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QUANDO AS OVELHAS DEVORAVAM OS HOMENS:
Utopia, cercamentos e história ambiental

Aleksandra Stambowisky de Carvalho

Graduanda do curso de Licenciatura em História da Universidade Estácio de Sá, campus Jacarepaguá


 

   Entre o século XIV e o início do XVIII, a Europa conheceu a chamada Pequena Idade do Gelo, caracterizada por invernos longos e rigorosos. Todd Richardson (2009) levanta a possibilidade de uma importante correlação entre a peste, o clima e a lã, descobrindo na importação crescente de tapetes orientais dos tempos medievais a origem da contaminação pelo ar de germens aerossolizados a partir de tecidos de animais mortos.  Afirma que a disseminação das doenças não dependeria de grandes aglomerações humanas se as condições fossem favoráveis à transmissão: o sputum (muco expectorado) pulverizado e congelado, juntamente com gotículas expelidas pela tosse, pode conservar os bacilos infecciosos e virulentos por longos períodos de tempo. E essas eram exatamente as condições da Europa de então: baixa temperatura combinada com alta umidade relativa.
   Levar em conta os aspectos ambientais da época, no caso o clima, pode ajudar à construção de um quadro explicativo mais consistente de outro aspecto marcante na chamada Baixa Idade Média: o desenvolvimento espetacular do comércio da lã e sua profunda influência na evolução da nação inglesa. Pois não parece suficiente aceitar a preeminência de um tipo de comércio, no caso a lã, como se fora algo dotado de um desenvolvimento orgânico, não contextualizado, com início/nascimento, meio/maturação e fim/morte. A existência de um produto no mercado não garante por si só a sua expansão: é preciso entender as condições da demanda responsáveis por essa centralidade. A historiadora econômica Eileen Power (1941) já alertava contra uma visão de crescimento linear dos processos econômicos ou sociais, simploriamente entendido como resultante de um movimento cronológico progressivo.
   A grande questão é que foram os têxteis, notadamente a lã, a base do desenvolvimento de muitas cidades medievais na Itália, nos Países Baixos e, decisivamente, no reino da Inglaterra. Esta se destacou de início como importante fornecedora de uma matéria prima de qualidade reputada, passando com o tempo a incorporar a produção dos tecidos. Para isso contribuiu o fato da lã constituir, desde o século XIII, a principal fonte de arrecadação régia e representar a metade da riqueza da nação. Thomas More vê na busca delirante pela lã a agência desencadeadora de todos os males. Uma ação que não surge de cada ser humano, mas de um grupo privilegiado, responsável por um meio social não natural, hostil, destruidor do próximo, este representado pelo camponês, extorquido além da conta para o que o autor considera mera satisfação de caprichos, frivolidades e vaidades de uma pequena parcela da sociedade.
   O autor da Utopia. Mas quem foi Thomas More? Suas biografias têm como principal fonte o relato redigido pelo genro e admirador, William Roper. Nascido em Londres, em 1478, filho de um juiz sagrado cavaleiro de nome Sir John More, muito jovem serviu na casa do cardeal John Morton, então arcebispo de Cantuária e chanceler do reino. Era comum às famílias ricas e influentes colocarem a prole a serviço de patronos ilustres como estratégia de manutenção ou mesmo promoção de status no núcleo de poder de uma sociedade montada em privilégios cada vez mais dependentes da monarquia e do clientelismo junto à aristocracia. More desde cedo despertou a admiração do cardeal por sua precoce inteligência e habilidade com as palavras, o que lhe valeu ingressar aos 19 anos de idade em Oxford, onde aprendeu grego, antes de ir para Londres estudar Direito (1499).
   More enaltecia o rigor do espírito sobre a carne. Usava contra a pele uma camisa tecida com pelo animal eriçado, de contato desconfortável e irritante, tinha por travesseiro uma tora de madeira e toda sexta-feira se autoflagelava com açoites. Com tanto brilhantismo e rigor, aos 21 anos já era membro do Parlamento, liderando a Câmara dos Comuns contra a vontade régia de criação de subsídios para compor o dote da princesa Margareth. Até a morte de Henrique VII (1509), More suportou o desprazer do rei e pensou em emigrar para os Países Baixos onde tinha amigos, entre os quais Erasmo de Roterdam.
   Os primeiros anos do reinado de Henrique VIII (1509-1547) viram More atuando na magistratura, onde ganhou firme reputação por se recusar a advogar causas injustas e a cobrar honorários de pobres, viúvas e órfãos, para quem exercia uma espécie de justiça gratuita. Embora sua fé estivesse profundamente radicada na religião católica romana, tamanho ascetismo de caráter aproxima More do pensamento puritano, contrário ao consumo supérfluo e à alimentação das vaidades mundanas. Sua obra não poupa críticas aos padres nem às ordens religiosas adeptas da indolência e da ostentação.
   More serviu à política de Henrique VIII, sendo alçado ao cargo de chanceler do reino (1529-1532), mas não conseguiu desenredar-se da questão do divórcio real de Catarina de Aragão e tombou vítima do cadafalso em 1535. Note-se que a atenção de Henrique VIII voltou-se inicialmente para More a pedido da liga dos Mercadores Ingleses (ROPER, 1998). Por consentimento régio, More representou os interesses locais contra os Mercadores da Stilliard, nome derivado de Steelyard, localidade na margem norte do rio Tâmisa acima da Ponte de Londres. Era lá onde se estabeleciam os mercadores da Liga Hanseática, secularmente privilegiados junto à coroa inglesa por seu poderio marítimo e comercial, financiadores dos reis e odiados pela oligarquia londrina.
   Maurice Dobb (1987) detalha o modo como funcionavam as transações com mercadores estrangeiros na época. Regulamentações específicas protegiam os mercadores locais, obrigando os estrangeiros a utilizarem-nos como intermediários no comércio com os habitantes. Constituía a maior parte dessas importações ou matéria-prima para algum artesanato ou artigos de luxo destinados aos burgueses prósperos e à pequena nobreza dos arredores. Podiam os estrangeiros também comprar matérias-primas locais, como lã ou couro. Mas toda e qualquer transação tinha que ser feita por intermédio das corporações locais, segundo a natureza dos produtos. Obrigava-se também ao mercador estrangeiro hospedar-se com algum cidadão residente na cidade, que se tornava assim legalmente responsável por qualquer transação ilícita ou cabala que se realizasse em sua casa. Somente por ocasião das feiras é que se permitia ao estrangeiro armar tenda e vender a todos. A prerrogativa da Stilliard, no entanto, fugia a esses preceitos e era por isso altamente impopular. A rivalidade entre a Hansa e as ligas de mercadores locais em toda a Europa levava a guerras que podiam durar anos e envolvia apresamento de navios com as cargas.
   O importante é observar que Thomas More viveu numa época marcada não apenas por visíveis transformações no campo, mas também pela consolidação e fortalecimento de uma plutocracia ou patriciado urbano, fruto da transformação dos vendedores ambulantes dos séculos anteriores em novos-ricos, marca distintiva das mudanças econômicas a partir do século XIV. Utilizando-se um conceito gramsciano, pode-se então classificar Thomas More como um intelectual orgânico dessa classe comercial londrina? Ou, antes, um representante da Igreja? Apesar de canonizado no século XX e venerado como padroeiro dos diplomatas e das missões difíceis, a tentativa de enquadrá-lo em uma dessas classificações não faz jus à complexidade de seu pensamento. Pode-se aplicar talvez ao autor inglês a interpretação dada pelo próprio Gramsci à contribuição intelectual de Maquiavel:
   Não se deve excluir o fato de que, onde a tradição deixou um largo estrato de intelectuais e um vivo ou prevalecente interesse por certas atividades, desenvolvam-se ‘gênios’ que não correspondem à época em que vivem concretamente, mas àquelas nas quais vivem ‘ideal’ ou culturalmente. Maquiavel [e por que não Thomas More?] poderia ser um deles. Ademais, esquece-se que toda época ou ambiente é contraditório e que alguém expressa e corresponde à própria época ou ambiente, não somente colaborando com as formas da vida oficial, como também combatendo-as implacavelmente (GRAMSCI, 1968, p. 64).
   Talvez seja essa a forma mais adequada para se compreender a genialidade do autor da Utopia: colaborando por profissão com a vida oficial, mas atacando-a também em todos os aspectos contrários a sua concepção de uma sociedade justa e benfazeja a todos.
   Tradições rurais e direitos comunais. De certa forma o que está em jogo na Utopia é a defesa dos direitos comunais, ligados ao sistema de campo aberto. Também chamado de ‘combinado’, este sistema foi uma influência dominante na agricultura inglesa até fins do século XVIII. O território em torno da aldeia, vilarejo ou cidadezinha compunha-se basicamente de quatro parcelas: terra arável, prado, pasto e campo baldio. A terra arável era dividida em dois ou três campos, subdivididos por sua vez em faixas separadas uma da outra por estreitas tiras de terra deixadas incultas. Aos aldeões se alocavam as áreas de cultivo por sorteio de tal forma que o mesmo agricultor tivesse por incumbência diversas faixas desconectadas em cada campo. Tal cuidado era importante, pois impedia que a melhor terra ficasse a cargo de um mesmo homem. Entre essas faixas estavam misturadas as que pertenciam ao senhor, chamadas desmene (pronuncia-se ‘di-mein’), geralmente a terça parte do todo.
   Os campos cultivados recebiam então uma cerca de proteção desde a semeadura até a colheita. Ao fim do ciclo, retiravam-se as cercas e os animais retornavam para se alimentarem das hastes, raízes e sobras dos cereais colhidos. Aliás, a perda da liberdade do gado de transitar pelas terras é uma das pegadas ecológicas do sistema capitalista, ligadas à mudança para o regime de propriedade privada. Um exemplo é a revogação, em fins do século XIX, da legislação de origem colonial na América do Norte que obrigava os agricultores a manterem às próprias custas a cerca protetora das plantações e assegurava os direitos do gado e rebanhos de vagarem pela terra à vontade (STEINBERG, 2002).
   No sistema tradicional, as colheitas eram rotativas para cada campo: num ano se plantava trigo, no outro, aveia e cevada, e, no terceiro ano, a terra era deixada em pousio para recuperar seus nutrientes. Além dos cereais, eram cultivados alguns tipos de feijões, ervilhas, legumes e verduras. Esse procedimento era seguido religiosamente de modo que todo ano um campo ficava sem cultivo e sem cercado. A livre passagem do gado ou do rebanho de carneiros assegurava também a regeneração pelo esterco.
   As pastagens eram abertas a todos, mas havia restrições à quantidade de animais por lavrador. Nada, porém, impedia a utilização dos campos baldios situados além dos limites do território administrado pela aldeia. O prado era igualmente dividido em faixas. Nele cada lavrador recolhia o feno necessário. Na falta de gramíneas e raízes, o feno era muito valioso: com ele se alimentava o gado durante o inverno, que sofria bastante na primavera quando o estoque já havia terminado e novas fontes de alimento ainda estavam por nascer. Os bois eram utilizados em grupos de oito para arar e semear o solo. Havia também rebanhos de carneiros, de onde se retirava a lã para consumo local. Embora nem todos os camponeses tivessem bois ou ovelhas, era lugar comum a criação de porcos e aves.
   Uma importante fonte de informações sobre as atividades rurais encontra-se no tratado escrito no século XIII por Walter de Henley sobre como bem conduzir o trabalho agrícola. Nele observa-se grande preocupação com a boa utilização dos recursos naturais. Aconselha as melhores ocasiões de semeadura, o empilhamento do estrume e sua mistura com terra, o cercamento cuidadoso dos pântanos para não impedir a livre circulação da água, a necessidade de iniciativa do camponês em vez de deixar tudo por conta do clima e das estações (SNELL, s/d). Ou, como se diria mais modernamente, por conta exclusiva dos serviços ecológicos da natureza.
   Cercamentos e impactos socioambientais. A época de Thomas More foi de exacerbação dos conflitos agrários por conta da produção da lã voltada para o mercado. Mas a fase imediatamente posterior à Peste Negra (1348-1350) fora marcada pela redução da pressão demográfica e melhoria no padrão de vida, resultante, em grande parte, da rarefação da mão de obra. Os trabalhadores passaram a ser disputados e ganharam liberdade de locomoção. O status legal dos camponeses também mudou, com a dissolução dos laços de servidão e sua transformação em trabalhadores livres.  A redução da mão de obra contribuiu para a introdução acelerada do sistema de arrendamento rural. As grandes propriedades foram divididas em parcelas e alugadas a quem pudesse explorá-las. Os contratos de serviços tornaram-se mais curtos, com duração de algumas semanas, em substituição aos anuais, menos flexíveis.
   O estudo de Krzysztof Boroda (2008) sobre a Peste Negra e as mudanças na sociedade e economia medieval européia nos séculos XIV e XV fornece dados interessantes a uma abordagem ambiental. Mostra, por exemplo, uma diminuição drástica no número de propriedades rurais. Num intervalo de 30 anos (1347-1377), a quantidade de propriedades camponesas cai em todo o reino pela metade: nada menos que 1.400 aldeias desaparecem completamente. A crescente importância da criação animal acarreta uma expansão de estábulos bovinos e cercados ovinos, com o aproveitamento das casas abandonadas.  Boa parte das moradias camponesas conhece melhorias. As transformações no campo, ao mesmo tempo em que desalojam coletividades tradicionais mais indefesas, propiciam por outro lado a emergência de uma classe camponesa abastada, em condições de habitar casas mais amplas, dotadas de cômodos separados da cozinha em vez do tradicional espaço único. Ocorrem mudanças em outras esferas igualmente. A expectativa de vida média havia declinado com a peste. No entanto, para aqueles maiores de 20 anos de idade, as chances de sobrevivência aumentam em virtude de uma dieta mais balanceada com o aumento do consumo da proteína animal (bacon salgado no século XIV e carne de boi no século XV), de melhores condições habitacionais e da própria natureza seletiva da epidemia (o aumento da resistência humana confinando-a à população infantil).
   A idade para contrair matrimônio volta a baixar. Se antes da peste as pessoas jovens postergavam as núpcias para quando alcançassem um mínimo de independência financeira, o que era difícil dado o excesso de oferta de mão de obra, no século XV o reverso dessa situação cria condições para que a idade média dos casamentos caia de 28 para 23 anos para os homens e de 23 para 20 entre as mulheres. Mesmo os trabalhadores sem qualificação aproveitam o aumento real nos salários para gastarem mais em roupas, o que estimula a produção de tecidos de lã de qualidade mais popular. Foi grande a transformação gerada pela inserção de novas massas consumidoras num mercado até então dominado por uma produção têxtil de alta qualidade (BORODA, 2008).
   Portanto, nos 150 anos que se seguiram à peste negra, profundas mudanças ocorreram no campo, desde o tamanho e a quantidade dos lotes rurais até a estrutura das colheitas. O cultivo de grãos perdeu destaque com a diminuição do número de bocas, enquanto a estabilidade dos preços da criação animal atraiu o interesse dos senhores. Constata-se também a mudança para o cultivo de plantas utilizadas no processo de tintura de têxteis, o que representa um afastamento da agricultura de subsistência, típica das chamadas sociedades pré-capitalistas e calcada no sistema de campos abertos. Verifica-se um aumento de prosperidade média, de que dá exemplo a localidade de Stoughton, sul da Inglaterra. Em 130 anos de transformação, passa de uma aldeia formada por propriedades abaixo do nível de autossuficiência que raramente ultrapassavam 11 acres para uma cuja maioria fica acima de 30 acres.  Mais da metade dos habitantes torna-se próspera, deixando para trás uma situação típica da primeira metade do século XIV em que apenas 3% da população alcançavam uma renda anual de duas libras, o restante situando-se bem abaixo desse valor (BORODA, 2008).
   Essa visão otimista, de recuperação econômica, de aumento de salários e rendas, não faz parte, porém, da obra de Thomas More. Suas referências aos tempos sombrios em que vive indicam séria mudança em curso no início do século XVI. Certamente o ciclo virtuoso descrito acima estava então sendo eclipsado pelo seu oposto: a antítese à rarefação da força de trabalho disponível sendo a concentração fundiária, a criação ovina e o cultivo de espécies mais rentáveis.
À página 58 de seu artigo, Boroda explica ter sido a Inglaterra, juntamente com os Países Baixos e a Itália do norte, um dos novos centros de atividade econômica com foco na produção em grandes quantidades de tecidos relativamente baratos, em competição com os tradicionais centros de produtos de luxo, como a seda, o veludo e o brocado, entre outros. Para atender à nova demanda, começa a disseminação do putting-out system ou sistema domiciliar de produção de lã, com os mercadores movendo-se pelo campo em busca de mão de obra mais barata e livre das exigências das corporações urbanas. A introdução de novas tecnologias também surge como resposta à escassez do trabalho e à sua valorização, processo que irá se intensificando ao longo dos séculos até a eclosão da Revolução Industrial e do sistema de fábricas.  Para diminuir a dependência do trabalho humano, implantam-se os moinhos de água e vento na produção de metais e têxteis, o carrinho de mão na construção civil, a roca com roda na produção do fio de lã, mesmo que a expensas da qualidade do produto (rigorosamente regulamentada pelas corporações de ofício).
Vale lembrar que a utilização das novas tecnologias implicava o abandono de práticas que até então garantiam ao camponês liberdade de locomoção, de uso do tempo e de controle das próprias atividades, como se vê abaixo em detalhe de tapeçaria com mulher descalça carregando o tradicional fuso de fiar lã embaixo do braço e preso à cintura, do qual não se separava jamais, ao mesmo tempo em que dá de comer às aves.

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