se ‘di-mein’), geralmente a terça parte do todo.
Os campos cultivados recebiam então uma cerca de proteção desde a semeadura até a colheita. Ao fim do ciclo, retiravam-se as cercas e os animais retornavam para se alimentarem das hastes, raízes e sobras dos cereais colhidos. Aliás, a perda da liberdade do gado de transitar pelas terras é uma das pegadas ecológicas do sistema capitalista, ligadas à mudança para o regime de propriedade privada. Um exemplo é a revogação, em fins do século XIX, da legislação de origem colonial na América do Norte que obrigava os agricultores a manterem às próprias custas a cerca protetora das plantações e assegurava os direitos do gado e rebanhos de vagarem pela terra à vontade (STEINBERG, 2002).
No sistema tradicional, as colheitas eram rotativas para cada campo: num ano se plantava trigo, no outro, aveia e cevada, e, no terceiro ano, a terra era deixada em pousio para recuperar seus nutrientes. Além dos cereais, eram cultivados alguns tipos de feijões, ervilhas, legumes e verduras. Esse procedimento era seguido religiosamente de modo que todo ano um campo ficava sem cultivo e sem cercado. A livre passagem do gado ou do rebanho de carneiros assegurava também a regeneração pelo esterco.
As pastagens eram abertas a todos, mas havia restrições à quantidade de animais por lavrador. Nada, porém, impedia a utilização dos campos baldios situados além dos limites do território administrado pela aldeia. O prado era igualmente dividido em faixas. Nele cada lavrador recolhia o feno necessário. Na falta de gramíneas e raízes, o feno era muito valioso: com ele se alimentava o gado durante o inverno, que sofria bastante na primavera quando o estoque já havia terminado e novas fontes de alimento ainda estavam por nascer. Os bois eram utilizados em grupos de oito para arar e semear o solo. Havia também rebanhos de carneiros, de onde se retirava a lã para consumo local. Embora nem todos os camponeses tivessem bois ou ovelhas, era lugar comum a criação de porcos e aves.
Uma importante fonte de informações sobre as atividades rurais encontra-se no tratado escrito no século XIII por Walter de Henley sobre como bem conduzir o trabalho agrícola. Nele observa-se grande preocupação com a boa utilização dos recursos naturais. Aconselha as melhores ocasiões de semeadura, o empilhamento do estrume e sua mistura com terra, o cercamento cuidadoso dos pântanos para não impedir a livre circulação da água, a necessidade de iniciativa do camponês em vez de deixar tudo por conta do clima e das estações (SNELL, s/d). Ou, como se diria mais modernamente, por conta exclusiva dos serviços ecológicos da natureza.
Cercamentos e impactos socioambientais. A época de Thomas More foi de exacerbação dos conflitos agrários por conta da produção da lã voltada para o mercado. Mas a fase imediatamente posterior à Peste Negra (1348-1350) fora marcada pela redução da pressão demográfica e melhoria no padrão de vida, resultante, em grande parte, da rarefação da mão de obra. Os trabalhadores passaram a ser disputados e ganharam liberdade de locomoção. O status legal dos camponeses também mudou, com a dissolução dos laços de servidão e sua transformação em trabalhadores livres.  A redução da mão de obra contribuiu para a introdução acelerada do sistema de arrendamento rural. As grandes propriedades foram divididas em parcelas e alugadas a quem pudesse explorá-las. Os contratos de serviços tornaram-se mais curtos, com duração de algumas semanas, em substituição aos anuais, menos flexíveis.
O estudo de Krzysztof Boroda (2008) sobre a Peste Negra e as mudanças na sociedade e economia medieval européia nos séculos XIV e XV fornece dados interessantes a uma abordagem ambiental. Mostra, por exemplo, uma diminuição drástica no número de propriedades rurais. Num intervalo de 30 anos (1347-1377), a quantidade de propriedades camponesas cai em todo o reino pela metade: nada menos que 1.400 aldeias desaparecem completamente. A crescente importância da criação animal acarreta uma expansão de estábulos bovinos e cercados ovinos, com o aproveitamento das casas abandonadas.  Boa parte das moradias camponesas conhece melhorias. As transformações no campo, ao mesmo tempo em que desalojam coletividades tradicionais mais indefesas, propiciam por outro lado a emergência de uma classe camponesa abastada, em condições de habitar casas mais amplas, dotadas de cômodos separados da cozinha em vez do tradicional espaço único. Ocorrem mudanças em outras esferas igualmente. A expectativa de vida média havia declinado com a peste. No entanto, para aqueles maiores de 20 anos de idade, as chances de sobrevivência aumentam em virtude de uma dieta mais balanceada com o aumento do consumo da proteína animal (bacon salgado no século XIV e carne de boi no século XV), de melhores condições habitacionais e da própria natureza seletiva da epidemia (o aumento da resistência humana confinando-a à população infantil).
A idade para contrair matrimônio volta a baixar. Se antes da peste as pessoas jovens postergavam as núpcias para quando alcançassem um mínimo de independência financeira, o que era difícil dado o excesso de oferta de mão de obra, no século XV o reverso dessa situação cria condições para que a idade média dos casamentos caia de 28 para 23 anos para os homens e de 23 para 20 entre as mulheres. Mesmo os trabalhadores sem qualificação aproveitam o aumento real nos salários para gastarem mais em roupas, o que estimula a produção de tecidos de lã de qualidade mais popular. Foi grande a transformação gerada pela inserção de novas massas consumidoras num mercado até então dominado por uma produção têxtil de alta qualidade (BORODA, 2008).
Portanto, nos 150 anos que se seguiram à peste negra, profundas mudanças ocorreram no campo, desde o tamanho e a quantidade dos lotes rurais até a estrutura das colheitas. O cultivo de grãos perdeu destaque com a diminuição do número de bocas, enquanto a estabilidade dos preços da criação animal atraiu o interesse dos senhores. Constata-se também a mudança para o cultivo de plantas utilizadas no processo de tintura de têxteis, o que representa um afastamento da agricultura de subsistência, típica das chamadas sociedades pré-capitalistas e calcada no sistema de campos abertos. Verifica-se um aumento de prosperidade média, de que dá exemplo a localidade de Stoughton, sul da Inglaterra. Em 130 anos de transformação, passa de uma aldeia formada por propriedades abaixo do nível de autossuficiência que raramente ultrapassavam 11 acres para uma cuja maioria fica acima de 30 acres.  Mais da metade dos habitantes torna-se próspera, deixando para trás uma situação típica da primeira metade do século XIV em que apenas 3% da população alcançavam uma renda anual de duas libras, o restante situando-se bem abaixo desse valor (BORODA, 2008).
Essa visão otimista, de recuperação econômica, de aumento de salários e rendas, não faz parte, porém, da obra de Thomas More. Suas referências aos tempos sombrios em que vive indicam séria mudança em curso no início do século XVI. Certamente o ciclo virtuoso descrito acima estava então sendo eclipsado pelo seu oposto: a antítese à rarefação da força de trabalho disponível sendo a concentração fundiária, a criação ovina e o cultivo de espécies mais rentáveis.
À página 58 de seu artigo, Boroda explica ter sido a Inglaterra, juntamente com os Países Baixos e a Itália do norte, um dos novos centros de atividade econômica com foco na produção em grandes quantidades de tecidos relativamente baratos, em competição com os tradicionais centros de produtos de luxo, como a seda, o veludo e o brocado, entre outros. Para atender à nova demanda, começa a disseminação do putting-out system ou sistema domiciliar de produção de lã, com os mercadores movendo-se pelo campo em busca de mão de obra mais barata e livre das exigências das corporações urbanas. A introdução de novas tecnologias também surge como resposta à escassez do trabalho e à sua valorização, processo que irá se intensificando ao longo dos séculos até a eclosão da Revolução Industrial e do sistema de fábricas.  Para diminuir a dependência do trabalho humano, implantam-se os moinhos de água e vento na produção de metais e têxteis, o carrinho de mão na construção civil, a roca com roda na produção do fio de lã, mesmo que a expensas da qualidade do produto (rigorosamente regulamentada pelas corporações de ofício).
Vale lembrar que a utilização das novas tecnologias implicava o abandono de práticas que até então garantiam ao camponês liberdade de locomoção, de uso do tempo e de controle das próprias atividades, como se vê abaixo em detalhe de tapeçaria com mulher descalça carregando o tradicional fuso de fiar lã embaixo do braço e preso à cintura, do qual não se separava jamais, ao mesmo tempo em que dá de comer às aves.

MEDIEVAL ILLUSTRATIONS OF SPINNING. Luttrell Psalter, British Library, London 

Apesar da adaptação aos novos tempos privilegiar setores agrícolas específicos, propiciando o fortalecimento de uma camada próspera no meio rural, a maioria dos camponeses, após usufruir de breve conjuntura favorável, viu-se novamente presa a condições de opressão econômica e social à medida que se fechavam as oportunidades de trabalho com a expansão das pastagens e retração das terras aráveis.
Boroda chama atenção também para a dificuldade de economia por parte dos camponeses. A alta de salários verificada na segunda metade do século XIV não levou a uma melhoria de seu status social. Embora os ganhos tenham duplicado, o padrão de vida melhorado e o tempo dedicado ao trabalho diminuído no período 1340-1500, era-lhes estranho o hábito de poupança.
 
O fato é que, na obra de Thomas More, a descrição da sociedade é pessimista, gravada pelo mau uso da riqueza comunitária, pela injustiça (há duas leis, diz, uma para o pobre, outra para o rico, que as faz para proteger o seu poder) e pela indiferença à sorte do povo. É o momento em que o sistema de campo aberto, com a rotação de colheitas e o uso comunitário de pastagens, pântanos e bosques, vai cedendo aos cercamentos, movimento que perde a timidez anterior e ganha força visível sob Henrique VIII. Levanta-se aqui a questão da posse e direito de utilização da terra. O território das sociedades tradicionais é descontínuo, marcado por vazios aparentes (DIEGUES, 2001, p. 84). São esses vazios aparentes do campo inglês que ocuparão os rebanhos, constituindo-se assim um novo regime, o da propriedade privada da terra.
A ação desencadeada pelos senhores e agricultores mais abastados em busca de maiores rendimentos provoca não apenas revoltas camponesas, mas também reações contrárias em pessoas de influência, entre os quais Thomas More, e no próprio governo. Uma série de estatutos data do início do reinado de Henrique VII para controlar a questão e diminuir seus efeitos adversos.  O de número 4 (1488) refere-se ao fato de que alguns lugarejos onde 200 pessoas viviam de seus labores legítimos são agora ocupados por apenas dois ou três pastores, enquanto o resto da comunidade cai na inatividade. Decretam-se multas, obriga-se retorno à situação anterior. Em 1534, para fazer frente a um estado de coisas cada vez mais alarmante, tenta-se a aplicação de uma nova lei, que lamenta terem alguns 24.000 carneiros, outros 20.000, 10.000, 6.000, 4.000 e assim por diante. E que ainda assim o preço da lã praticamente dobrou, com os rebanhos nas mãos de um pequeno punhado de gente. A lei impõe então multa a todos com posse acima de 2.000 carneiros. Sucede-se uma série de tentativas semelhantes até o 39° Ato de Elizabeth I (1597) para obrigar à reconversão das pastagens em terras aráveis e proibir a transformação dessas em pastagens. Nenhuma dessas leis alcançou qualquer resultado prático (SNELL, s/d.). 
Entretanto, alerta More através de Rafael, a constatação dessa realidade não é universalmente reconhecida. Dá margem a interpretações igualmente deformadas, inculpando-se as vítimas em vez dos algozes. Logo se firma uma ideologia que associa o camponês à preguiça: é ela que o leva a mendigar e roubar. E justifica o cercamento por forçá-lo a desenvolver um caráter mais industrioso, pois o compele a trabalhar para os outros em vez de se contentar com a simples subsistência (CONWAY, 1971).
A defesa feroz da propriedade é encarnada na Utopia por um personagem leigo, destacado membro da comunidade, “versado em leis e muito orgulhoso do direito inglês” (MORE, 2003, p. 15).  Não medindo elogios ao rigor das penas contra os ladrões, que se procriam como formigas, conta com indisfarçável prazer como eram executados às vintenas numa mesma forca. Rafael demole seus argumentos, afirmando que, se o remédio não for encontrado, de pouco adianta a crueldade das medidas repressivas. Pois é a própria corrupção dos costumes que predispõe as pessoas ao crime, gerando um ciclo perverso de produção-execução de ladrões, fabricando-os primeiro para depois enforcá-los.
O tema remete à bárbara legislação da época cujo rigor só aumentará no decorrer do século XVI, culminando em 1547 na marcação de ferro em brasa e na escravização como punição para a vagabundagem persistente. Da época de Thomas More, mais precisamente 1494, data uma lei que trata dos vagabundos e mendigos, etapa no processo de enrijecimento das penas contra os marginalizados: vagabundos, ociosos e pessoas suspeitas serão colocados em estoques [estrutura de madeira em local público na qual se prendiam os pés, as mãos e por vezes a cabeça do supliciado] por três dias e três noites a pão e água, após o que serão postos para fora da cidade. Os considerados aptos ao trabalho podiam ainda sofrer a pena do açoite, ter as orelhas cortadas ou mesmo ir para a forca (SUFFOLK COUNTY COUNCIL).
O texto de More posiciona-se contrário à tendência legislativa da época, reputando as penas como inúteis, cruéis e desproporcionais ao delito: nenhum castigo evitará o roubo por parte daqueles sem nenhum outro meio para garantir a existência. Discorda da opinião comum, que dá fundamento às leis punitivas, de ser a preguiça a causa da apropriação indébita. E desmente o argumento de que a sociedade já faz a sua parte, oferecendo ao povo muitas formas de sobrevivência com base no trabalho honesto tanto no campo como na cidade.
Males sociais, doenças e epidemias. Rafael chama aos nobres de zangões ociosos e de praga social a seus lacaios esnobes e petulantes. Ressalte-se aqui o paradigma médico prevalente na época, expressivo do bom conceito adquirido pelos doutores no decorrer da luta contra a Peste Negra no século anterior (COHN JR, 2002). A preocupação de fundo é com a miséria da população e o tratamento cruel a que é submetida. A causa é o parasitismo dos nobres, “que se nutrem do suor e do trabalho dos outros” (MORE, 2003, p. 16). Mas a extorsão não se detém por aí, pois viver do trabalho alheio não basta. Os nobres, diz o autor, precisam ainda aumentar seus rendimentos. Para tanto tosquiam os arrendatários de suas terras como se carneiros fossem, não de forma adequada, mas até a carne viva, ferindo-lhe o corpo sem piedade nem cuidado com sua preservação.
Esse sacrifício dos setores produtivos é feito para se extrair não o essencial à vida, mas o esbanjamento. Os nobres, acrescenta o texto, não sabem viver com economia, compram prodigamente, são extremamente perdulários, gastam tudo até caírem na mendicância, arrastando consigo um cortejo de preguiçosos, inoperantes, elementos totalmente ignorantes de qualquer arte com a qual possam ganhar o próprio sustento.
O luxo acelera o avanço funesto da pobreza e a miséria. Há um excesso de vaidade, que demanda altos custos na indumentária e na dieta, hábitos que contaminam também os comerciantes, os próprios agricultores (os mais prósperos) e todo tipo de gente. Estabelecimentos infames em grande número completam para o autor a lista nociva, entre eles tabernas e cervejarias, onde se joga ao azar e a dinheiro, propiciando toda sorte de desonestidades e impelindo ao roubo.
A aversão aos lacaios merece no texto amplo espaço. Esse grupo de serviçais dos nobres é apresentado como a mercê da sorte: se seu senhor morre ou se eles próprios adoecem, são jogados à rua, pois aos nobres é mais fácil sustentar gente ociosa do que cuidar dos doentes. E, sinal dos tempos, o herdeiro no mais das vezes não tem condições de sustentar uma clientela tão grande quanto a de seu predecessor. Quando a barriga dos lacaios despejados começa a roncar de fome, não têm alternativa senão utilizarem-se de expedientes criminosos. Em suas andanças pelo mundo, enquanto homens indolentes e amantes dos prazeres, armados de espada e escudo, humilhando o próximo com olhares de sarcasmo e desdém, desperdiçam saúde e roupas; na hora da necessidade, acabados, maltrapilhos, não encontram mais amparo nem entre os homens de qualidade, por sua terrível aparência, nem entre os pobres, que os conhecem como desabituados ao trabalho da enxada, sem falar no baixo pagamento e na dieta rústica que lhes seriam inaceitáveis. Constituem assim um grupo humano inútil, nocivo, pernicioso.
Nesse ponto, o leitor se depara com a distinção corrente entre o latrocínio do pobre e o praticado pelos lacaios dos nobres. Embora o texto os coloque no grupo de ladrões, os lacaios encontram defesa entre os grupos perfeitamente integrados à ordem vigente, que os retratam como detentores de um senso de honra mais nobre do que o encontrado em comerciantes e lavradores e por isso mais adequados ao serviço militar. Rafael, ao contrário, vê enorme semelhança entre ladrões e soldados, praga social que concorre em todas as nações.  Deplora a guerra, na qual pensam todo o tempo os monarcas em vez de cuidarem da felicidade dos povos. Contra ela evoca o exemplo dos povos antigos e as consequências da manutenção de imensos exércitos: devastação das suas terras, ruína de suas cidades, fim de seus impérios. E descreve a precariedade dos que dela retornam, mutilados e estropiados: não conseguem mais assumir seus antigos ofícios, são velhos demais para aprender novos, só lhes resta o crime.
Competição entre as espécies. A mazela social assim descrita não é peculiar a nenhuma nação; antes, encontra-se em toda a Europa. Mas na Inglaterra, afirma Rafael, existe outra causa do latrocínio generalizado, que lhe é específica: as ovelhas! Como se explica a transformação desses animais, por natureza tão dócil, em devoradores de homens? É que lá despovoam não somente os campos e as aldeias, mas até as cidades. Onde quer que se vislumbre a chance de se criar carneiros capazes de produzir uma lã mais fina e valiosa, juntam-se a nobreza, a gentry [nova nobreza] e até os homens da Igreja numa ação voraz de aumento das pastagens, pondo fim à agricultura, destruindo casas e aldeias, deixando de pé apenas as igrejas. Cercando as terras para os rebanhos, como se as florestas e parques, zelosamente guardados por severas determinações régias, já não engolissem suficientemente as terras aráveis, esses senhores transformam lugares antes populosos em zonas de solidão.
Os lavradores desaparecem como fulminados por praga, prossegue o personagem. Quer por algum ardil, quer pela força bruta, ao camponês só resta vender o pouco que têm e por qualquer ninharia ao guloso interessado. Esses pobres homens e mulheres, jovens ou velhos, casados ou solteiros, acompanhados de suas famílias, numerosas, pois a lida agrícola exige muitos braços, são obrigados a abandonar suas sedes, sem saberem para onde ir. Quando o dinheiro acaba, o que acontece bem rápido, só lhes resta roubar e acabar enforcados, ou mendigar e parar na prisão como vagabundos, quando na verdade prefeririam trabalhar se encontrassem emprego. E o motivo é que não pode existir ocupação agrícola, na qual nasceram e se criaram, se não existe mais terra para arar. Em vez dos muitos braços para render uma colheita, um único pastor agora dá conta de um rebanho.
Kerridge (1972) revela a existência na Inglaterra medieval de dois tipos básicos de carneiros: os chamados carneiros aráveis e os carneiros de pasto. Os primeiros eram inicialmente bastante comuns e sua função se subordinava às necessidades agrícolas, fertilizando o solo com esterco, contribuindo para a dieta com o leite e, mais raramente, a carne, e fornecendo lã para a confecção doméstica de têxteis rústicos. Já os carneiros de pasto eram os mais apropriados à extração da lã comercial (fios mais longos, finos e sedosos) e sua criação se fazia em grandes propriedades senhoriais ou monásticas (com destaque para os cistercienses), segundo uma organização agrária totalmente distinta do rural tipicamente medieval. Com o boom do comércio da lã, coincidente com as alterações ambientais de resfriamento do período, os carneiros de pasto ganham a preferência e deslocam os aráveis. O cercamento torna-se cada vez mais intenso e acarreta o abandono gradativo da agricultura, por sua vez já dificultada com o encurtamento e a instabilidade pluvial das estações de semeadura, crescimento e colheita (primavera, verão e outono).
Rafael estende seus comentários sobre o cercamento. Mostra como a expansão das pastagens à custa da agricultura leva ainda ao encarecimento dos cereais, elemento básico da dieta da época. O preço da lã também sobe e impossibilita os pobres de produzirem os próprios tecidos. Embora não constitua um monopólio, os rebanhos estão em mãos de um pequeno punhado de pessoas extremamente ricas, sem necessidade de vender imediatamente a produção. Podem manipular o mercado, segurando a venda para ocasiões em que o preço esteja em alta. Outros tipos de gado são ao mesmo tempo postos de lado, negligenciados, por falta de quem os cuide, consequência da demolição das aldeias e do descaso para com a força de trabalho agrícola. Embora o rico se dedique à criação exclusiva de ovelhas, não recusa, porém, a oportunidade de comprar gado magro e barato para vendê-lo caro após a engorda. As inconveniências de tal sistema, diz Rafael, ainda não eram bem avaliadas: a atração pelo gado, comprado barato e vendido caro, faria com que seu consumo se desse mais rapidamente que a capacidade de sua reprodução nos locais de origem; seu estoque deveria assim diminuir e condenar à escassez todo o país, antes tão feliz pela posse de todos esses recursos, e tudo em consequência do que chama de avareza de alguns poucos. Além disso, o aumento do preço dos grãos, pela redução das áreas agrícolas, trazia como inevitável a diminuição das famílias.
O texto faz alusão à doença enquanto acontecimento real ao mencionar a praga das ovelhas, vista como manifestação da justiça divina contra a ganância desmesurada, doença que contaminou os rebanhos fazendo-os apodrecer em grande número e que melhor seria se caísse na cabeça de seus mentores. Mas para Rafael existe remédio para todos esses males: ordenar aos despovoadores do solo que reconstruam as aldeias demolidas ou que aluguem a terra aos que desejem fazê-lo; refrear o crescimento do poder econômico dos ricos, tão maléfico quanto os monopólios; permitir menos oportunidades de ociosidade; deixar a agricultura levantar-se de novo; regulamentar a manufatura da lã para propiciar emprego aos indolentes ou lacaios inúteis que de outra forma acabarão por se tornar ladrões; por fim, restaurar a saúde do campo e da sociedade.

      Comentários finais. A Utopia de Thomas More surpreende pela rica análise dos temas tratados, alguns de interesse historiográfico bastante atual: os cercamentos, as punições cruéis, a guerra, a busca de poder e riqueza, o culto aristocrático à frivolidade, a extorsão do camponês, a subjugação da felicidade geral aos interesses de poucos.
A análise permitiu, dentro do possível, apontar alguns caminhos para o levantamento de questões socioambientais envolvidas no processo de cercamento do campo inglês, embora esteja longe de ter alcançado uma perspectiva que leve em conta as noções mais gerais de ecossistema. Mesmo assim, referência foi feita às florestas, aos campos, cultivados ou não, aos animais domésticos, à expectativa de vida humana, à dieta, à Peste Negra e às alterações climáticas conhecidas como Pequena Idade do Gelo.
Muito ainda há por se explorar em torno do tema do cercamento, tanto no processo histórico em si como na metáfora que representa para o entendimento de fenômenos passados e futuros, essenciais para a construção de novos caminhos para a humanidade e todo o planeta.

 

 

REFERÊNCIAS

BORODA, Krzysztof (Assist. Prof. Dr., University of Bialystok, The Institute of History). Plague and changes in medieval European society and economy in the 14th and 15th centuries. The Journal of Arts and Science, vol. 10 (2008), number 1, pages 49-58. Sakarya University. Disponível em: <www.fed.sakarya.edu.tr/arsiv/yayinlenmis_dergiler/2008.../2008_1_3.pdf>. Acesso em: 17 dez. 2009.

BOYLE, James. Enclosing the genome: what the squabbles over genetic patents could teach us. 2003. Disponível em: <www.law.duke.edu/boylesite/low/genome.pdf>. Acesso em: 23 dez. 2009.

CANTOR, Leonard (ed.). The English medieval landscape. London: Croom Helm, 1982.

COHN JR, Samuel K. The Black Death: end of a paradigm. The American Historical Review. Vol. 107, No. 3. 2002. Disponível em: <http://www.historycooperative.org/journals/ahr/107.3.html>. Acesso em: 25 nov. 2009.

CONWAY, Ronald. The fate of the common lands. Land & Liberty, November-December, 1971. Disponível em: <http://www.cooperativeindividualism.org/conway-ronald_fate-of-common-lands.html>. Acesso em: 13 dez. 2009.

DIAS, Janise; SANTOS, Leonardo. A paisagem e o geossistema como possibilidade de leitura da expressão do espaço socioambiental rural. Confins: Revista Franco-Brasileira de Geografia. 1/2007: Número 1. Disponível em: <http://confins.revues.org/index10.html>. Acesso em: 19 dez. 2009.
DIEGUES, Antonio Carlos (USP). O mito moderno da natureza intocada. 3 ed. São Paulo: HUCITEC, USP, 2001.
DOBB, Maurice (Universidade de Cambridge). A evolução do capitalismo. 7 ed. Trad. Manuel do Rêgo Braga. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.
ENVIRONMENTAL HISTORY RESOURCES. The Little Ice Age, Ca. 1300 – 1870. Disponível em: <http://www.eh-resources.org/timeline/timeline_lia.html>. Acesso em: 04 jan. 2010.
GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.
KERRIDGE, Eric (Reader in Economics University College of North Wales, Bangor). Wool growing and wool textiles in medieval and early modern times. In: JENKINS, J.Geraint (Ed.).The wool textile industry in Great Britain. London: Routledge, 1972.  Disponível em: <books.google.com.br/books?isbn=0710069790...>. Acesso em: 04 jan. 2010.
KEY DATES IN POOR LAW AND RELIEF: Great Britain 1300 – 1899. Education Resources. Disponível em: <http://www.thepotteries.org/dates/poor.htm>. Acesso em: 21 dez. 2009.
MACHADO, Nílson José. Por que ler Utopia, hoje? In: MORE, Thomas. Utopia. Trad. Adapt. Nílson José Machado. São Paulo: Escrituras, 2003.
MEDIEVAL ILLUSTRATIONS OF SPINNING. Luttrell Psalter, British Library, London. Disponível em: <www.goldenacorn.net/weavers/spinningpix.htm>. Acesso em: 06 jan. 2010.
 MORE, Thomas. Utopia. The Literature Network. Disponível em: <http://www.online-literature.com/more/utopia/2/>. Acesso em: 13 dez. 2009.
POWER, Eileen (Professor of Economic History in the University of London, 1889-1941). The wool trade in English Medieval History. The Ford Lectures. First published 1941. Disponível em: <http://socserv.mcmaster.ca/econ/ugcm/3ll3/power/WoolTrade.pdf>. Acesso em: 02 jan. 2010.
RICHARDSON, Todd. Plague, weather, and wool. Bloomington, IN: AuthorHouse, 2009.
ROPER, William. The life of Sir Thomas More. In: HALSALL, Paul (ed.). Internet Modern History Sourcebook. 1998. Disponível em: <http://www.fordham.edu/halsall/mod/16croper-more.html>. Acesso em: 20 dez. 2009.
SHIVA, Vandana. The Enclosure of the Commons. Third World Network. TWR 84 – August 1997. Disponível em: <http://www.twnside.org.sg/title/com-cn.htm>. Acesso em: 20 dez. 2009.
SNELL, Melissa. History of English Agriculture. Article from the 1991 Encyclopaedia. About.com: Medieval History. Disponível em: <http://historymedren.about.com/od/aentries/a/11_agriculture.htm>. Acesso em: 22 dez. 2009.
SOFFIATI, Arthur (UFF). Algumas palavras sobre uma teoria da Eco-História. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 18, p. 13-26, jul./dez. 2008. Rio de Janeiro: Editora UFPR.
STEINBERG, Ted. Down to Earth: Nature, Agency, and Power in History. The American Historical Review vol. 107, no. 3, June 2002. Forum Essay. Disponível em: <http://www.historycooperative.org/journals/ahr/107.3/ah0302000798.html>. Acesso em: 01 dez. 2009
SUERTEGARAY, Dirce Maria Antunes (UFRGS). Espaço geográfico uno e múltiplo. Scripta Nova: Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales. Universidad de Barcelona. N° 93, 15 de julio de 2001. Disponível em: < http://www.ub.es/geocrit/sn-93.htm>. Em: 19 dez. 2009.
SUFFOLK COUNTY COUNCIL. Old Poor Law Records. Disponível em: <www.suffolk.gov. uk/sro>. Acesso em: 21 dez. 2009.
UNIVERSITY OF NOTTIGHAM. Manuscripts and Special Collections. Learning Resources. Laxton: living in an open field village. The open field system and the manorial court. Photograph 1. Disponível em: <www.nottingham.ac.uk/.../introduction.aspx>. Acesso em: 5 jan. 2010.

WORSTER, Donald. Para fazer história ambiental. Trad. José Augusto Drummond. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 4, n. 8, 1991, p. 198-215. Disponível em: <http://www.cpdoc.fgv.br/revista

 

 

Voltar