Agliberto Cruz Correia, Helena Maria da Silva e Maria Cecília Barros da Silva
Cada geração tem, em sua cidade,
a memória de acontecimentos
que permanecem como
pontos de demarcação em sua história.
Ecléa Bosi
PALAVRAS-CHAVE: educação – memória – Guanabara
O presente trabalho reflete as primeiras observações de uma pesquisa que busca investigar as lembranças de alunos, pais e professores de escolas públicas, que oferecem seus testemunhos, através de entrevistas1, e contribuem para a compreensão do projeto educacional da Guanabara.
Após a posse como primeiro governador do recém-criado Estado da Guanabara, em 1960, Carlos Lacerda iniciou a estruturação de alguns setores da administração pública, herança dos tempos de Distrito Federal, dentre eles a Educação, que fora um dos principais pilares da sua campanha eleitoral. A ampliação do número de vagas para a educação transformou-se, então, em um dos principais objetivos de seu mandato.
O Estado da Guanabara ao mesmo tempo em que se constitui em uma nova unidade da federação, reorganizando-se do ponto de vista administrativo e político, reconstrói, também, um sentido para a educação. A sociedade produz um sentido para a sua escola coletivamente à medida que se organiza como um estado. A cidade do Rio de Janeiro – a antiga capital do Brasil - por séculos nessa condição, aos poucos constrói sua nova identidade, a de Estado da Guanabara.
Simultaneamente à estruturação da máquina administrativa estadual, Lacerda se empenhou na implementação de seu “plano de metas”, para usar uma expressão em voga na época. Três dessas metas podem ser identificadas como aquelas que não só mereceram especial atenção do governador, bem como são as que até hoje lhe dão um lugar especial na memória política carioca: a ampliação do sistema escolar, o abastecimento de água e a ordenação do espaço urbano da Guanabara. (MOTTA, 2000:58)
Para CASTORIADIS (1999: 281) “(...) a sociedade é criação, e criação dela mesma”ea escola pública, dos tempos da Guanabara, em seu projeto e forma, é o resultado dessa construção da sociedade, posto que é parte essencialmente integrante e representativa. E o sentido de escola pública que conhecemos hoje foi um dos legados da Revolução Francesa, e constitui-se em uma instituição que deveria assegurar a sustentação da democracia, e por conseqüência garantisse a preparação do cidadão para a vida no espaço público.
Durante toda a campanha para eleger o primeiro governador da Guanabara, a educação e a carência de vagas na rede pública foi um dos temas mais recorrentes. A imprensa repercutia de maneira insistente as longas filas de responsáveis à espera de matrícula para seus filhos e parentes. Apesar do Rio de Janeiro guardar como legado dos tempos de capital uma das maiores redes de escolas públicas, ainda apresentava um déficit de crianças em fase escolar ainda não atendidas pelas unidades escolares.
(...) antes do governo de Carlos Lacerda, a educação no bairro era considerada como muito carente. Não tinha quase escola. Era muito carente mesmo, só tinha
uma escola.
(...) depois da inauguração das escolas no governo de Carlos Lacerda (a situação de carência de vagas) melhorou bastante. Para as crianças foi muito bom. As crianças tiveram um bom rendimento. E para os pais das crianças, que tiveram paz, tranqüilidade e ainda matricularam seus filhos nessas escolas. (...) o pai (de aluno) não precisou mais sair de madrugada pra entrar em fila de matrícula nem nada.
A lembrança que eu tenho é da construção de escolas, o que foi muito comentado.
A abertura de novas matrículas para as escolas públicas era, sem dúvida, um dos projetos de maior impacto e apelo social na gestão de Lacerda. E, de fato, em pouco tempo a evolução do número de matrículas no ensino primário fez-se visível. A matrícula de alunos da rede oficial de ensino quase dobrou ao longo do seu governo. O seu principal objetivo era garantir vagas para todas as crianças em idade escolar da Guanabara.
O Governador Carlos Lacerda inaugurou muitas novas unidades escolares na cidade-estado. Os novos edifícios construídos seguiram dois padrões arquitetônicos bem distintos. Um desses exemplos permanece profundamente marcado na memória dos que habitam a cidade. Espalha-se por todas as regiões e continua a fazer parte da paisagem urbana.
Essas novas escolas ainda hoje são significativas para a população carioca. Refletem a memória do povo dos bairros da cidade. Localidades que adquirem uma identidade própria construída em parte pela memória da escola. A escola pública de hoje, herança dos tempos da Guanabara, em seu projeto e forma, é o resultado dessa construção da sociedade.
REDE ESCOLAR PRIMÁRIA DA GUANABARA (1960-1965)
|
Nº MATRÍCULAS |
ALUNOS/
100 HAB. |
ESCOLAS |
SALAS |
PROFESSORES |
1960 |
232269 |
7.0 |
362 |
2960 |
8893 |
1961 |
296872 |
8.9 |
383 |
3340 |
10057 |
1962 |
338246 |
9.7 |
444 |
3794 |
11028 |
1963 |
353075 |
10.2 |
467 |
3961 |
12002 |
1964 |
395041 |
10.6 |
523 |
4037 |
12858 |
1965 (até junho) |
421593 |
11.3 |
550 |
4512 |
14936 |
FONTE: Estado da Guanabara (1965)
Esses prédios escolares, construídos com verbas orçamentárias da Secretaria de Educação, possuíam revestimento externo em tijolos aparentes, com grandes janelas de basculantes. O tamanho das unidades escolares variava entre quatro e dezesseis salas de aula.
O outro modelo de arquitetura corresponde a uma escola pré-fabricada, que tinha como condição a entrega acelerada de salas de aula para o pronto atendimento da carência de vagas, exigência do compromisso assumido pelo então candidato Lacerda, durante a campanha eleitoral.

Para efetivar esse projeto de empreendimento urgente, que se apresentava, Carlos Lacerda criou a Fundação Otávio Mangabeira - FOM - através da publicação do decreto nº 294/60. A FOM, como ainda hoje é conhecida, era uma instituição sem fins lucrativos que tinha o propósito de angariar recursos para entre outros objetivos, construir novas escolas públicas para a rede estadual. A fundação captava fundos entre entidades e pessoas físicas, sob a forma de donativos, contribuições e subvenções da iniciativa privada.
As escolas pré-fabricadas patrocinadas pela Fundação Otávio Mangabeira eram construções compostas por cinco salas de aula, além dos outros ambientes administrativos. Essas escolas foram planejadas para serem erguidas em cerca de quatorze dias, e para durar em torno de cinco anos. Quando, então, seriam recompostas para tornarem-se prédios permanentes.
Ao fim do mandato, Carlos Lacerda havia inaugurado quarenta e duas Escolas FOM, como ainda hoje a Secretaria Municipal de Educação refere-se a elas. Dessas, trinta e cinco unidades permanecem em funcionamento; algumas chegaram a sofrer profundas modificações, enquanto outras se conservam, em aparência, muito semelhantes ao momento de sua inauguração.
Na Zona da Leopoldina, região geográfica em que a pesquisa se restringe, cerca de oito escolas FOM foram erguidas, entre 1962 e 1963, mesmo período em a maioria das escolas FOM também foram inauguradas. Podemos, portanto, perceber o grande esforço governamental em demonstrar resultados para uma população que o havia escolhido a partir de promessas tão determinadas.
A senhora Célia - moradora da região em foco - reflete o pensamento de dos eleitores de Lacerda, que reivindicavam escolas para seus filhos, com grande urgência.
Um falatório, cada um falando: “aquele escola não vai durar, aquela escola é de papelão, não vai durar nem seis meses”. Aí eu disse: "Antes fizessem mil escolas de papelão, mas que fizessem escolas".
Ainda a mesma moradora comenta a impressão da população do bairro, preocupada com as condições físicas da escola pré-fabricada. A precariedade das escolas FOM era comentada por toda a vizinhança, mas muitos pais beneficiados pela construção da escola, acreditavam que a existência do prédio escolar no local era fundamental e, então o saldo era positivo. A população afirmava que muitos estavam habituados às mesmas condições de precariedade, inclusive aqueles que viviam em casas na favela, levantadas com a utilização de papelão.
(...) E ele era um dos que dizia, veementemente "essa escola não ia durar nada...
não vou gastar dinheiro com escola de papelão". Mas aí, (até) hoje, a 'escola de
papelão' mantêm bons professores (...).

Como confirmam as imagens, o prédio escolar é uma construção simples, bem rústica, levantado com placas de fórmicas, demonstrando grande fragilidade. Apesar dos problemas evidentes, ao se observar a placa de inauguração, constata-se que esse ano esta escola está completando 45 anos, tendo sofrido modificações no terreno e algumas outras para ampliar o número de vagas. Entretanto, a estrutura original permanece ainda intacta.
Os antigos moradores entrevistados afirmam, apesar dos comentários da vizinhança, que a grande procura por matrícula nessa escola “precária e frágil” se concentrou em famílias que consideravam uma escola menor, ou seja, com um número reduzido de alunos e turmas, poderia representar um cuidado maior com as crianças, um atendimento mais acolhedor para o alunado. Confiavam que o ambiente tornar-se-ia mais aconchegante.
(...) achou que a escolinha era pequena, que seria uma escola melhor, mas que
seriam mais bem atendidos, os professores teriam mais tempo, poderiam ver as
crianças, vigiar mais. Tudo isso foi questionado pelas mães na época. Uma
passava a palavra pra outra... um ambiente tão pequeno, tão aconchegante e os
professores tão atentos, vendo tudo.
A classe média que, inclusive, teria condições para sustentar os filhos matriculados em escolas particulares, preferia mantê-los em escolas da rede oficial de ensino porque eram avaliadas como instituições de excelência. Há famílias que admitiram a possibilidade de matricularem seus filhos em escolas particulares, entretanto elegiam a escola pública como o melhor local para a educação de suas crianças.
Meus dois filhos estudaram em escola pública. Minha filha, hoje, é formada, é
pedagoga, e a base dela foi escola pública (...)
Mas, por mais que eu até tivesse condições de colocar meus filhos em escola particular, como outras também da classe trabalhadora, eu os coloquei em escol
a pública (...) por causa da qualidade do ensino. Eu estudei em escola pública, eu
tinha um exemplo do ensino.
As pessoas escolhiam a escola pública porque tinha mais prestígio. Quem
estudava era bom aluno.
(...) o ensino era melhor na escola pública. E o ensino era realmente bem
puxado.
A memória carioca das escolas públicas constitui-se a partir dessas vivências do urbano, de um projeto encarnado por Lacerda na época da estruturação do Estado da Guanabara. Essa escola é o fruto da ação da sociedade que produz os cidadãos que instituem através da criação a mesma escola. Castoriadis (1992:123) assegura que
(...) a sociedade faz os indivíduos que fazem a sociedade. A sociedade é obra do
imaginário instituinte. Os indivíduos são feitos, ao mesmo tempo que eles fazem
e refazem, pela sociedade cada vez instituída: num sentido, eles são a sociedade.
A confiança no bom trabalho da escola pública era constante na época. Os depoimentos dos entrevistados são recorrentes quanto à opinião de que a escola pública possuía bons professores, alcançando a qualidade esperada, como afirmam antigos moradores:
Sempre houve confiança nas escolas públicas.
Porque aqui mesmo tinham poucas escolas e com esse projeto dele (o Governador Carlos Lacerda) criaram-se novas escolas e as crianças ficaram bem servidas.
(...) o meu filho se tornou professor estudando numa escola do governo.
A escola pública possuía um consultório médico e odontológico que funcionavam atendendo às crianças matriculadas na unidade escolar, que demonstravam necessidade desse serviço. A entrevistada lembra, sobretudo, da freqüência em que os atendimentos odontológicos ocorriam, em número superior às consultas médicas. Alguns depoimentos referem-se a famílias que
Eu nunca usei com a minha filha (o Gabinete médico-dentário), mas
sei que havia sim, as crianças eram atendidas, principalmente dentistas (...)
A alimentação escolar abrangia uma refeição na entrada da aula e outra na hora do recreio. A dieta do estudante já se demonstra como item importante do projeto educacional. Mesmo em uma escola em que afirmam que muitos dos alunos eram oriundos de famílias de classe média, a merenda escolar é um item lembrado por pais e moradores do bairro.
Tinha o desjejum, tinha a comida, um mingau... Mas tinha sempre um mingau,
leite, biscoito. Foi uma fase muito boa para as crianças.
Foi uma coisa muito boa para o bairro, acolheu muitos alunos, sendo uma escola
de primeiro nível. No estudo, na qualidade, tanto da merenda quanto das
crianças.
Eu comia a merenda oferecida pela escola, era uma merenda gostosa.
Todo mundo comia, o refeitório ficava bem cheio.
A instituição da escola, suas vivências, seu cotidiano deixa um legado na memória do lócus urbano. A escola pública na década de 60 vincou profundamente a memória da sociedade carioca que traduz através dos testemunhos assinalados. Toda sociedade, no seu processo de criação, estabelece os valores, o padrão de ética e de comportamento, e as leis que irão regê-la. Assim acaba por estabelecer, também, a sua escola ideal. As sociedades são formadas por instituições que, em contrapartida, a formam e a fazem existir. A escola pública não é apenas criação de um dado momento histórico bastante particular, mas apresenta-se como permanente recriação.
O homem só existe na sociedade e através dela. E esta sempre é histórica. Resultado de autocriação, como nos explica Cornelius Castoriadis ao longo de toda sua obra. As escolas FOM representam um momento histórico da cidade, as quais vincaram decisivamente a memória escolar do povo carioca. As sociedades são como sistemas de sentido que formam um todo singular do qual a escola é parte essencialmente integrante, refletindo um momento histórico singular.
ENTREVISTADOS
Carlos de Andrade (morador de Olaria e Brás de Pina, região da Leopoldina)
Célia Cardoso (moradora e mãe de aluno de uma escola FOM, no bairro de Brás de Pina, região da Leopoldina)
Dilma Correia (moradora e mãe de aluno de uma escola FOM)
Leonor Sant’Anna (professora)
Loriene Cardoso (ex- aluna e professora)
Agliberto Cruz Correia (ex- aluno e professor)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTORIADIS, Cornelius. O Mundo Fragmentado: as encruzilhadas do labirinto 3. Trad. Rosa Maria Boaventura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
CASTORIADIS, Cornelius. Feito e a ser feito: as encruzilhadas do labirinto V. Trad. Lílian do Valle. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.
COUTINHO, Mª Angélica da G. C. Carlos Lacerda e o tipo antropológico das professoras da Guanabara. R.J.: Dissertação de Mestrado, PROPEd/UERJ, 2004.
MOTTA, Marly Silva da. Saudades da Guanabara: o campo político da cidade do Rio de Janeiro (1960 – 75). Rio de Janeiro: FGV, 2000.
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