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Um estudo sobre a obra de Joaquim Felício dos Santos
MEMÓRIAS DO DISTRITO DIAMANTINO

Eliana Vinhaes

Autora:
Profa. Ms. Eliana Vinhaes Professora de História da UERJ, UGF e Estácio. Mestre em História Social do Brasil pela UFRJ, IFCS, área de concentração em Rio de Janeiro, título: Cantagalo: o uso e a posse da terra e as formas de acumulação e dispersão da terra e da riqueza local (1850-90), orientação Maria Yedda Leite Linhares. Doutorado UFF: Elites Agrárias Fluminenses: século XIX, orientação João Fragoso (não concluído).

 Conta-se que no ponto culminante desta planura [Largo do Curral - hoje Largo de São João] elevava-se outrora, no tempo do descobrimento do Tijuco, um magnífico e gigantesco coqueiro que se avistava de longe balançando sua soberba ramagem no horizonte. Os índios davam-lhe uma idade fabulosa, e veneravam-lhe como árvore sagrada, debaixo de cuja sombra se reuniam os chefes guerreiros quando tinham de tomar alguma deliberação importante. Obrigados a fugir ante os invasores de sua pátria, a sagrada palmeira caiu no poder destes que a cortaram como objeto de superstição; no lugar plantaram um cruzeiro que tem sido renovado até nossos dias. Era com o sagrado símbolo da redenção que o ávido português assinalava suas usurpações.
A lenda Acaiaca: narração imaginária da origem sobrenatural do diamante do Tijuco

1 Apresentação da obra

Joaquim Felício dos Santos nasceu em 1828 na Vila do Príncipe, Minas Gerais e faleceu em 1895. Fez seus cursos preparatórios no Colégio dos Lazaristas (Congonhas do Campo). Formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo, saindo como bacharel em 1850. Voltou então para Diamantina, sua terra de adoção, onde passara sua infância e adolescência. Lecionou História, Geografia, Francês e Matemática no Ateneu de São Vicente de São Paulo (1852-63). Lecionou no Seminário Episcopal (1864) e participou do corpo docente do Colégio Perseverança, além de dar aulas particulares.
Integrado na corrente de idéias liberais aproximou-se da política, que acreditava praticar sem favoritismos e conforme seus postulados doutrinários. Seu programa norteador se aproximou ao de Teófilo Otoni e de outros vultos do radicalismo liberal ( projeto de Constituição de 1831 e de Pouso Alegre). Foi influenciado por clássicos como Scott, Cooper, Les Natchez, Atala, Hugo, Dumas, Sue e Alencar1. Quanto à organização formal de sua obra,"Memórias do Distrito Diamantino" podemos afirmar que teve três edições2. O exemplar analisado foi a 3ª edição.A nota Introdutória foi elaborada por Herberto Sales. Seu Prefácio foi feito por Joaquim Ribeiro, suprimindo o de Nazaré Meneses, por ser considerado eminentemente elogioso, distanciando-se da proposta da edição em questão. Conserva-se as notas feitas por Nazaré Meneses, com exceção à que se refere aos bens do Morgado de Grijó, alvo de um processo à época.
Seu estudo biográfico foi feito por José Teixeira Neves e o estudo crítico por Alexandre Eulálio Pimenta da Cunha, ensaísta mineiro. A bibliografia e seus apêndices foram também feitos por Alexandre da Cunha, que também se ateve às notas remissivas e atualizou a grafia original.
A obra foi composta em 42 capítulos, em que trata das formas de ocupação da região Diamantina e das imposições sobre ela, de uma legislação para o trato e extração das riquezas locais, visando os interesses metropolitanos, denunciados pelo autor. A obra registra o papel desempenhado pelo fisco metropolitano, até a década da extração d ouro e do diamante.
Quanto aos objetivos da obra podemos discriminar o momento em que foi escrita e o momento em que foi editada. Ao ser escrita, seu objetivo era eminentemente político, no engajamento do movimento liberal da época, que lhe dá sentido de resistência às imposições metropolitanas. O jornal "O Jequitinhonha", que deu subsídios à publicação deste livro inicia suas edições em 1860. Entretanto, ao ser editado, na conjuntura de 1956, a conjuntura apontava para um estudo do Brasil em seus múltiplos As coleções especializadas proliferavam. O objetivo era ampliar o quadro da documentação para servir à cultura brasileira e a programas cívicos do tipo AMAR É CONHECER. O objetivo da coleção era, então, o de não se afastar "das fontes idôneas" (1856:13), dos estudos ditos objetivos, das pesquisas documentais e das contribuições proveitosas e úteis ao esclarecimento do passado e do presente brasileiro, no que se insere a obra de Joaquim Felício dos Santos, daí a pertinência da reedição da obra.
Quanto à sua posição dentro da área do conhecimento, pode ser inscrita sob a influência da Escola Liberal Francesa, identificada com Augustin Thierry e P. Barante (quase um romancista do Romantismo). Na sua origem, estes historiadores foram periodistas e homens vinculados à política. Ambos entram na história como defensores da causa liberal, combatendo a aristocracia. Fazem uma história pragmática, que se encaminha a certa indulgência com as revoluções, mas revoluções de caráter liberal (gironda). Eles recolhem teses dos racionalistas a Montesquieu. Usam crônicas como formas de relatos. Sua linguagem é pitoresca, introduz discursos e procura reproduzir o vivo e o concreto.
Quanto aos procedimentos metodológicos, podemos afirmar que se orientam pela utilização sistemática de documentos jurídico-políticos, bem ao estilo da formação do autor, tais como Instruções, processos executivos, Portarias, Bandos, Ordens, Deliberações das Juntas, Regimentos de Execução das Leis etc. Estes dados vão servir ao autor para a reconstrução das Memórias do Distrito Diamantino. Preocupa-se com a veracidade da documentação (fontes fidedignas) e utiliza a cronologia para relacionar os acontecimentos.
Para Thierry "o passado não estava morto e os seus atores eram homens com paixão como as nossas" (1956:15), complementando, com Joaquim Ribeiro, que vê a necessidade em Joaquim Felício dos Santos em colocar "a presença do povo na reconstituição do passado" (1956:15). Sua intuição social lhe conferia originalidade, pois trabalha com o cotidiano do trabalho no Distrito Diamantino.
"O que temos de narrar ouvimos de testemunhas oculares e fidedignas" (1956:357).
"Preferimos, sempre que se nos oferece ocasião, transcrever textualmente as disposições das leis e resumi-las: a linguagem do despotismo tem certa força e energia, que não será fácil imitar nos nossos tempos" (1956:175). Sua obra é considerada, portanto, mais de historiografia do que de memorialista, apontando para o regional, mas não se restringindo a ele.

2 A obra

Silvio Romero considera a obra de Joaquim Felício dos Santos como "o latejar da vida sertaneja, no seu realismo rústico e agreste" (1956:15). O povo serviria para contribuir para a reconstrução do passado, com uma visão romântica do povo expropriado.
A posição do autor quanto ao Estado gira em torno de que o Estado Absolutista era alvo constante de suas críticas. Para ele, defensor ferrenho da Constituição, esta era a forma liberal de expressão do poder. No período colonial suas críticas ao despotismo metropolitano não chegam a apontar para o regime republicano. Mais do que a favor da República, era contra o despotismo. Na construção da Independência, sua preocupação era a ameaça da recolonização. É, portanto, favorável ao Estado Liberal.

 A história de Minas nos primeiros tempos, depois do descobrimento das lavras auríferas, quase que só consiste nas variações das ordens sobre a maneira de tributar o ouro em benefício da fazenda real, e na relutância e resistência que faziam os mineiros, com mais ou menos sucesso, ao vexame e severidade com que eram executadas (1956:55).

Foi esta uma invenção bem engenhosa, digna do gênio e inspiração do despotismo: um filho podia denunciar o pai, um irmão o irmão, um amigo o amigo, um escravo o senhor, depois receber o prêmio da denúncia e ficar desconhecido o nome do denunciante (1956:176-77).

Quanto à representação política era favorável ao sistema representativo constitucional, embora faça restrições à forma como se instituiu no Brasil, tanto no período colonial, como no imperial. E justifica sua posição alegando que esta se devia "(...) pela degradação a que entre nós tem descido o sistema representativo" (1956:357). Segundo Felício:

 Éramos regidos com leis particulares, debaixo de autoridades especiais, como uma colônia isolada, segregada do resto do Brasil. (...) As vistas da côrte era haver todo o proveito do descobrimento dos diamantes (...) Procuravam não se desviar das determinações da corte, embora com o sacrifício dos povos, porque conheciam que de tanto mais confiança gozariam, quanto mais promovessem os interesses do fisco (1956:75).

"As palavras do hino - a lusa constituição, foram substituídas pelas - a louca constituição" (1956:361).
Sua posição quanto à Igreja era de nítida associação entre seus interesses e os de sua Metrópole, descuidada do sofrimento do povo. Criticava determinadas práticas de ordens religiosas.

 Esta ordem de Nossa Senhora do Carmo é bem singular: nela só entram pessoas de cor branca, as negras e mulatas são excluídas (...). Por certo não foi no Evangelho que os carmelitas encontraram o fundamento dessa distinção. Assim são muitas coisas contra o verdadeiro espírito da religião cristã, que bem entendida é a única que pode ir a par dos progressos e civilização dos povos (1956:163).

O autor revela algumas contradições que se expressam na localidade, entre os interesses metropolitanos e o poder local. O não atendimento aos Regimentos baixados para o Distrito é explorado como fator facilitador do desenvolvimento da região.

Quanto à questão de grupos sociais, ele os aborda de forma ingênua e romântica, associando o bem ao povo e o mal à Coroa ou à corrupção das instituições. Seu trabalho é permeado de denúncias ao estado de penúria do que ele chama de povo (indiscriminado e heterogêneo), decorrente de medidas arbitrárias e injustas com a população de Diamantina.

 Uma classe que se tornara numerosa no distrito demarcado do Tijuco era a dos faiscadores de ouro, pela maior parte composta de gente pobre, que não podendo empreender serviços de maior importância, mineravam aproveitando as restingas, isto é, o rebotalho das terras já lavradas, em busca de algumas piscas de ouro que ficavam dos grandes serviços abandonados; ou trabalhavam nos enxurros ou corridos de lavras superiores (1956:130) (...); e quando ele era econômico com essas sobras formava um pequeno pecúlio (...) (1956:130).

"A classe dos mineiros, em geral, pobre e com falta de recursos, só trabalhava para enriquecer a real fazenda, dar interesse aos comerciantes, sem nunca poder arranjar pecúlio, acumular capital" (1956:277).
"Assim aos pobres era impossível a mineração, por faltarem-lhes meios para pagar o arrendamento; e os ricos não quiseram arriscar sua fortuna contando um lucro precário e quase certo prejuízo" (1956:64).
Felício pouco se refere aos índios, mas quando o faz, considera-os inimigos do povo: "Eram assim duas povoações ainda nascentes, ainda fracas, ainda baldas de recursos e de forças suficientes, para, nomeio de um deserto infestado de animais bravios e de inimigos encarniçados, os indígenas, poderem subsistir separados(...)" (1956:52).
Quanto aos negros, mulatos e mulatas forros, considera-os prejudicados pela política metropolitana na região, excluídos de acesso, pelas determinações reais, de participar da atividade mineradora em benefício próprio. Neste sentido, a crítica que relata é extensiva aos habitantes da região, impossibilitados pelo controle metropolitano. Apenas cita o que ocorre com deslizes de escravos na região, sem se sensibilizar profundamente com estas medidas.
"(...) o escravo, que entrasse de novo sem licença, ou não estivesse matriculado devia ser condenado a três anos de galés pela primeira vez, e a dez na reincidência" (1956:174).
Entretanto, repugna-o o tráfico, bem ao estilo do século XIX, renegando a venda de escravos e os que a gratificavam.
Suas "minorias" eram os habitantes do Tijuco, muito e injustamente aviltados pela Metrópole portuguesa. Faz restrições a certas práticas da Igreja, quanto ao tratamento pouco equânime aos fiéis.
Seu relato faz algumas referências ao ideal liberal como alternativa de progresso, mais especificamente para a região.
O fato de a metrópole apresentar dependência em relação aos países europeus explicaria, na opinião do autor, o aprofundamento dos custos para a região. No caso dos Tratados de Limites (Badajós), o que lhe preocupa, mais explicitamente é o custo da assinatura do Tratado, que recairá sobre a localidade.
Com relação ao Tratado de Madri comenta que seu custo foi alto (dez milhões de cruzados), sendo que grande parte foi paga com diamante (um milhão). Para ele, pagou-se muito à Inglaterra e à Holanda em diamantes (1956:185)3.
Relata a decorrência da saturação dos mercados com diamantes e sua conseqüente baixa de preços do produto, ocorrido no século XVIII ocasionando a demissão de 300 empregados da Administração do Tijuco, mais 3.000 forros ou escravos (1956:187).
Sua posição quanto ao conceito de Revolução é ambígua e condescendente. Acena para o potencial "revolucionário" da região, embora considere o movimento incipiente.
Sua simpatia pelo movimento de rebeldia local se explicita quando emite sua oposição quanto às cortes portuguesas e suas tentativas de recolonização do Brasil. Também se expressa quando da "revolução" do Porto, ansiando por sua constituição.

 A liberdade política, consistente na faculdade de praticar tudo o que por lei não for percebido; igualdade de todos os cidadãos perante a lei sem distinção de classes privilegiadas; a inviolabilidade do direito de propriedade e da segurança pessoal, não estejam por lei anteriormente designadas; a estigmatização das penas de confisco, de infâmia, de açoite do baraço e pregão, a marca do ferro quente, da tortura, e de outras que só serviam para degradar o homem e sua posteridade, sem corrigi-lo (...) (1956:333).

Sua idéia, portanto, de revolução se restringia aos conceitos de constitucionalidade, de direitos burgueses. Fica explícita sua posição de legista liberal.
Posiciona-se sistematicamente contra as medidas fiscais, impostas ao Tijuco e de como elas eram aplicadas de forma arbitrária.
"Sempre que se publicava alguma lei sobre os negócios dos diamantes, o Governador ou o Intendente lembrava-se também de mandar publicar um bando ou ordem, ou portaria, ou edital contendo medidas tendentes à sua boa execução" (1956:137).
E continua:

 Estas disposições complementarias de ordinário não iam muito em conformidade com a lei, mas como na sua exorbitância eram sempre no sentido do arrocho, favoráveis ao Fisco e ampliativas das penas estabelecidas, ficavam subsistindo como parte integrante da lei, apesar das reclamações do povo (1956:137).

Considera o contrabando como a saída possível para o habitante do Tijuco. Fala das dificuldades de sobrevivência porque passa o contrabandista que convive com o confisco das terras, que favorece aos que estão em consonância com a Metrópole.
"Com uma grande dificuldade lutava o contrabandista (...) (1956:211).
Refere-se ao garimpeiro dentro de uma ótica romântica, considerando-o um homem pacífico e que só deseja desempenhar sua atividade sem se ocupar de represálias e vinganças. Idealiza as proezas de João Costa, considerando-o quase um modelo das populações do distrito.
"Era tal a fama de João Costa, por suas proezas, bravura,ousadia e coragem, que cada um imaginava ir ver um Golias, um gigante da fábula, um ente extraordinário, sobrenatural" (1956:205)

3 Considerações finais

Sua obra contribui de forma inédita, reconhecida por especialistas, pois pretende dar um caráter científico à documentação, que maneja com intimidade. Pretende a recuperação da memória local, sem desvincular a parte do todo. Outra contribuição inédita é a incorporação à cena histórica, atores até então pouco evidenciados, como o homem anônimo da região da mineração.
O arrolamento das fontes, complementado por depoimentos inéditos, embora carregado de sua seleção liberal, bem ao estilo da época, às vezes aparece pouco nítida. Entretanto, o autor pretende que, com fontes transcritas no corpo do texto de documentos considerados "verdadeiros" e "fidedignos" a reconstrução do passado desejado estaria livre de "contaminação", tão ao estilo positivista da época.
O tratamento da documentação pretende o resgate da veracidade da história, ainda que impregnada de seu posicionamento político antiabsolutista e constitucionalista, afinado com sua formação intelectual e o contexto da época. Entretanto, introduz uma nova relação com fontes locais, até então, muito pouco trabalhadas.
Dentro destas ressalvas, há que se considerar a contribuição de Joaquim Felício dos Santos para a Historiografia do Brasil um valioso trabalho a ser consultado.
1Escreveu Aicaiaca, romance indígena, Memórias do Distrito Diamantino (1868), também escreveu Apontamentos para o Projeto do Código Civil Brasileiro(1882),P rojecto do Código Civil e Commentário (1884-87) e Projeto do Código Civil da República dos Estados Unidos do Brasil (1891. Escreveu também, novelas e contos como Scenas da vida do Garimpeiro João Costa (inacabada) em 1862, Os Invisíveis(1861), Braz (1862),Poção do Moreira (1862, Um Manuscrito Velho (1863- inacabada), O Acaba-Mundo (1863) e Capitão Mendonça (1863.Para o teatro escreveu O Intendente dos Diamantes (1861), John Bull (1863). Quanto à sátiras políticas, escreveu Páginas da História do Brasil escriptas no Anno 2000 (1868) e Inferno (1874). Escreveu Crônicas Soltas e As lavras Diamantinas e mais páginas de Mineração. Edita Sentinela do Serro ( 1º exemplar d´O Jequitinhonha, 30/12/1860). Participou d´O Jequitinhonha,jornal político, literário, comercial, noticioso, cuja epígrafe era "À lei seu império, aos homens sua dignidade".

2A 1ª edição (1868) foi feita pela Tipografia Americana; a 2ª (1924) pela Livraria Castilho e a 3ª (1956) pelas Edições Cruzeiro, Coleção Brasílica, no volume inaugural.

3Ver Anais da Biblioteca Nacional, vol.79-80