SÍNDROME DE DOM QUIXOTE:
(Ir)responsabilidades no tocante à importância da Leitura na sociedade brasileira pós-moderna |
Wander Lourenço
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Autor:
Prof. Dr. Wander Lourenço Escritor e Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira.
Coordenador Adjunto do Curso de Letras no campus Jacarepaguá da Estácio.
| | "E assim de pouco dormir e muito ler, aconteceu
ressecarem-se-lhe os miolos e toldar-se-lhe de todo o juízo. Povoou-se-lhe a fantasia tudo
o que lia nos romances, encantamentos, pendências, batalhas, desafios, lanhos dados e
recebidos, requebros, amores, tormentos e disparates impossíveis."
(Cervantes, Miguel de. Dom Quixote de La Mancha.)
"- Aqueles livros, aquela mania de leitura... - Pra que ele lia tanto? indagou Caldas.
- Telha de menos, disse Florêncio. [...] - Aquele Quaresma podia estar bem, mas foi meter-se com livros...
É isto! Eu, há bem quarenta anos, que não pego em livro..."
(Barreto, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma.) |
A grande diferença entre o Dom Quixote de Miguel de Cervantes para as outras antológicas
criações da literatura universal, entre as quais Hamlet de Shakespeare; Fausto de Goethe;
Raskólnikov de Dostoievski; e, por fim, Brás Cubas de Machado de Assis, vem a ser que o
Cavaleiro da Triste Figura, assim alcunhado por seu fiel escudeiro Sancho Pança, se libertara
dos grilhões da concepção artístico-ficcional; ou melhor, desacorrentara-se da pouco
onisciente pena do grande prosador espanhol do século XVII, para fazer-se personagem de si
mesmo ao tornar-se Cavaleiro Andante, à força de sua pródiga e fértil imaginação. Entretanto,
a questão crucial fora que tal libertação embrionária no âmbito da criação literária ocidental
ocorrera pelo viés do ato da Leitura, cujos arroubos impulsionariam o intelectual andarilho da
província de La Mancha, entusiasta dos registros medievais de cavalaria, a resgatar das
páginas do romanceiro trovadoresco o ofício do Rei Arthur e de seus discípulos da Távola
Redonda. Atitude esta caracterizadora de afamado e inconseqüente desvario deste senhor esguio
de aproximadamente cinqüenta anos de idade, que culminaria no divulgado episódio do
enfrentamento dos moinhos de vento confundidos com gigantes inimigos. A partir da publicação
da obra seiscentista Dom Quixote, o hábito de ler livros - sobretudo os de ficção -, abarcaria
de forma rudimentar e retrógrada, no imaginário e inconsciente coletivo do povo brasileiro,
como sendo o principal e mais confiável aliado da loucura humana, de modo que ler passou a ser
uma iminente ameaça à sobriedade cerebral do indivíduo moderno e miscigenado, incauto
habitante destes edênicos trópicos sul-americanos.
Para início de conversa, o livro, diga-se de passagem, não é e jamais poderia ser
injustamente considerado ou rotulado, em nenhuma instância, como elemento causador dos sinais
de insanidade mental, a não ser na consciente proposição artística concebida por Cervantes, com
o intuito de desestabilizar os percursos e vertentes literários, que norteavam o ideário estético
intrínseco a toda prosa de ficção produzida na Europa e, de um modo geral, no Ocidente. No
Brasil contemporâneo, a Questão ou Problematização da Leitura, conforme alguns teóricos se
referem à temática apresentada, fora atirada a um inconcebível patamar de patologia clínica e
contagiosa, a partir da estúrdia experiência quixotesca que, a princípio, justifica e faz com
que a cúmplice nação tupiniquim compreenda nitidamente, quando o presidente da República, o Sr.
Luis Inácio Lula da Silva - um Silva, observa-se! - em informal pronunciamento declarara-se um
não leitor convicto. Por conseguinte, um autêntico anti-Quixote - lúcido e ignorante. Dito isto
e divulgado pelos meios de comunicação, de fato, o incauto ex-líder sindical do ABC desautorizou
qualquer viabilidade de campanha publicitária de âmbito governamental via MEC ou Ministério da
Cultura, no tocante à importância do hábito de ler, especificamente na formação intelectual de
um próspero e ordeiro país, (des)governado por um homem que, num outro inconseqüente depoimento,
desvalorizara o diploma universitário no instante em que esfregava na face de um Brasil
academicista o seu honrado certificado de Torneiro Mecânico, concedido pelo SENAC, cujo insigne
documento o avultara à incontestável condição de chefe de governo republicano. Ora, mas como um
iletrado governante poderia dissimuladamente ocultar da sociedade brasileira esta espécie de
pecado moral ou preguiça congênita, em hipótese alguma confessado por políticos ou pessoas
públicas - a rejeição à Leitura? Mas o fato é que no bojo desta indagação ainda caberia um outro
questionamento: será que se acaso o presidente Lula se autoproclamasse do Oiapoque a Garanhuns
um leitor voraz - do caderno de esporte da Folha de São Paulo sobre o seu Corinthians que o
fosse -, num confessionário público, o renomado chefe desta Tropicália ao Sul do Equador não
estaria ofendendo os seus potencialmente analfabetos eleitores, estupefatos com tal arrogância
proveniente de uma inventada e mal arranjada erudição? Luis Inácio Lula da Silva faz parte de
uma multidão de semiletrados funcionais, aos quais não foram imputados quaisquer programas de
iniciação à Leitura e/ou à Escrita; e, sem sombra de dúvida, isto não decorrera apenas por
intermédio de uma herança miserável ou em razão de sua procedência de imigrante nordestino.
Não. Cabe atentar para uma incômoda - e por inúmeras vezes inconveniente -, constatação fatídica
que deságua impunemente num resignado hibridismo de frase-tese-sentença: O cidadão brasileiro,
de um modo geral, metalúrgico, engenheiro ou presidente da República, não está habituado ao ato
de ler e escrever, não só por exclusiva falta de incentivos educacionais múltiplos, que jamais
foram discutidos com seriedade e boa disposição em nenhum momento da História pátria, como também
por desinteresse e desatenção culturais, que o condicionam a uma deplorável categoria de homens
sem ilustração e imaginação, ainda que bem assistidos e alimentados acima dos parâmetros de
miserabilidade estipulados pelo Fome Zero ou pelo Bolsa Família.
O filósofo grego Platão, em seu Fedro, no capítulo intitulado "A invenção da escrita",
assevera que o livro quando é desprezado ou injustamente censurado, após a sua publicação,
necessitaria do auxílio de seu pai-autor, por não ser capaz de se defender nem de se proteger
por si. De fato, a ínfima parcela da sociedade brasileira, com um grau aceitável de
intelectualidade e consciência crítica, presencia atônita e pacificamente a uma tácita e velada
censura à Leitura, ocasionada por tal síndrome quixotesca, que ultrapassa com folga qualquer
teoria ou campanha contundente e intempestiva a favor da liberdade de expressão. Sim, porque
de certa forma oferecer ao público leitor uma obra literária, ou não, se tornou recorrentemente
uma tarefa menos árdua; e, destarte, não há qualquer hipótese de obstáculo censor - aliás o
seria inconcebível num Estado democrático -, que impeça, proíba ou mesmo imponha modificações
nos registros textuais publicados. Conseguintemente, as autoridades governamentais, qual o
ex-torneiro mecânico Luis Inácio da Silva ou o Prof. Dr. Fernando Henrique Cardoso que, por
cumplicidade com os detentores do poder econômico, consoante denunciava a esquerda em suas
bravatas contestadoras; ou mesmo por ignorância e abominação diante da realidade dos excluídos
intelectualmente, lavam as mãos diante da opinião pública. Todavia, estas autoridades, em suas
gestões políticas, batem no peito heroicamente esbravejando que jamais ocorrera qualquer
interrupção arbitrária ou repúdio de qualquer espécie na concepção, elaboração e publicação
das produções intelectuais dos autores nacionais ou estrangeiros - com exceção, obviamente, da
ocasião daquela esdrúxula e fantasmagórica reportagem, a respeito da inverídica preocupação
nacional mediante o alcoolismo do presidente da República. Por este raciocínio, então estaria
consolidada, pelo viés da não intromissão estatal na execução do tecer laborioso da palavra
escrita, a democracia intelectual onipresente em todas as esferas sócio-culturais da nação
brasileira? Não. Não bastaria apenas permitir democraticamente a publicação dos esparsos
registros ficcionais e acadêmicos, para o conceitual extermínio e exclusão desta praga epidêmica
estranguladora da intelectualidade e do pensamento crítico, denominada Síndrome de Dom Quixote.
Isto porque à imensa camada social composta por miseráveis analfabetos e não leitores burgueses -
o que, no fim das contas, daria quase no mesmo, de vez que todos estariam contaminados por esta
nova versão ou edição da gripe espanhola -, sejam negados, por múltiplas vias, entre as quais o
fator financeiro, o real acesso ao livro publicado; e, posteriormente, mal arranjado nas
prateleiras das parcas livrarias existentes. Ou melhor seria substituir este último vocábulo por
'persistentes', em consonância com os seus fornecedores editoriais, pateticamente suplicando em
conferências ou entrevistas a crucial isenção de IPTU para seus estabelecimentos comerciais?!...
E, de outra feita, caso a questão seja meramente financeira - o que margearia, no mínimo, o
âmbito do questionável em se tratando de Brasil -, por que não se pensar num projeto inovador e
revolucionário de divulgação de tais obras literárias, ou enfim... historiográficas, sociológicas,
filosóficas etc., escritas e publicadas, de modo a capturar este desavisado não-leitor e
inseri-lo convenientemente no universo das Letras impressas? Como resposta, só há uma solução:
a construção de bibliotecas. E, para a concepção deste espaço educacional, as autoridades
federais, estaduais e municipais imaginaria e utopicamente se uniriam, em parceria inédita com
o capital financeiro privado representado, sobretudo, pelos recursos não diretamente monetários
dos Dom Queixosos editores de livros. Para ser mais explícito, o poder público se mobilizaria
na proposição de se erguer ou desapropriar inúmeros prédios, que poderiam homenagear os mais
avultados autores nacionais ou mesmo estrangeiros - quiçá, pelo viés de uma refinada ironia
genuinamente machadiana, a primeira biblioteca inaugurada se chamaria Miguel de Cervantes -,
que sejam publicados por esta ou aquela empresa brasileira ou multinacional, disposta a
contribuir na concretização e execução do projeto não arquitetônico, mas sim intelectual.
Entre outras palavras, as instituições governamentais construiriam bibliotecas públicas,
que seriam abastecidas de livros pelas principais editoras atuantes no país, ou por
instituições diversas conveniadas a estas, por intermédio de um extraordinário mutirão
social de Educação e Cultura. E, por este viés, todas as camadas populacionais decerto
sairiam, para utilizar um termo mais propício e acalentador aos ouvidos dos impávidos
empresários interessados, 'lucrando', e muito!, nesta insuspeita empreitada de espírito
genuinamente patriota inserida nos alicerces do crescimento do patrimônio humano, numa
mobilização de combate e enfrentamento a este indubitável mal-do-século XXI - o repúdio e a
rejeição ao ato e hábito de Ler. Em suma, as construções ou restaurações de tais prédios
seriam denominadas ou batizadas à conveniência dos investidores, a exemplo Biblioteca Guimarães
Rosa, Jorge Luis Borges ou Paul Auster. E estas seriam municiadas pelo capital de produção
livresca daquelas empresas que, decerto, englobariam, a médio e longo prazo, além de um fabuloso
investimento educacional na formação intelectual deste povo tupiniquim afeito ao cancioneiro e à
batucada, a compensação de tais prejuízos financeiros intencionalmente assumidos pelas editoras
brasileiras, quer seja por intermédio de incentivos fiscais propiciados pelas múltiplas
instâncias constitucionais; quer seja pela máxima de que 'todo leitor que se preza sonha e
pretende ter a sua biblioteca particular', conforme aquele inconsolável José, e agora?, do
poema de Carlos Drummond de Andrade, autor que, com a sua sobriedade, talento e inspiração,
muito tentara, possivelmente não em vão, acabar com este mal que assola o país - a síndrome
de Dom Quixote - ou: a (ir)responsabilidade no tocante à importância da Leitura na sociedade
brasileira pós-moderna.
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