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JOGO DE ESPELHOS: ECONOMIA E SOCIEDADE NOS TEXTOS LITERÁRIOS DO ANTIGO REGIME
Suely Romero, Dip. RSA

Mas que testemunhos ainda, outros que vossas palavras,
podem nos assegurar não ser essa uma fábula
que construístes sobre um fundo de verdade?
Molière

Este artigo discute a importância do aporte da literatura não só ao estudo e ensino da História, mas ao próprio ofício do historiador, concentrando-se na busca de elementos de interesse econômico e social nas obras de autores de época. Procura exemplificar, trazendo à tona alguns desses aspectos extraídos de textos franceses do Antigo Regime, neles reconhecendo o valor de testemunhos e visões de mundo capazes de contribuir para a apreensão do período, enriquecendo o seu entendimento através da multiplicidade de elementos que se oferecem à reflexão e ao cotejamento com teorias explicativas já estabelecidas.

Palavras chaves: Literatura, História, Antigo Regime, economia e sociedade. Autora:
Professora Suely Romero, Dip. RSA

Bacharel e Licenciada em História (UFRJ); diplomada pela Royal Society of Arts / University of Cambridge (UK), com formação em língua e literatura inglesa e francesa (Aliança Francesa e Universidade de Nancy II). Ex-professora de História da UFRJ e UGF; atual professora de História Moderna da Estácio. Gerente Acadêmica do campus Jacarepaguá.

O aporte da literatura à compreensão do passado

Consagrados mestres têm defendido o importante aporte dos textos literários não só à pesquisa, mas também à prática de ensino da História, recomendando a seus alunos a leitura de determinados romances (e hoje em dia, filmes). Um exemplo clássico é Salambô, de Gustave Flaubert, baseado, por sua vez, nas Histórias de Políbio, cujo mérito, nesta perspectiva, é o fino insight que proporciona sobre a história cartaginesa. Carlo Ginzburg, famoso autor da obra O queijo e os vermes (1976), ressaltou, por sua vez, o uso inescapável das fontes literárias para a melhor compreensão das sociedades passadas (ROIZ, 2006).

Concretamente, a relação entre história e literatura vem se tornando objeto de interessantes estudos que visam a sua aproximação dentro de uma ótica interdisciplinar. Não se pode esquecer, obviamente, o papel da imaginação do autor na obra de ficção, que empresta à forma literária um caráter artificial explícito. Nela, os elementos são combinados e selecionados de forma que o leitor saiba que aquilo que lê não é real, embora faça sentido como se fosse real. O efeito poético, normalmente ausente no discurso histórico, é o que permite tal conscientização (ALVES, [2006]).
Mas, por isso mesmo, há quem se oponha visceralmente a uma possível contribuição da literatura na busca de uma chave de entendimento do passado. Do historiador se espera que mantenha sob rígido controle as asas da imaginação ao se servir de fontes. Mas, afinal, o que é uma fonte? A produção documental sobre a qual trabalha o historiador nunca será objetiva nem neutra a priori: ela é fruto de uma seleção prévia. E o que determina ou conduz a essa ou aquela seleção? Um sem número de fatores de ordem prática e subjetiva, sejam eles históricos, sociais, ideológicos, técnicos... a tipologia é extensa. O documento, portanto, não é uma "verdade" a ser veiculada acriticamente. É um discurso produzido intencionalmente pelas gerações passadas: não fala por si; é o historiador quem o faz falar (SANTOS, 2001). Há então que se fazer também uma crítica mais apurada do próprio discurso histórico. E não exibe, por sua vez, neutralidade o próprio pesquisador, que analisa segundo o seu próprio olhar e lhe dirige questões de sua própria época (CARDOSO; VAINFAS, p. 377).
Santos (2001, p. 4) considera que a busca da compreensão do passado passa pela análise do discurso. O texto - discursivo ou não-discursivo - é um espelho das relações de poder e, do momento em que constitui o fundo simbólico de sua manifestação, influi por sua vez nessas relações é por elas refletido. Dessa interação emergem os limites, as molduras ideológicas que lhes dão o tom e o sentido, as possibilidades e os cerceamentos do código em uma perspectiva combinada de afirmação e proteção ao próprio poder. Seu estudo contribui certamente para o entendimento que determinada sociedade constrói sobre o mundo e sobre si própria nos diferentes tempos e espaços.

 Tudo isso pode ser apreendido e descrito a partir dos próprios textos; a partir deles, é possível destacar as regras pelas quais o jogo de relações entre o discursivo e o não discursivo, em uma determinada época, fazem aparecer aquele objeto, e não outro, como objeto de poder e saber (FISCHER, 2001, p. 199/221).

Sem cair no exagero da importância da linguagem a ponto de reduzir a história ao discurso ou negar haver história fora dele, deve-se atentar, como alertam Cardoso e Vainfas, para o caráter essencialmente textual da história: a história é sempre texto. Num sentido mais amplo, é discurso, seja ele escrito, iconográfico, gestual, ou de qualquer outra forma que assuma1. A análise requer sua articulação ao contexto, ao social, pois o sentido está em toda parte. As condições de produção de um discurso têm a ver com os valores sociais da sociedade que o produz. Qual seria então a atitude que deve assumir o historiador diante do texto literário? Segundo Jean Starobinski, especialista na arte do século XVII, sua função é de intérprete, que inevitavelmente presta uma contribuição própria, ainda que não pretenda fazer mais do que uma decifração. Na realidade, ele é, em grande parte, o produtor daquilo que descobre no texto, uma vez que escolhe, conforme as suas necessidades intelectuais e as necessidades de sua época, o código em que inscreverá o sentido próprio (STAROBINSKI, apud CARDOSO: VAINFAS, 1991, p. 378).

Ao se reconhecer a interferência da subjetividade no trato do objeto de conhecimento histórico, deve-se ter cuidado, porém, para não suprir a falta de dados ou a insuficiência da pesquisa com a imaginação própria da narrativa literária. As lacunas do conhecimento são obrigatoriamente declaradas no ofício do historiador. E é dessa forma que se pode estudar com grande proveito os textos de época, ou mesmo aqueles, mais recentes, ficcionais ou não, cuja trama ou descrição se ambienta em determinado ponto do passado, para se obter maior riqueza de informações e matéria de reflexão histórica. Especificamente para o objeto deste artigo, o Antigo Regime, período da história européia situado por autores como David Ogg (1983, p. 3) entre as guerras de religião do século XVII e a Revolução Francesa de 1789, existe uma produção literária magnífica, que permite uma pesquisa frutífera de seus constituintes históricos, capaz de iluminar os mais recônditos nichos e revelar aspectos de legítimo interesse para a compreensão do passado.

A ascensão irresistível do comércio

Falar em Antigo Regime é lembrar uma época marcada pela civilização aristocrática, pelo classicismo e pelo barroco. Mas foi também uma era na história européia, com vastas repercussões para o mundo, em que o comércio se aliou à expansão marítima e ganhou um vulto até então desconhecido, inundando todas as áreas de relacionamento humano e social, entre as quais as próprias transações jurídicas. Todos passavam - ou eram induzidos - a se ver como comerciantes. Para exemplificar, até um professor de música podia ser considerado, em última análise, como aquele que troca a sua habilidade por uma compensação em dinheiro, ou seja, um praticante do comércio.
Essa influência penetra na linguagem, no preciosismo mesmo. Conceitos puramente comerciais passam a designar aspectos da vida cotidiana e como tais são retratados nas obras literárias. É assim que nos textos franceses a palavra "comércio" designa não puramente a troca de mercadorias, mas o próprio relacionamento humano. Passa a abranger ampla gama de graus de interação interpessoal, desde a visitação e a mera conversação até o encontro amoroso ou mesmo uma união mais espiritual ou platônica, como a pura amizade. Pode designar também simples troca de correspondência. A correspondência freqüente ganha o conceito de comércio de cartas regular.
Era a carta o grande instrumento de comunicação da época, a fonte de dispersão das novidades, das intrigas, dos louvores e das difamações. A qualquer novidade surgida na corte, como uma palavra significativa do rei em relação a algum de seus cortesãos, as penas ganhavam vida nas mãos dos missivistas e multiplicavam as notícias por um sem número de destinatários na capital, na província e no estrangeiro. Tais elementos podem ser colhidos no romance de Françoise Chandernagor, L'Allée du Roi2, publicado em 1981, que reúne, em meio à ficção e à licença poética, os souvenirs ou memórias de Françoise d'Aubigné, marquesa de Maintenon, segunda esposa legítima, embora discretamente oculta, do rei de França Luís XIV. A autora nos esclarece que, ao morrer, Françoise de Maintenon deixara quase 80 volumes de cartas. Essas coleções se perderam, dispersaram ou destruíram na dinâmica das heranças e das revoluções. Restam ainda, entretanto, mais de quatro mil cartas, sobre as quais montou o livro, acrescidas de outras fontes da época, rigorosamente utilizadas e profusamente informadas ao leitor. Delas se retiraram as informações que aqui interessam ao propósito dessa breve reconstituição da invasão avassaladora da linguagem do comércio na teia de relações humanas e sociais da época.
É assim que se surpreende o uso da palavra "preço", que também ocupava lugar importante no vocabulário do Antigo Regime. A expressão "ao preço de" funcionava correntemente como advérbio de comparação no século XVII. Esse é um dos recursos de estilo conservados por Chandernagor (1981, p. 259) ao comparar o desabar de violenta e ruidosa tempestade que esbofeteava e sacudia os vitrais da capela de Versalhes à terrível crise que se desenrolava ao mesmo tempo em seu interior, motivada pelo impacto do adultério do Rei-Sol com Madame de Montespan e seus desdobramentos religiosos: a fúria da natureza não era nada ao preço do escândalo que ali se instaurava. Os próprios pesos e medidas, essenciais à prática de compra e venda do varejo ao atacado, vêm emprestar sua precisão às finas análises psicológicas, como a que se faz da poderosa amante real, a citada Montespan: dona de um gênio indomável, oscilante entre extremos de amizade e cólera, cheia de exageros de linguagem, jamais ostentava uma onça ou uma linha de razão sequer (CHANDERNAGOR, 1981, p. 244). Ora, "onça", explica a autora em nota de pé de página, era uma medida de peso equivalente a 30 gramas, enquanto "linha" significava um comprimento de cerca de dois milímetros. Com o uso de medidas tão pequenas se procurava aquilatar a falta de racionalidade e coerência de um comportamento desarvorado.
E o que dizer da reputação, tão ligada à glória e honra dos nobres, à época definida em termos de "crédito" e "descrédito"? Parece estranha, à primeira vista, essa conjugação aristocrática com uma atividade de modo geral tida como tipicamente burguesa e, portanto, de categoria inferior e mesmo vulgar, pois baseada na busca e acumulação do vil metal. Como explicar a contaminação triunfante desses valores na própria linguagem formulada pela classe dominante? Convém lembrar, no entanto, que, ao contrário de ofícios, profissões ou varejo, o grande comércio - ultramarino, grosso ou de atacado - era permitido à nobreza e, assim, não a desmerecia nem rebaixava. Reis e príncipes estavam perfeitamente conscientes da grandeza, bravura e aventura envolvidas na anexação, desbravamento e exploração desses novos territórios - as colônias - e das riquezas que geravam para suas metrópoles. Embora se verificassem reações mais conservadoras e críticas em certos círculos renitentes, a honra e a glória, esses dois marcos definidores da nobreza, não eram abalados pela atividade comercial em larga escala. Pelo contrário, tinham nela campo propício para sua expansão, para seu desabrochar, para sua confirmação, sobretudo nas regiões próximas aos ricos portos atlânticos, como Bordeaux, Nantes e La Rochelle. Daí, talvez, o paradoxal extravasamento no mundo aristocrático desse instrumental lingüístico de origem tão burguesa, que pode se inserir no processo que Norbert Elias chama de democratização latente, ainda sob uma forma rudimentar, que se observa nesse período de mercantilização que precedeu a industrialização (ELIAS, 2001, p. 267).

A crítica aos burgueses e vilões

O magnífico florescimento do comércio e seus reflexos na política interna e externa não significavam, porém, qualquer esmorecimento ou concessão do poder aristocrático, que enquadrava firmemente a sociedade da época. A tragédia corneliana deixa entrever o sistema de valores dominante ao confrontar dois tipos de humanidade: a humanidade heróica e a humanidade medíocre. Para Corneille (1606-1684), a alma heróica é diferente da alma vulgar, fraca por natureza. A grandeza dos heróis tem efeito de insulto para os medíocres, que tendem a se vingar como podem dessa superioridade insuportável. Se não conseguem rebaixar o herói, tentam abatê-lo. Mas vencedor ou vencido, o herói esmaga os medíocres com toda a sua grandeza. Corneille condena esses seres vis, que nem no crime são capazes de cometer algo grandioso. Para o autor, portanto, também as almas se distinguem pelo nascimento: são as almas bem nascidas versus aquelas formadas no lodo. Os heróis constituem uma elite humana, uma nobreza de natureza moral (LAGARDE; MICHARD, 1975, p. 116-117/124).
Tal classificação deriva diretamente dos conceitos e preconceitos que governam a sociedade da época. Embora etimologicamente diversas, as palavras vil, vilão, vilania tendem a se aproximar e associar na sordidez ignóbil, isto é, sem nobreza. Nobre é sinônimo de elevado; seu contrário é baixo, desprezível, abjeto. Alma vil, em última análise, é a alma do vilão, ou seja, o habitante da vila ou aldeia que vive principalmente do trabalho da terra e presta serviços ao senhor, eternamente curvado tanto pela natureza de seus afazeres quanto pela necessidade de sujeição a uma ordem social estritamente hierárquica.
Como em um jogo de espelhos, a literatura reflete sua época e esta, por sua vez, de certa forma a reproduz em seus valores e visão do mundo. Saindo do mundo rural, a cidade oferece uma multiplicidade de tipos humanos e dramas de existência que lhes são peculiares. Um exemplo é o usurário Harpagon ao se debater com despesas que lhe torturam o espírito mesquinho: um séqüito de empregados, um intendente, lacaios, carruagem, prodigalidades do filho e o inevitável dote da filha. É ele o personagem central da comédia O Avaro, de Molière (1622-1673), peça cômica sem grandes incidentes, mas na qual é possível surpreender referências de interesse histórico as mais diversas. Passando pela própria vida do autor, que se viu posto na cadeia por motivo de dívidas, podem-se imaginar, com ajuda do texto, os detalhes que cercavam a atividade usurária praticada então.
Numa época em que a aparência contava e muito, os jovens de algum cabedal esforçavam-se por custear não só perucas e trajes com que pudessem distinguir-se da multidão menos abastada, mas também se habilitar à freqüência dos salões elegantes e à prática apaixonada do jogo, de cartas sobretudo, que exigia apostas e capacidade de honrar as dívidas. "Meus filhos me arruínam, sem contar outras famílias que estão arruinadas", queixar-se-á um pai em carta anônima em 1769 (CASTAN et al, 1991, p. 563). A prática era universal, dos salões da corte aos recintos mais populares, constituindo os jogos de azar verdadeiro esbanjamento, sobretudo nos longos períodos de inverno.

 Sempre perseguidos e sempre renascentes, escondem-se na privacidade das casas ou em jardins isolados. Associadas à taberna e às vezes à prostituição, as mesas de carteado - como brelan ou lansquenê - devoram tanto o dinheiro dos "profissionais" como o dos "moços de família" que à noite se encontram a sua volta (CASTAN et al, 1991, p. 562-3).

O personagem Cleonte, filho do avarento Harpagon, de quem não consegue arrancar uma mísera moeda, queixa-se das dificuldades para conseguir os meios de se trajar razoavelmente e explica os gastos que incorre como fruto de sorte no jogo (MOLIÈRE, 1933, p. 16). Estar na moda era de suma importância. Para conseguir uma aparência respeitável, era preciso estar bem vestido, manifestando o seu lugar e origem na sociedade de corte. A crítica social assim o exigia:

 ... para não se expor ao escárnio, ao desprezo, à perda de prestígio, é preciso submeter a própria aparência e os gestos, ou seja, submeter a personalidade às normas flutuantes da sociedade de corte, que enfatizam,em uma medida cada vez maior, o caráter específico e distinto das pessoas pertencentes a essa sociedade. Uma pessoa precisa usar determinados materiais e determinados sapatos (ELIAS, 2001, p. 234).

Mas o pai de Cleonte, avaro, destaca-se por vestir-se totalmente à antiga, tornando sua aparência ridícula e repugnante aos jovens. E não poupa críticas ao filho pelo excesso de fitas e pelo custo das perucas louras, então em uso, quando poderia muito bem, a seu ver, usar o crescimento natural dos próprios cabelos e poupar assim tamanha despesa. O desenrolar das discussões entre pai e filho fornece informações mais detalhadas sobre as roupas de então. Destacam-se as famosas culottes, calças masculinas que iam até os joelhos, onde se completavam daí para baixo por meias de seda. Emblemáticas, essas peças de vestuário servirão mais tarde, na época da Revolução Francesa, de inspiração às avessas aos agitadores populares mais radicais, os sans-culottes (os sem-culotes, isto é, os que rejeitam tal indumentária): marcarão assim uma posição de repulsa aos nobres e ricos burgueses bem como aos valores que encarnam. Na peça de Molière, as culottes são chamadas de haut-de-chausses e tinham que ser presas ao colete por meio de cadarços de pontas metálicas, passados por dentro de ilhoses. Os elegantes disfarçavam esses laços com uma profusão de fitas de tecidos preciosos.
A insuficiência de recursos leva o necessitado Cleonte a recorrer a empréstimos feitos a homens abastados, experientes na usura. Seus lamentos permitem ao leitor penetrar no mundo dos juros então praticados. A crítica de Harpagon ao filho se respalda no cálculo feito sobre as fitas e as perucas, estimadas em pelo menos vinte pistolas3, quantia que renderia por ano mais de 18 libras a juros de denier douze, quer dizer, na proporção de um para doze ou cerca de 8%. Essa já era considerada uma taxa usurária, visto que a taxa legal era de 5%. Conclui-se então que, nos contratos particulares, a prática do percentual maior deveria ser bastante comum (MOLIÈRE, 1933, p. 22).
No decorrer da trama, emerge outro aspecto ligado à exploração do crédito: o contratante da dívida era obrigado a aceitar parte do empréstimo em mercadorias sortidas em vez de dinheiro. Esses itens materiais, indesejados, de difícil liquidez e sobre-avaliados, correspondiam a expressivo valor (cerca de 25% do total) e deviam ser pagos de volta pelo devedor em moeda sonante. Tais imposições, bem como as taxas de juros escorchantes, são qualificadas no texto como coisa de árabe, judeu e turco, denotando os preconceitos correntes contra esses povos e também a experiência secular de trocas da França com o Levante, bem estabelecida desde Francisco I (1494-1547), sobretudo através do porto mediterrâneo de Marseille.
Em outra passagem de L'Avare, faz-se menção à ida ao mercado, o que remete a uma das duas grandes feiras que se realizavam em Paris: a feira de Saint-Germain, de 3 de fevereiro ao domingo de Ramos, e a de Saint-Laurent, que se estendia de 28 de junho a 30 de setembro (MOLIÈRE, 1933, p. 39). Entre outros pontos de interesse, sobressai o tratamento dispensado aos criados, cujo espancamento era considerado natural. O personagem Jacques, mestre cozinheiro e cocheiro de Harpagon, admite ser direito de seu patrão encher-lhe o dorso de bastonadas, comportamento normal entre os costumes da época com relação à criadagem (MOLIÈRE, 1933, p. 53).
É também perceptível a insistência de Molière, retomada no século seguinte pela sátira mordaz de Voltaire, na crítica aos endinheirados que se valiam da venalidade ou compra de cargos, origem da nobreza togada (de robe), tão típica do Antigo Regime e à qual a Revolução Francesa daria fim logo em seus primeiros momentos. O avarento personagem Harpagon, que amava mais o dinheiro que qualquer outra coisa no mundo, mais que a honra, a reputação e a virtude, não se deixa seduzir por esse enobrecimento falso. Diz zombar de todas essas histórias que tais marqueses se regozijam em contar e afirma estar o mundo repleto desses "ladrões de nobreza", desses "impostores" que, para saírem da obscuridade, se apropriam do primeiro nome ilustre que lhes surge pela frente (MOLIÈRE, 1933, p. 37/82).

Um pouco de história ecológica

Embutido na história social dos povos encontra-se, como fundo de pano, mas nem sempre explicitada, a transformação da natureza. Sua degradação se faz tanto mais sentir quanto maior a produção e a valorização do comércio como fonte de acumulação de lucro e poder, fenômeno típico do sistema colonial tal qual inaugurado e desenvolvido pela Europa moderna. Em artigo sobre os desastrosos efeitos ambientais provocados pela lavra do ouro em Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX, Marcos Lobato Martins chama a atenção para a temática da ecologia e as oportunidades que ela oferece à realização de estudos interdisciplinares. A compreensão dos dilemas ambientais, de hoje e do passado, passou a ser também tarefa dos historiadores: é a chamada eco-história (MARTINS, 1993/1994, p. 107).
Dados desse tipo podem ser verificados também no relato do Duque de Saint Simon sobre a corte de Luís XIV ([1930], p. 569-574) a respeito, por exemplo, do terrível inverno de 1709. Com efeito, tal ocorrência se insere no fenômeno hoje conhecido como pequena idade do gelo, constituído por uma série de invernos rigorosos que assolaram a Europa seguidamente entre os séculos XIV e XVIII e cujas causas ainda são objeto de debate.
Saint Simon descreve para aquele ano uma massa de ar gélido, que durou quase dois meses com a mesma força, deixando os rios sólidos até a embocadura. Um falso degelo fundiu depois as neves que haviam coberto a terra durante esse tempo, seguido de súbito resfriamento tão forte quanto o precedente nas três semanas seguintes. Resultou daí uma cruel desolação no campo, pois este segundo gelo arruinou tudo. As árvores frutíferas pereceram; das nogueiras, oliveiras, macieiras e vinhas restou tão pouco que nem vale a pena falar. As outras árvores morreram em número enorme, os jardins (nome que se dava às plantações) pereceram e todos os grãos na terra. Para o autor, a desolação dessa ruína geral ultrapassa a capacidade de compreensão humana. Cada qual guardou seu velho grão. O pão encareceu na proporção do desespero da colheita.
Dado o caráter predominantemente agrícola da França na época, a crise no campo abalou toda a economia, atingindo violentamente os rendimentos e os impostos. Os pagamentos mais invioláveis, relata Saint Simon, começaram a se alterar. Os da alfândega, os das diversas caixas de empréstimos, as rendas da prefeitura, em todo tempo tão sagradas, foi tudo suspenso, levando à insolvência quase todas as famílias de Paris e muitas outras. Ao mesmo tempo, os impostos, aumentados, multiplicados, exigidos com o mais extremo rigor, acabaram de devastar a França. Tudo encareceu além do acreditável; a maior parte dos animais tinha morrido por falta de alimento e pela miséria daqueles que os possuíam nos campos. As muitas pessoas que socorriam os pobres viram-se reduzidas a subsistir a duras penas e em grande parte começavam elas próprias a engrossar as fileiras dos necessitados, passando a receber esmolas, por decoro, em segredo.
E segue-se a descrição dos efeitos da crise. Ninguém podia mais pagar, porque ninguém mais recebia o que lhe era devido. As pessoas do campo, a braços com exações e a desvalorização da moeda, tornaram-se insolventes. O comércio esgotado não rendia mais nada, a boa fé e a confiança se extinguiam. Assim o rei não tinha outro recurso senão o terror e o uso de seu poder sem limites, mas que, por todo ilimitado que fosse, falhava também, à falta de ter o que tomar e sobre o que se exercer. O próprio monarca não tinha com que pagar nem mesmo as tropas, sem que se pudesse imaginar o que acontecera com os tantos milhões que entravam em seus cofres.
Enquanto isso, diz o memorialista, o governo recorreu ao expediente de refundir a moeda, reajustando-a de um terço acima do valor intrínseco. Se isso trouxe lucro ao rei, a desvalorização real esmagou com a ruína os particulares e provocou tal desordem no comércio que acabou por aniquilá-lo. Na débâcle viu-se envolvido o rico banqueiro Samuel Bernard. Sua prodigiosa bancarrota derrubou a poderosa e tradicional praça financeira de Lyon, formando-se uma cascata de terríveis efeitos. O descrédito da moeda foi, para Saint Simon, a causa. Pretendeu-se depois que o citado banqueiro encontrou meios de ganhar muito com a própria bancarrota; mas o autor assegura que, embora um particular dessa espécie jamais tenha deixado de ter crédito por toda a Europa até a sua morte 35 anos depois, é preciso dessa recuperação excetuar Lyon e a parte da Itália que lhe é vizinha, onde não mais conseguiu se restabelecer.
Saint Simon fala sobre a busca de solução do governo para a crise com a criação de mais um imposto. Mas esse acréscimo colocou uma infinidade de gente em aperto ainda maior, fazendo estancar as esmolas voluntárias. O resultado foi que, além do emprego dessas taxas talvez mal administradas, os pobres acabaram bem menos assistidos. E pior: de provisórias, tais taxas passaram a permanentes.
O mesmo se deu com a imposição da corvéia, que se fazia todos os anos para os grandes caminhos. As finanças se apropriaram dessa obrigação com a mesma franqueza, sem mudar-lhe o nome. O inverno fez a maior parte das pontes se romperem por todo o reino e as estradas mais largas ficaram impraticáveis. Os comerciantes, que com isso padeciam infinitamente, reclamaram. Lescalopier, intendente da região de Champagne, imaginou contentá-los com corvéias, sem mesmo distribuir o pão, contrariando assim um costume estabelecido e aumentando o peso da exploração contra o camponês. Saint Simon ironiza, dizendo ter sido o intendente imitado em toda parte e até alçado a conselheiro de Estado por conta dessa brilhante inovação.

A situação no campo

Era o camponês, sobretudo o pobre, que suportava todo o peso da estrutura absolutista-feudal e constituía a maior preocupação para as classes privilegiadas.

 Essencialmente, o absolutismo era apenas isto: um aparelho de dominação feudal recolocado e reforçado, destinado a sujeitar as massas camponesas à sua posição social tradicional - não obstante e contra os benefícios que elas tinham conquistado com a comutação generalizada de suas obrigações (ANDERSON, P., 1989, p. 18).

Despojado de nomes ilustres e até mesmo de uma aparência minimamente aceitável aos padrões da época, muitas vezes descalço, sem organização intelectual própria e sendo objeto de registros somente por ocasião de explosões de revolta, há dificuldades de se traçar o perfil do camponês e penetrar no seu mundo cotidiano4. É possível, porém, encontrar um quadro da vida rústica nos textos do poeta e fabulista La Fontaine (1621-1695). São esboços nitidamente visuais o semeador e sua mão "que pelos ares caminha", o trabalhador e seus filhos, o carreteiro atolado na lama, o intendente e seus valetes no estábulo, a dona do sítio e seu galinheiro.
O autor consegue captar os traços dominantes do espírito camponês, seu bom senso rude e amor pelo ganho. Explica ser uma gente que prefere o sono à filosofia. Através de sua pena, o pastor de cabras e ovelhas conquista a estima do leitor, que também se emociona com o desespero do plantador cujo senhor, com seu séquito de cavaleiros, saqueiam irresponsavelmente seus cultivos na caça à lebre, consomem-lhe todo o vinho e o melhor de seus mantimentos e tomam liberdades com a filha.
La Fontaine apieda-se ainda da miséria do lenhador que, curvado sob a carga das achas, tanto quanto dos anos, gemia e andava com passos pesados tentando chegar à palhoça enfumaçada. Não mais agüentando o esforço e a dor, deixa cair o fardo e pensa na vida: que prazer teve desde que veio ao mundo? Às vezes sem pão, repouso jamais. A mulher, os filhos, os soldados, os impostos, o credor e a corvéia dele fizeram um completo infeliz. Chama a morte, que chega sem tardar, mas reflete melhor e ainda prefere a vida.
Nessas fábulas, os fortes impõem seu direito sem escutar a razão dos fracos. Consideram, em supremo egoísmo, que tudo existe para eles e se permitem a crueldade, a usurpação e a ingratidão. Contra esses prepotentes, conseguem triunfar apenas os habilidosos, bajuladores, mentirosos e hipócritas. Mas esses atacam de preferência os fracos, suas vítimas perfeitas (LAGARDE; MICHARD, 1975, p. 215).
Na realidade, os camponeses eram obrigados a alojar os soldados, sobretudo quando não pagavam os impostos, e o credor era a quem recorriam para obterem os recursos, criando assim um círculo vicioso. Quanto aos impostos, dois eram exclusivos do povo: a talha e a corvéia. Pesados, deles eram excluídos os nobres. A talha destinava-se à manutenção dos exércitos e se cobrava de todos os proprietários de terra não-privilegiados, isto é, dos camponeses de todas as gradações, do mais pobre ao mais próspero. A corvéia, trabalho forçado gratuito, era obrigação imposta tanto pelo senhor fundiário (corvéia senhorial) como pelo monarca (corvéia real) para o que hoje chamaríamos de obras públicas, como a execução de construção e reparos em estradas e pontes.
Mais informações sobre a situação do camponês podem ser encontradas em Jean-Antoine-Nicolas de Caritat (1743-94), Marquês de Condorcet, reputado filósofo iluminista do século XVIII, na Carta de um trabalhador da Picardia5, publicada em Paris no ano de 1775 como obra anônima de "autor proibitivo". A carta é dirigida a um J.N. (certamente Jacques Necker, banqueiro nascido em Genebra e coordenador das finanças de Luís XVI) a propósito de um livro de autoria deste, em que defende uma nova legislação sobre o trigo.
O texto, de agradável leitura e surpreendente clareza, informa o leitor, pela ótica de um aristocrata progressista e sequioso de mudanças, a respeito de uma possível ou desejável alteração da rotina de vida no campo. Um exemplo seria a adoção da semana de seis dias de trabalho e a consagração do sétimo à formação dos filhos através "de leituras que lhes possam dar conhecimentos úteis ao seu estado" (CONDORCET, 1775, p. 3). Numa antecipação da subversão da tradição que ocorreria durante a Revolução Francesa na época de Robespierre, Condorcet dá vazão a uma alternativa para melhor utilização do dia de descanso ou dos feriados de modo geral, retirando-lhe o tradicional sentido religioso para consagrá-lo às Luzes:

 Tanto me parece nocivo subtrair tantos dias à cultura, para abandoná-los à ociosidade e à dissipação, quanto eu desejaria que houvesse um dia em cada semana consagrado às instruções úteis e terminado por uma festa campestre (CONDORCET, 1775, p. 4).

O narrador da Carta confessa, porém, que ao começar a ler o livro de J.N, cujo conteúdo prometia ser tudo aquilo que ele e os filhos sempre desejaram saber, concluiu que não poderia entender dele uma página sequer: "Parecia, no entanto, escrito em francês, nos dizíamos" (CONDORCET, 1775, p. 4).
Mais do que uma crítica ao estilo, a alfinetada parece referir-se à falta de contato do texto com a realidade do campo. Mas admite que conseguiu entender um pouco do que o autor do livro diz "sobre o povo e sobre a sua nova legislação do trigo" (CONDORCET, 1775, p. 4-5). E, após agradecer esse interesse, o missivista passa a descrever o povo, em sua opinião nem tão feliz nem tão infeliz quanto se propalava. Podia chegar a ser mesmo mais agraciado pela vida que o privilegiado, corroído pelo orgulho e obrigado à manutenção de um status ruinoso.

 Enquanto ele [o povo] tem juventude, saúde e trabalho, sua sorte é suportável; talvez seja mesmo melhor que a do rico: porque se diz que todo homem que possui mais de cem pistolas de renda, ou que é isento da talha, é durante toda a sua vida atormentado por uma doença que se chama vaidade e cujo efeito infalível é o de envenenar as alegrias e tornar as penas mais amargas (CONDORCET, 1775, p. 5).

Entretanto, retirados os três fatores apontados acima - juventude, saúde e trabalho - a situação muda de figura e dá origem à mendicância e ao crime como recurso último de sobrevivência.

 Mas quando uma família é encarregada de assegurar subsistência aos idosos: quando a morte lhe subtrai seu chefe, ou que, nascida com uma constituição frágil, é freqüentemente exposta à falta de trabalho: quando longas doenças a esgotaram, ela cai num estado de angústia e miséria, (...) nada lhe resta contra uma destruição lenta e cruel, a não ser recursos humilhantes e criminosos (CONDORCET, 1775, p. 5-6).

Tal circunstância era comum a diversas regiões da Europa. Contrariamente a uma legislação complexa e de difícil fiscalização sobre o preço do trigo, o pretenso trabalhador da Picardia expõe sua antiga esperança de destruição das corvéias (trabalho gratuito) e a supressão das gabelas (impostos sobre o sal) e a da talha arbitrária (cujo montante era estabelecido a priori e repartido pelos membros de cada comunidade aldeã). Tais medidas ofereceriam, melhor que tudo, recursos assegurados ao povo contra os acidentes ou carestias que o expunham à miséria. Na supressão da talha, via não só uma diminuição do imposto para o pobre, mas a liberdade devolvida à indústria, sempre cativa do receio de um aumento desse mesmo imposto (CONDORCET, 1775, p. 6-7).
É interessante notar a menção da talha estendida à indústria, pelo que se deve entender aqui a atividade manufatureira e artesanal desenvolvida na época e que se destaca das atividades agrícolas de preparo da terra, semeadura, cuidado com as plantações e colheita. Essa atividade, em grande parte, derivava da própria economia agrária, como a moagem dos grãos, o fabrico da farinha de pão, a produção de vinhos e a própria tecelagem em suas múltiplas etapas, quer de linho, quer de lã.
Quanto à gabela, imposto sobre o sal, "direito enorme", cobrado sobre um gênero de consumo diário, sua eliminação permitiria maior facilidade de criar mais animais e proporcionar-lhes mais saúde e robustez, aumentando assim os recursos do povo e "a massa de suas subsistências" (CONDORCET, 1775, p. 7).
Ao comentar a corvéia, quantifica-a em quinze dias por ano que os "infelizes vizinhos" são forçados a dar gratuitamente. Quinze jornadas a mais seriam suficientes para terminar no campo com a falta de mão-de-obra. Essas "sábias operações", além das vantagens expostas, poupariam ao povo uma série de vexames, inquietudes, humilhações, crueldades (CONDORCET, 1775, p. 7).
Duvidando claramente que a legislação sobre o trigo traga algum bem, o missivista, ao imaginar o que aconteceria com a alteração do preço do trigo, informa o leitor sobre a movimentação típica do camponês nos momentos de crise. Ganha-se a noção de que o povo dos campos é obrigado a se deslocar a uma distância de três léguas para comprar no mercado, em moeda sonante, o trigo que poderia ter comprado de seu vizinho, de imediato, mais barato e muitas vezes a crédito. E adverte contra o que considera o pior: é que não se vê "qualquer pretexto para punir os mercadores de grãos mais ávidos" (CONDORCET, 1775, p. 8), configurando-se assim o paraíso dos açambarcadores e sonegadores de gêneros, figura que atormentará a França durante todo o final do Antigo Regime e mesmo ao longo da fase mais radical da Revolução Francesa. O próprio Necker se enriqueceu financiando negócios de trigo e emprestando dinheiro ao governo.

Considerações finais

Os textos literários, devidamente analisados, podem se revelar de profundo interesse para a reconstituição histórica, de não menos valor que os documentos administrativos, contábeis, paroquiais e outros. São testemunhos plenos de sabor e cor, revelando valores, preconceitos, interesses, detalhes, um sem número de aspectos, enfim, que enchem de vida as tentativas de apreensão de uma época. Os próprios romances históricos, ao menos os mais bem cuidados, buscam estreita relação com os registros levantados pelos pesquisadores, tendo o mérito de despertar a sensibilidade do leitor em relação ao passado, arrancando-o do condicionamento do presente, relativizando sua percepção e preparando o entendimento para o desenrolar desses processos no tempo.
O exercício aqui proposto, qual seja, o de garimpar nos textos literários elementos relacionados à economia e sociedade de uma época determinada, pode, do ponto de vista da pesquisa pura, até resultar em ganhos anêmicos de informação e merecer a crítica de não levarem "a coisa alguma além do que o pesquisador sabia antes de começar a investigação" (CARDOSO; VAINFAS, 1991, p. 383). Para o professor e estudante de História, porém, o contato com esses textos vai além de uma leitura superficial ou simplesmente devotada ao prazer estético. Constitui atividade enriquecedora, de valor inestimável, por ser capaz de proporcionar, por mais paradoxal que pareça, certa experiência do concreto, do vivenciado, ajudando o raciocínio no âmbito da abstração teórica, característica dos modelos explicativos.
Deve-se chamar a atenção também para a menção feita à posição do pesquisador, mescla de decifrador, intérprete e produtor de sentidos e significados. A preocupação com o rigor científico não exclui - ao contrário, precisa dela dar conta - a interferência da subjetividade e da temporalidade, expressas em toda uma mediação fundamentada na seletividade do sujeito, nas necessidades de sua época e no próprio código que utilizará para produzir e divulgar seus conhecimentos. Numa dimensão mais profunda, a importância da linguagem e toda a complexidade nela envolvida aproximam História e Literatura em uma perspectiva interdisciplinar dotada de infinitas possibilidades de renovação e descobertas.

REFERÊNCIAS


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1No quadro da lingüística textual, tende-se a identificar o discurso com o texto, um conjunto coerente de enunciados que resulta de um processo de comunicação entre dois falantes (CEIA, 2005).

2A Aléia do Rei, referência ao Palácio de Versalhes, seus jardins e alamedas.

3Pistola era o nome dado originalmente à moeda de ouro cunhada na Espanha e na Itália e que tinha o mesmo peso do louis. Seu valor equivalia aproximadamente a 10 libras (ROBERT, 1977, p. 1443).

4Sobre o tema, encontra-se traduzido para o português a obra História dos Camponeses Franceses do historiador francês Emmanuel Le Roy Ladurie.

5Região do norte da França, próxima aos Países Baixos, habitada na época por agricultores e lenhadores em sua maioria.